O que é um problema de pesquisa ?

Publicação atualizada da original de 25 de Março de 2009

Maurício Abreu Pinto Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Os problemas são oportunidades em roupas de trabalho.”
– Henry Kaiser citado em The Kaiser Story‎ –
Página 62, de Kaiser Industries Corporation
– Publicado por Kaiser Industries Corp., 1968 – 72 páginas

Definição de Problema

Toda pesquisa se inicia com algum tipo de problema ou indagação. Entretanto, ao se afirmar isto, torna-se conveniente esclarecer o significado desse termo. Uma acepção bastante corrente identifica problema com questão, o que dá margem a uma série de desencontros e equívocos sobre a natureza dos problemas verdadeiros e dos falsos problemas. Outra acepção identifica problema como algo que provoca desequilíbrio, mal-estar, constrangimento às pessoas. Contudo, na acepção científica, problema é qualquer situação não resolvida e que é objeto de dicussão, em qualquer domínio do conhecimento.

Quando se trata de conceituar o que é um problema de pesquisa, é preciso levar em conta de antemão que nem todo problema é passível de tratamento científico. Isto significa que, para realizar uma pesquisa é necessário, em primeiro lugar, verificar se o problema cogitado se enquadra na categoria de científico.

Um problema é de natureza científica quando envolve variáveis que podem ser testadas, observadas, manipuladas.

Um problema de pesquisa pode ser determinado por razões de ordem prática ou de ordem intelectual.

São inúmeras as razões de ordem prática e intelectual que conduzem à formulação de problemas de pesquisa. Apenas com o objetivo de ilustrar o universo de possibildades que pode se descortinar em relação a este tema, apresenta-se abaixo algumas definições e exemplos de problemas de ordem prática e de ordem intelectual.

Problemas de ordem prática

  • Direcionados para respostas que ajudem a subsidiar ações. Em pacientes com morte cerebral, o momento preciso para desligar os aparelhos de manutenção das funções vitais é controverso e envolve várias áreas além da medicina. O intensivista necessita de critérios claros de ação para para subsidiar sua conduta.
  • Direcionados para a avaliação de certas ações ou programas.  Campanhas de esclarecimento são ferramentas frequentes em saúde pública. Foi realizada uma determinada campanha sobre os perigos do cólera, mas não se sabe se e como ela foi eficaz.
  • Direcionados a verificar as conseqüências de várias alternativas  possíveis. Há argumentos a favor de um ensino de saúde que integre em diferentes momentos alunos de medicina, enfermagem e nutrição (além de outras possíveis áreas). Em alguns lugares isto já foi feito. Mas momento não se sabe ao certo quais os seus efeitos, riscos e benefícios em comparação com outras formas de ensino mais tradicionais. É preciso avaliá-los. disciplina.
  • Direcionados à predição de acontecimentos, com vistas a planejar uma ação adequada. Indústrias ao par de seus benefícios contribuem para a deterioração do meio ambiente. Exemplo: Petrobrás está interessada em verificar em que medida a construção de uma planta de gasolina poderá concorrer para a deterioração ambiental de uma determinada área. Para isto realiza-se um estudo de impacto ambiental.

É possível ainda considerar como problemas de interesse prático, embora mais próximos dos problemas de interesse intelectual, aqueles referentes a muitas pesquisas que são realizadas no âmbito dos cursos universitários de graduação. Esses problemas servem, normalmente, para um treinamento do aluno na elaboração de projetos de pesquisa.

Problemas de ordem intelectual

  • Direcionados para a exploração de um objeto pouco conhecido.  Exemplo: Diagnóstico  /  Decisão médica.
  • Direcionados para áreas já exploradas,com o objetivo de determinar com maior precisão e apuro as condições em que certos fenômenos ocorrem e como podem ser influenciados por outros. A melanina é conhecida como tendo efeito fotoprotetor contra a radiação ultra-violeta. No entanto, alguns estudos sugerem dano genético posterior à exposição solar decorrente de alguns dos seus metabólicos.
  • Direcionados para a testagem de alguma teoria específica. Exemplo: pesquisador, a partir de um grupo de crianças de faixa etária entre 0 a 14 anos, dispõe-se a verificar até que ponto a teoria piagetiana sobre os estádios de desenvolvimento infantil pode ser ou não comprovada.
  • Direcionados para descrição de um determinado fenômeno. Entender como se dá o processo de escolha da especialidade em alunos de medicina.

