Sobre o método…

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

No caminho do cientista o método assume papel de relevo. Você, que está iniciando este caminho, suponho que esteja também interessado nele. Neste texto, introdutório, espero ser capaz de facilitar sua aproximação do conceito. Especificamente, espero ser capaz de mostrar que envolve muito mais o “pensar” que o “fazer”.  Se conseguir isto ficarei feliz.  Por favor, ao final deste texto deixe seus comentários , para saber se atingi o objetivo.

Só mais uma coisa. Ao final do texto você vê uma apresentação deste tema. Utilizo-a em minhas aulas. Espero que goste.

Então, vamos lá!

O que é método?

Método é antes de tudo uma maneira de pensar.  E isto você pode perceber a partir da etimologia da palavra. Buscando suas raízes gregas; “método” pode ser dividido em duas partes:

  • Methatravés, para além de, após   OdosCaminho

Significa dizer, no meu entendimento, que método é aquilo que surge após o caminho. Isto é, você faz algo, pensa sobre o que fez e então é capaz de ter em mente o plano que você seguiu. Por exemplo; o que deu certo, seus erros, o que você deveria ter evitado, o que você poderia ter feito, etc. E esta forma de definir método está de acordo com o que diz KAPLAN: “Compreensão dos resultados e principalmente do processo”.

HEGENBERG chama a atenção para o fato de que o método é algo que deu certo, mesmo que não tenha sido pensado a priori: “Um processo exitoso de descoberta, não necessariamente pré-fixado”.

E para ACKOFF ter método é bom, já que este é uma forma de decidir entre técnicas. Uma dúvida que pode surgir, é que frequentemente método e técnica são entendidos como se fossem o mesmo. Mas isto não é verdade. Método aqui é a regra de escolha. Já técnica é o resultado da decisão. De forma simples, o método entra em ação quando você pensa no que vai fazer (ou no que fez), enquanto a técnica existe quando você está fazendo o que pensou (ou pensará).

Assim posso entender a técnica como a ferramenta usada para testar as as ideias do pesquisador. Por exemplo: Questionários, entrevistas, etc. Já o método é a regra de escolha da ferramenta, a forma de planejar, o plano mestre. Por exemplo: Quantitativo, qualitativo, etc

Metodologia é o estudo do método, e ao estudá-lo podemos entendê-lo dirigido a três categorias. No trabalho científico e intelectual, na ciência e na pesquisa.

A Metodologia do trabalho científico e intelectual, preocupa-se com o trabalho em si. Assim debruça-se sobre a aprendizagem significativa, a motivação do trabalho intelectual, as qualidades do intelectual, seus métodos de estudo assim com os métodos do trabalho científico.

A Metodologia Científica lida com a Ciência em aspectos mais filosóficos e neste sentido aproxima-se da epistemologia. Assim seu foco é, por exemplo, sobre o conhecimento científico, as hipóteses, variáveis, leis e teorias. Estuda a proposição científica e o processo de pesquisa.

Finalmente  a Metodologia da Pesquisa foca principalmente nas técnicas de pesquisa, tais como o delineamento de estudos epidemiológicos, qualitativos, teóricos, etc.

O que é pesquisa?

Há várias maneiras de defini-la, mas no sentido estrito e limitado deste texto é o resultado do método. Você pensou no que que precisava fazer e então começa a fazer.

Note que aqui “fazer” não é necessariamente uma ação concreta sobre objetos concretos. Claro que se você está querendo saber se um determinado medicamento funciona, o teste vai implicar que em algum momento você vai agir em ambientes médicos, diagnosticando e tratando pacientes.  Aqui haverá ações concretas sobre eventos concretos. No entanto fazer pode ser mais abstrato, por exemplo realizar uma meta-análise onde você analisa artigos onde pesquisadores usaram concretamente aquele seu medicamento de interesse em pacientes reais. Ou pode ser ainda mais abstrato, por exemplo ao escrever sobre o conceito de doença. Mesmo aqui você estará “fazendo”; analisando e comparando conceitos, contrastando posições similares, mediando posições antagônicas, apontado lacunas e incorreções além de outras ferramentas da argumentação.

