Cédric Villani fala sobre Educação Matemática

Saiu no Globo de 14/08/2012. Li, gostei e trago para vocês um extrato da entrevista. Há um grifo meu em determinados trechos, que considero mais relevantes. Quem sabe você concorda comigo…

A entrevista:

digitalizar0001Um dos maiores gênios da matemática, o francês Cédric Villani foge do estereótipo do professor sisudo. Visual extravagante, que lhe rendeu a alcunha de “Lady Gaga da matemática”, o ganhador da Medalha Fields de 2010 – o equivalente ao Prêmio Nobel de sua área – está no Rio para fazer uma conferência no Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Em entrevista, ele se disse encantado com a cidade.

• O senhor também mencionou a necessidade de atrair os jovens para a matemática. Com fazer isso diante do fato de a maioria dos estudantes, e das pessoas em geral, ter “medo” de matemática e dos estudos de ciências em geral?

Este é realmente um dos maiores perigos que devemos temer. Primeiro temos que reconhecer que as pessoas aprendem e usam a matemática há milhares de anos, então temos várias ferramentas pedagógicas que são boas e funcionam. São muitos os sistemas usados e hoje temos a possibilidade de compará-los e experimentar. Outra coisa que as pessoas tendem a esquecer é que na pedagogia o melhor método costuma ser aquele que é o preferido do professor; o que ele ou ela desenvolveram por si próprios e sabem por experiência própria que seu sistema funciona. No fim, o que importa é a relação entre os alunos e o professor. Os professores mais motivadores que encontrei na escola eram os que tinham seu próprio estilo, seus próprios exercícios e que davam mais atenção para os alunos que se mostravam mais interessados. Eram os que realmente gostavam da matéria que ensinavam, e isso é motivador. E na matemática, embora alguns princípios sejam importantes, deve-se ter paciência. A matemática não é algo natural para nós. Nossa maneira de pensar é baseada em emoções, sentimentos na identidade visual e no contato com as pessoas, e não na lógica matemática. Esta lógica foi desenvolvida por várias civilizações ao longo do tempo e chegou a nós com esforço. Temos que lembrar disso e que leva tempo para entrarmos no espírito da matemática. E o mais importante na educação matemática não é o

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Copiar ou prestar atenção? Relações entre termos correlatos

No post da semana passada terminamos uma etapa importante. Ensinanos como fazer a Atitude Mental de Atenção. Com isto você já se capacitou para fazer o que prometemos desde o início desta série: Prestar atenção!

No entanto, há alguns alertas que devemos fazer. Isto porque frequentemente confundimos a atenção com outras coisas bem diferentes. E quando isto acontece, nem prestamos atenção nem obtemos estas outras coisas. Mais que isto, às vezes, esperamos da atenção benefícios que ela não pode dar.

Por isto hoje trabalharei com vocês três palavras que que podem ser um problema para quem quer prestar atenção. São elas:

  • Memória
  • Interesse
  • Compreensão

Memória e atenção

Do que foi dito até agora, pode parecer que a construCapturar018ção das formas mentais é uma técnica de memorização. É razoável imaginar que eu internalizo uma informação ela estará disponível sempre que necessário. Mas isto não é verdade. Quantas vezes não conseguimos lembrar-se de algo que já soubemos, até com muita profundidade?

Você dirá: Claro, há coisas que não uso há muito tempo e com isto a memória vai se “apagando”. E você estará certo. A prática é uma forma muito eficaz de memorizar. Mas isto nos leva à uma característica essencial da memória e que a diferencia d atenção.

Quando nos lembramos de algo, o fazemos por conta de duas coisas:

  1. Este algo já estava dentro de nossa mente e;
  2. de alguma maneira conseguimos trazê-lo à consciência.

E é esta a diferença. Na atenção apenas introjetamos o objeto. Na memorização o objeto já introjetado é trazido de volta à consciência.

Outra forma de discriminar um termo do outro é ressaltar que na atenção temos em nossa presença o objeto a ser apreendido. Ele é algo do mundo externo e para fazê-lo existir na mente, construo a forma mental correspondente. Já na memória não: o objeto não está mais no mundo externo (pelo menos não na minha presença). Ele existe apenas como forma mental.

Na atenção fazemos existir mentalmente algo que lá estava ausente. Na memória este algo já existe; nossa tarefa é recuperá-lo.