Como formular um problema de pesquisa

Formular um problema científico não constitui uma tarefa fácil e, por isso, o treinamento desempenha um papel fundamental nesse processo.

Por estar estreitamente vinculado ao processo criativo, a formulação de problemas não se faz mediante a observação de procedimentos rígidos e sistemáticos. Contudo, existem algumas condições que facilitam essa tarefa, tais como:

  • Imersão sistemática no objeto;
  • Estudo da literatura existente e discussão com pessoas que já tenham experiência prática no campo de estudo em questão.
A experiência acumulada dos pesquisadores possibilita ainda o desenvolvimento de certas regras práticas para a formulação de problemas científicos. Entretanto, vale ressaltar que, em alguns casos, o problema proposto não se adequa a essas regras. Isto não significa, porém, que ele deva ser abandonado. Muitas vezes, o melhor será proceder à sua reformulação ou esclarecimento.

O problema deve ser formulado como pergunta

Esta é a maneira mais fácil e direta de formular um problema e contribui substancialmente para delimitarmos o que é o tema da pesquisa e o problema da pesquisa.  Tomemos por exemplo uma pesquisa sobre a disciplina de Questão Metodológica. Se eu disser que vou pesquisar sobre esta disciplina, pouco estarei dizendo (este é, provavelmente o meu tema). Mas, se propuser: “que fatores provocam o sono nas aulas de Questão Metodológica?” ou “quais as características dos alunos que freqüentam a disciplina de Questão Metodológica?”, estarei efetivamente propondo problemas de pesquisa.

Mas chamo sua atenção para uma sutileza. A questão formulada não é o problema de pesquisa. É uma dedução do problema. Tecnicamente chamamo-la de “Questão Norteadora“. Neste sentido é apenas um recurso heurístico que visa facilitar o seu pensamento. Você precisa antes problematizar. Isto é, o problema é construído sobre um contexto amplo de dados e raciocínios. É aí que você identificará situações obscuras, perguntas não respondidas, proposições contraditórias, etc. E é deste contexto que o problema aflora.  Isto significa que não é correto sair à esmo fazendo perguntas. É necessário deduzi-las neste processo de problematização.

O problema deve ser claro e preciso

O problema não pode ser solucionado se não for apresentado de maneira clara e precisa. Com freqüência, problemas apresentados de forma desestruturada e com erros de formulação acarretam em dificuldades para resolvê-los.

Por exemplo, “como funciona a mente do médico?”. Este problema está inadequadamente proposto porque não está claro a que se refere. Para solucionar o impasse, deve-se partir para uma das muitas e possíveis reformulações à  pergunta inicial: “Que mecanismos psicológicos podem ser identificados no processo de diagnosticar, vivido pelo médico?”. etc.

Pode ocorrer também que algumas formulações apresentem termos definidos de forma não adequada, o que torna o problema carente de clareza. Seja, por exemplo, “A abelha possui inteligência?”. A resposta a esta questão depende de como se define inteligência. Muitos problemas deste tipo não são passíveis de solução porque empregam termos retirados da linguagem cotidiana que, em muitos casos, são ambíguos.

O problema deve ter base empírica

Os problemas científicos devem basear-se em fatos. Isto é, devem primar pela objetividade. Cabe ao pesquisador tentar aproximar-se o máximo possível da realidade, sem que suas conclusões sejam distorcidas por valores, percepções pessoais e preconceitos. O pesquisador busca responder perguntas, achar soluções; e não comprovar opiniões pre-concebidas.