Por isto uma forma interessante de entender a pesquisa é inseri-la no chamado “Espaço Quadripolar” (Bruyne). Este autor entende a pesquisa no contexto de quatro categorias: o Epistemológico, o Teórico, o Morfológico e o Técnico.

No polo Epistemológico a preocupação é com a validade do discurso. O enfoque está na natureza do conhecimento. Como diz a Enciclopédia Stanford de Filosofia “…Epistemologia é o estudo do conhecimento e da crença justificada.”. Por exemplo, em um artigo científico ela perguntaria, entre outras coisas, se suas afirmativas podem ser consideradas conhecimento verdadeiro ou apenas opinião do autor.

No polo Teórico se apresenta a teoria de enquadre. Por exemplo, ao testar o efeito da cefalosporina em uma dada doença, você implica aí um conjunto de conceitos sobre o que é doença, o que significa tratar um paciente, o que é um paciente, e etc. Aqui, como no caso anterior estes aspectos ficam pouco visíveis na prática. Por um lado porque não são temas comuns de discussão e por outro porque estão em geral tão profundamente compartilhados  nas comunidades intelectuais que quase se tornam não objetos. Mas ressalto que isto não significa que estejam ausentes ou que não exerça um papel significativo na condução e resultados da pesquisa.

Já o polo Morfológico é mais visível. É nele que se apresentam os  conceitos operacionais da pesquisa. Assim por exemplo temos os critérios diagnósticos e de cura de uma determinada doença, valores laboratoriais, etc.

Finalmente o polo Técnico inclui as  técnicas de pesquisa e as regras de determinação. É onde você verifica se o estudo foi um caso-controle ou um ensaio clínico controlado, por exemplo. É ainda onde você afirma que seus dados foram submetidos à um teste estatístico específico. E também onde você expõe os seus critérios de inclusão e exclusão.

A realização de uma pesquisa, considerada neste contexto, passa muito resumidamente por três fases; a exploratória, o trabalho de campo e a análise do material. Claro que ao final você deve publicar o seu material, mas isto é tema para outro tópico.

Na primeira fase, a exploratória é onde você lança as bases para tudo o que se segue e portanto é tanto importante quanto desconsiderada.

Nela você escolhe o tema, e isto deveria ser muito bem cuidado. Você precisa conhecer bem o assunto, tanto do ponto de vista teórico como do prático. É na sua experiência pessoal que você modula o que aprende e também o que vai pesquisar.

Isto permite delimitar o problema, impor limites à sua pesquisa. Isto é, transforma o tema da pesquisa em um objeto de pesquisa. Significa dizer que você definirá precisamente o que vai pesquisar, discriminado-o de tudo o que é parecido e gera confusão no seu estudo.

Desta forma então você está pronto para construir os seus instrumentos de pesquisa; formulários, fichas, equipamentos, procedimentos, etc. Note que estes instrumentos são deduzidos diretamente do seu tema e objeto. Significa dizer que eles deverão colher tudo o que você precisa (o que é óbvio), sem incluir dados e variáveis adicionais que só servirão para confundir e aumentar desnecessariamente a sua pesquisa (o que não é tão óbvio). E se você não prestar muita atenção. provavelmente é isto o que fará. E uma ficha que conteria quatro ou cinco dados termina com 25, tendo como consequência mais tempo na coleta de dados e mais trabalho na fase de análise do material.

A seguir vem a exploração do campo. É o momento do estudo piloto onde você, com tudo pronto, vai a campo testar tudo o que você planejou e imaginou. Mas note que este não é o estudo final. Aqui você meramente testa suas expectativas, e o faz em reduzidas dimensões para poder rapidamente verificar o que dá certo e o que deve ser mudado. É portanto um estudo igual ao final, só que menor.

A segunda fase é o trabalho de campo onde você está realmente no campo colocando em prática tudo o que fez e pensou até o momento. Esta fase merece um texto maior que o atual, por isto deixo-a para outro momento.

Agora após o trabalho de campo se inicia a análise do material(*). É o momento que você tabula os seus dados, transcreve entrevistas e etc. E você faz isto para atingir dois objetivos. O primeiro é analisar as relações entre as variáveis. Por exemplo se uma coisa é causa da outra, quais são os fatores de risco desta ou daquela doença, se a terapia funcionou ou não, e assim por diante.