É bastante complexo investigar certos problemas que já trazem em si uma carga muito grande de juízos de valor. Por exemplo, “a mulher deve realizar tarefas tipicamente masculinas?” ou “é aceitável o casamento entre homossexuais?”. Estes problemas conduzem inevitavelmente a julgamentos morais e, conseqüentemente, a considerações subjetivas, invalidando os propósitos da investigação científica, que tem a objetividade como uma das mais importantes características.

Esta é uma tarefa muito simples quando estamos investigando rochas, por exemplo em geologia. Aqui é fácil separar o que é objetivo do que não é. Na biologia esta diferença é mais sutil, mas não chega a ser complexa em demasia.

O problema surge de forma marcante ao investigarmos fatos sociais. Aqui, valores, percepções pessoais e preconceitos são exatamente o objeto de pesquisa. Ainda mais, há grande identidade entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa. Por isto, nestes casos, cabe ao pesquisador tomar precauções especiais para discriminar entre valores e percepções como objeto da pesquisa ou enviesamento de projeto.  No primeiro caso estamos lidando com fatos sociais. Já no segundo nos afastamos da ciência.

O problema não deve ter base exclusivamente empírica

A teoria aqui importa muito. O pesquisador não está sozinho no mundo. O seu campo de pesquisa, de uma forma ou de outra, já existia antes da sua chegada e continuará existindo (de uma forma ou de outra), após a sua saída.  Isto quer dizer que ele se situa em uma comunidade que se relaciona, entre outras formas, por meio do debate teórico. Além disto a teoria permite criar hipóteses, problemas e soluções. Permite ainda interpretar e dialogar com a a realidade.

Por isto, o que quer que chamemos de “fato”, está imerso em um campo complexo de conceitos, proposições e relacionamentos. Assim é que, sem negarmos a importância do contato com a realidade, é por meio da teoria que construímos, identificamos e concluímos sobre a realidade.

O problema deve ser suscetível de solução

Um problema pode ser claro, preciso e referir-se a conceitos empíricos, mas se não for possível coletar os dados necessários à sua resolução, ele torna-se inviável. Por Exemplo, “ligando-se um disco rígido de um computador à memória de um homem, é possível realizar transferência de dados?”. Esta pergunta só poderá ser respondida quando a tecnologia neurofisiológica progredir a ponto de possibilitar a obtenção de dados relevantes. Por isto, para formular adequadamente um problema é preciso ter o domínio da tecnologia adequada à sua solução.

O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável

Em muitas pesquisas, o problema tende a ser formulado em termos muito amplos, requerendo algum tipo de delimitação. Por exemplo, “o que pensam os médicos?”. Para começar, seria necessário delimitar o universo dos médicos: homens, mulheres; jovens, idosos; clínicos, cirurgiões; etc. Seria necessário ainda delimitar o “que pensam”, já que isto envolve muitos aspectos, tais como: percepção, religião, sociais, econômicos, políticos, psicológicos, profissionais etc. Ainda mais seria necessário precisar o que pensam “sobre o que”.

A delimitação do problema guarda estreita relação com os meios disponíveis para investigação. Por exemplo, um pesquisador poderia pesquisar o que pensam os os obstetras cariocas sobre o parto de cócoras a sua profissão, mas não poderia pesquisar todos e tudo que estes profissionais pensam sobre todas as coisas.

E então o que fazer?

Segue abaixo uma “receita de bolo”. Mas atenção! Desconfie de toda “receita de bolo” quando o resultado desejado não for um bolo. O que se segue é mera orientação, exageradamente simplificada. Isto pode te ajudar se você entende-la como  uma descrição geral e genérica do caminho para identificar um problema. Isto pode te prejudicar se você entender isto como uma descrição literal e restrita. Em resumo; observe os passos abaixo, mas seja crítico. Contextualize-os à sua realidade,  e converse com seus colegas e professores. Os passos abaixo são ponto de partida, não de chegada. Assim:

  1. Identifique uma área de seu interesse.
  2. Leia, estude e pratique bastante sobre ela.
  3. Após estas leituras (ou durante), busque perguntas sem resposta, áreas de sombra, temas polêmicos, perguntas que têm respostas contraditórias e ainda sub-áreas que parecem estar pouco desenvolvidas. Pergunte-se sobre a sua prática na área.
  4. Converse sobre isto com seu orientador e colegas.
  5. Se for o caso retome o passo 3.
  6. ESCREVA o problema. Faça-o de forma completa e gramaticalmente correta.
  7. Repita o passo 4.
  8. Se for o caso repita o passo 6.

Para saber mais, talvez você possa consultar:

  • Leedy, P. D.: The Problem: The Heart of the Research Project in ______Practical Research – Planning and Design, Cap 3, pp. 59-85, 5a. Ed., 1993
  • Las principales dificultades que encontramos para investigar.  http://www.investigar.info/curso/m2/m2.htm
Extraído parcialmente (e ampliado com comentários pessoais) de: Problemas e Objetivos,
Laboratório de Pedagogia do Design- LPD – PUC-Rio.
Acessado em 6/3/2009

Você tem algo a dizer ? Quer ampliar o debate ?
Comentários são bem vindos.

Você tem alguma dúvida ou pergunta?
Deixe sua questão no campo de comentários !

Leia também:

Para saber mais sobre o conceito de Problema do ponto de vista da filosofia.

Você quer ser um cientista?

Sobre o método…

Ler e escrever ajuda a pensar e aprender ciência


Fale comigo:

Se você gostou deste post, clique em “Gosto”, logo abaixo. Ok?


António Lobo na FLIP – Angústias e ambições no ato de escrever.

O jeito carrancudo, sem muita expressão, do português António Lobo Antunes nos momentos iniciais de sua mesa na Flip escondia o que viria a seguir. Com tiradas cortantes, humor ferino e um jeito extremamente apaixonado ao falar do ato de escrever, o escritor teve a participação com reação mais entusiasmada do público em Paraty. (*)

Em entrevista na Globo News o escritor falava sobre o ato de escrever, e achei fascinante o que disse em um dado momento:

Quando se é criança você põe uma palavra após a outra e descobre que elas fazem sentido. E isto é fantástico. Na adolescência você descobre a diferença entre escrever bem e escrever mal. Aos dezoito anos você descobre a diferença entre escrever bem e uma obra-prima e tudo isto gera muita angústia. E aí você descobre que qa vida tem poucas coisas importantes, é o amor, a amizade, os livros…

Em pouquíssimas palavras ele consegue sintetizar a hitória de desenvolvimento do escrever e ao mesmo tempo seu objetivo! Crescemos e o nosso escrever se torna mais complexo; ou pelo menos é o que poderia acontecer se tivéssemos aprendido a tal. Crescemos e aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) que escrevemos com um objetivo. Crescemos e aprendemos que os grandes objetivos são poucos. Aprendemos ?

Você tem algo a dizer ? Quer ampliar o debate ? Comentários são bem vindos.

Você tem alguma dúvida ou pergunta? Deixe sua questão no campo de comentários !

(*) Esta parte do texto é um extrato da matéria publuicada em:

http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1218899-15700,00-SE+QUER+SER+ESCRITOR+TEM+QUE+ASSISTIR+A+GARRINCHA+DIZ+LOBO+ANTUNES.html

A Tese do Coelho

Em um post anterior apresentei um texto meio crítico, meio humorístico sobre  Como escrever a tese certa e vencer. confesso que fiquei um pouco temeroso de ser mal interpretado. Mas vejam o que encontrei no site da PUC em uma página dedicada à Pós-graduação.

  A Tese do Coelho

Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca, com o "notebook" e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali uma raposa, e viu aquele suculento coelhinho tão distraído, que chegou a salivar. No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

-Coelhinho, o que você está fazendo aí, tão concentrado?

-Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho, sem tirar os olhos do trabalho.