Ultrapassada esta fase está na hora da interpretação. É aqui que você esclarece significados e generaliza. Note que esta fase, do ponto de vista lógico não se superpõe à anterior. Se você quer saber se uma determinada terapia funciona é claro que você precisa saber se os seus pacientes melhoraram após o uso da medicação. Mas isto não basta. Importa saber se a melhora justifica o uso da medicação. Isto nem sempre é o caso. Por exemplo,  pode ter havido melhora mas os efeitos colaterais foram excessivos, ou ainda que tratamentos alternativos tem efeitos melhores que os revelados pelo seu estudo. É isto o que significa interpretar. Você contextualiza os seus resultados a luz tanto do ambiente em si onde o estudo foi feito como também em relação ao que a literatura afirma.

E a ciência?

Vimos até gora que método é uma maneira de pensar e que para pesquisar você precisa de método. Em seguida mostramos como a pesquisa não é apenas um conjunto de ações ou atos de fazer. É o que enfatiza o “Espaço Quadripolar”.  Então a pesquisa que é feita se subordina à própria noção de ciência.  E para isto vejamos o que diz Trujillo:

  • “A ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento, com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação”

Nesta definição vemos primeiramente sua natureza dual, lógica e técnica. Ao falar de atitudes racionais, percebemos seu aspecto lógico. Usamos a razão para pensar, investigar, planejar, argumentar, construir hipóteses, identificar lacunas no conhecimento, etc.  Mas também usamos esta mesma  razão para agir quando testamos, medimos, comparamos, calculamos ou executamos experimentos ou observações. Daí que a lógica está sempre presente; de uma forma ou de outra inserida em todos os procedimentos técnicos por meio dos quais se constrói o conhecimento.

Mas este conhecimento não é um qualquer. Ele é sistemático, ou seja, insere-se em uma rede de relações. Cada assertiva científica de alguma forma fundamenta-se em algo que lhe antecede e dela podem ser deduzidas consequências.  Mas estas relações de causa-consequência não são as únicas possíveis, há as de co-ocorrência, antagonismo, simetria e muitas outras. O que importa aqui é que os conceitos científicos inserem-se em uma trama de relações, isto é; em um sistema.

Seu objeto de estudo é limitado. Aqui é preciso definir o significado do termo. Por exemplo; ao tratarmos um paciente acreditamos fazer-lhe um bem. Ele sofre e com nossas ações minoramos o seu sofrimento. Neste caso, “bem” refere-se a aspectos específicos; redução da dor, remissão de sintomas, recuperação de capacidades físicas ou psicológicas perdidas, etc. Neste caso então o objeto é limitado. Não nos referimos à um bem absoluto, algo presente em tudo o que seja bom e ausente em tudo que seja mau. Não nos preocupamos em discriminar nas nossas ações o “bem” do “mal”. Nosso conhecimento e ações não são abrangentes, visando a totalidade. Preocupamo-nos com este ou aquele paciente. As vêzes com grupos populacionais. Nunca com a totalidade como é o caso da filosofia.

Finalmente pretendemos que o conhecimento que produzimos seja verificável (**). Isto quer dizer que o que afirmamos tem que ser passível de verificação no mundo empírico. Se afirmamos que tal ou qual  micro-organismo é causa desta ou daquela doença, precisamos mostrar por exemplo que ele está presente nos doentes, ou que sua retirada impede o prosseguimento da doença, ou ainda que sua inoculação produz a doença, etc.

Há conhecimentos pertencentes à outros domínios humanos que, sendo legítimos, não são verificáveis no sentido deste texto. A afirmativa de que boas ações asseguram a vida eterna na bem aventurança, é legítima no ambito religioso, mas não é verificável. Sua justificação é a fé. Também as afirmativas filosóficas em geral prescindem da verificação já que sua aceitação decorre da argumentação racional.