-Hummmm… e qual é o tema da sua tese?

-Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas. A raposa ficou indignada:

-Ora!!! Isso é ridículo!!! Nós é que somos os predadores dos coelhos!

-Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu te mostro minha prova experimental.

O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouvem-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois… silêncio. Em seguida, o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma aos trabalhos de sua tese, como se nada tivesse acontecido. Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda e resolve então saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:

-Olá, jovem coelhinho. O que o faz trabalhar tão arduamente?

-Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se conteve com a petulância do coelho:

-Ah! Ah! Ah! Ah! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa…

-Desculpe-me, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de acompanhar-me a minha toca? O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouvem-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e… silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível e volta ao trabalho de redação da sua tese, como se nada tivesse acontecido. Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados e pelancas de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme LEÃO, satisfeito, bem alimentado, palitando os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA:

1.Não importa quão absurdo seja o tema de sua tese;

2.Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico;

3.Não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria;

4.Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos;

5.O que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR…!

Como escrever a tese certa e vencer (*)

José Murilo de Carvalho
Publicado em O Globo, em 16/12/1999, pág. 7

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira, a um hipotético doutorando, ou doutoranda, sobretudo das áreas de humanidades e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos, estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores. A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. Atualmente, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Cito alguns, lembrando que a lista é fluida. Entre os franceses, estão no alto Chartier, Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasado, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citação obrigatória. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm, P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis. Robert Dahl ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e Hayden White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ou africanos, asiáticos, etc.). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico. Da Península Ibérica, só Boaventura de Souza Santos, e para a turma de direito. Brasileiros não ajudarão muito mas também não causarão estrago, se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa da tese mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele, ou ela. Se o orientador ou orientadora não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.

O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam: elas lançam um olhar); descentrar (descentre sobretudo o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois); polissêmico (nada de ‘mono’); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a imaginação); cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro. Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.

Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.

Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda aprender a escrever como um intelectual acadêmico (note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S.T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é ‘crítica’, mas ‘criticismo’. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: ‘é provável’ deve ser substituído por ‘a evidência disponível sugere não ser improvável’. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: ‘os mendigos devem ter seus direitos respeitados’. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: ‘o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua’.

Boa sorte.

(*) O texto acima deve ser tomado pelo que é; uma crítica mordaz a certos aspectos da academia. Não o entendo como uma descrição literal de eventos. Para mim, faz uso da sátira para corrigir erros e desvios. O humor serve para isto. Recomendo portanto rir um pouco e depois refletir fazendo uma auto-crítica quando pertinente. É saudável.

Prof. Mauricio Peixoto

Você sabe o que é tautologia?

É o termo que se usa para um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira pleonástica, redundante, com palavras diferentes para definir a mesma coisa. O exemplo clássico é o famoso subir para cima ou descer para baixo. Mas há outros, como veremos na lista  a seguir:

elo de ligação multidão de pessoas
acabamento final amanhecer o dia
certeza absoluta criação nova
quantia exata retornar de novo
nos dias 8, 9 e 10, inclusive empréstimo temporário
como prêmio extra surpresa inesperada
juntamente com escolha opcional
expressamente proibido planejar antecipadamente
em duas metades iguais abertura inaugural
sintomas indicativos continua a permanecer
há anos atrás a última versão definitiva
vereador da cidade possivelmente poderá ocorrer
outra alternativa comparecer em pessoa
detalhes minuciosos gritar bem alto
a razão é porque propriedade característica
anexo junto à carta demasiadamente excessivo
de sua livre escolha a seu critério pessoal
superávit positivo exceder em muito
todos foram unânimes  
conviver junto  
fato real  
encarar de frente  

Você pode notar que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, o termo surpresa inesperada. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não. Por isso devemos evitar o uso das repetições desnecessárias.
    Fique “de olho” nas expressões que usa no dia-a-dia, para ver se não está caindo nesta armadilha.

  

PS: Obrigado,  Lauro.