Concluindo

Então ao terminar estas palavras eu espero que tenha ficado muito claro para você o papel primordial do pensamento  na atividade científica. Que fazer ciência, ou de outra forma “usar um método” é um ato de pensar. Que pesquisar é um conjunto de atitudes racionais, e mesmo quando você está “fazendo”, isto está indissoluvelmente ligado ao pensar. Neste sentido então, as ditas técnicas de pesquisa são uma forma de “pensamento em ação”. Ok?

Notas

(*) Didaticamente é bom dizer que primeiro você coleta, depois você analisa. É lógico, é simples, é (quase) natural.  Mas isto nem sempre é verdade. Há circunstâncias em que a análise dos dados precisa  ser feita durante a coleta. Um caso é o imperativo ético de interromper uma pesquisa claramente danosa aos pacientes. É quando a terapia tem efeitos colaterais graves ou taxa de mortalidade excessivamente elevada. Outro caso é o de certos estudos (alguns qualitativos, p/ex.) nos quais a análise dos dados iniciais modula os procedimentos subsequentes.

(**) O que é “científico” é em filosofia uma discussão sobre a “questão da cientificidade”.  A verificabilidade é apenas um dos aspectos desta discussão. Há outros, mas fogem ao escopo deste texto.

Uma apresentação sobre método

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Leia também:

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Coleta de Dados e Crítica de Variáveis

Continuamos hoje a série de apresentações sobre Bioestatística que fazem parte da minha disciplina que introduz conteúdos mais simples deste tema.

Aqui você encontrará subsídios para:

  1. Conceituar variável.
  2. Classificar os tipos de variáveis.
  3. Planejar uma coleta de dados.
  4. Construir um “Arquivo Mestre”.
  5. Compreender o que é Crítica de Variáveis e Dados”.
  6. Conceituar:
    • População
    • Amostra
    • Amostragem
  7. Classificar os tipos de Amostragem

 

 

Como evitar o plágio no mundo de Harry Potter

 

Infográfico produzido por Kate Hart e publicado no post “Citing Sources: A Quick and Graphic Guide” da mesma autora.

 

O post contém informações adicionais ao infográfico.

 

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Cédric Villani fala sobre Educação Matemática

Saiu no Globo de 14/08/2012. Li, gostei e trago para vocês um extrato da entrevista. Há um grifo meu em determinados trechos, que considero mais relevantes. Quem sabe você concorda comigo…

A entrevista:

digitalizar0001Um dos maiores gênios da matemática, o francês Cédric Villani foge do estereótipo do professor sisudo. Visual extravagante, que lhe rendeu a alcunha de “Lady Gaga da matemática”, o ganhador da Medalha Fields de 2010 – o equivalente ao Prêmio Nobel de sua área – está no Rio para fazer uma conferência no Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Em entrevista, ele se disse encantado com a cidade.

• O senhor também mencionou a necessidade de atrair os jovens para a matemática. Com fazer isso diante do fato de a maioria dos estudantes, e das pessoas em geral, ter “medo” de matemática e dos estudos de ciências em geral?

Este é realmente um dos maiores perigos que devemos temer. Primeiro temos que reconhecer que as pessoas aprendem e usam a matemática há milhares de anos, então temos várias ferramentas pedagógicas que são boas e funcionam. São muitos os sistemas usados e hoje temos a possibilidade de compará-los e experimentar. Outra coisa que as pessoas tendem a esquecer é que na pedagogia o melhor método costuma ser aquele que é o preferido do professor; o que ele ou ela desenvolveram por si próprios e sabem por experiência própria que seu sistema funciona. No fim, o que importa é a relação entre os alunos e o professor. Os professores mais motivadores que encontrei na escola eram os que tinham seu próprio estilo, seus próprios exercícios e que davam mais atenção para os alunos que se mostravam mais interessados. Eram os que realmente gostavam da matéria que ensinavam, e isso é motivador. E na matemática, embora alguns princípios sejam importantes, deve-se ter paciência. A matemática não é algo natural para nós. Nossa maneira de pensar é baseada em emoções, sentimentos na identidade visual e no contato com as pessoas, e não na lógica matemática. Esta lógica foi desenvolvida por várias civilizações ao longo do tempo e chegou a nós com esforço. Temos que lembrar disso e que leva tempo para entrarmos no espírito da matemática. E o mais importante na educação matemática não é o

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