Outro ponto importante, é que a atenção é indispensável para a memória. Se a memória recupera uma forma mental pré-existente, é por meio da atenção que ela é construída. Não é possível memorizar sem a atenção anterior.

Por exemplo, se você está em sala de aula e o professor está explicando um conteúdo, cabe primeiro atentar para ele (construir a forma mental), e isto durante a aula. Já na hora da prova, longe da explicação do professor você precisa exercitar a memória (recuperando a forma mental criada pela atenção)

Assim temos:

  • Atenção = Presença do objeto + Construção da forma mental correspondente.
  • Memória = Ausência do objeto + Recuperação da forma mental pré-existente.

Esta diferença tem consequências práticas. Sendo diferentes as tarefas – construir e recuperar as formas mentais – são também diferentes as operações mentais que as executam. O propósito deste capítulo é ensiná-lo a praticar a atitude mental de atenção. A atitude mental de memorização é tema de outro texto.

Gostar do assunto (Interesse) e Atenção

Segundo o Aurélio; interesse é “estado de espírito que se tem para com aquilo que se acha digno de atenção”. É portanto resultante do valor que se dá a algo. É só após isto que surge a atenção, Eis aí uma primeira distinção. Outra definição da mesma fonte: “qualidade do que retém a atenção, que prende o espírito”. Isto é é algo que atrai, que prende a atenção. Não é ela própria a atenção.

Que não se negue a importância do interesse. Para atentar, já disse antes, é preciso valorizar o mundo apreendido. Quando gostamos de algo, tudo é mais fácil. É muito importante queo professor motive os seus alunos. Sem saber o valor dos conteúdos apresentados, é difícil que se sintam atraídos por ele.

Qual a função do interesse?

Mas a questão aqui é outra. Afirmo que o interêsse não é suficiente para que o aluno aprenda. Se o caminho é aplainado por ele, o aprendizado começa a ocorrer apenas no momento da atenção. Tomemos um exemplo de La Garanderie: Capturar019

“Filipe é apaixonado por motos. Observa-as, assiste corridas, vai a oficinas. Lê revistas, coleciona fotos. Fala sobre elas o tempo todo, com seus amigos e com quem mais estiver por perto. Questionado, sabe tudo sobre elas. E por quê este desempenho? Porque dado o seu interesse está atento a tudo o que se refere a elas.”

Nos termos deste texto, está constantemente criando formas mentais do objeto do seu interesse. Tem imagens mentais das motos, relembra corridas importantes, executa em sua imaginação os movimentos do piloto de sua preferência. Assim é que por conta do seu interesse criou espontaneamente uma “biblioteca mental” sobre o assunto. E. quando questionado, basta recuperar a forma mental pertinente[1].

O que chama a atenção neste exemplo é a criação espontânea das formas mentais. Aqui o interesse foi o ponto de partida, mas o desempenho de Filipe não se deu apenas em função do seu interesse por motos, mas porque desenvolveu em relação à elas o hábito de regularmente criar formas mentais dos objetos do seu interesse.

Agora tomemos outro exemplo.

Suponhamos que João não tenha qualquer interesse em motos, mas que por conta do destino empregou-se em uma loja de vendas de motocicletas. Ele não se interessa por elas, nem mesmo gosta, mas sabe que do seu conhecimento e da sua capacidade de se relacionar com os amantes do veículo, depende seu desempenho como vendedor e, portanto o seu sustento.

A diferença está na atenção!

Agora João se comporta exatamente como Felipe, lê as revistas, assiste à corridas, fala com pessoas, etc. Como Felipe, cria as formas mentais adequadas. Como Felipe, portanto, aprende bastante sobre motos, porém não por prazer, mas apenas pelas suas necessidades profissionais. De novo, assim como Felipe a razão para o seu desempenho não foi o interesse, muito pelo contrário, mas sim a criação de formas mentais.

Em defesa do papel do interesse, é provável que Felipe e João se comportem de forma diferente ao longo do tempo. O desempenho de Felipe, provavelmente se manterá alto durante longo tempo, já que ele gosta de motos. Já o de João, provavelmente desaparecerá tão logo ele troque de emprego. Afinal, ele não gosta delas, aprendeu apenas para poder ganhar dinheiro.

Compreensão e Atenção

Parece, às vezes, que basta prestar atenção à aula para compreender um assunto. Basta que o professor explique direito o tema, para que o aluno compreenda. É como se a compreensão fosse uma consequência direta e automática da aula e atenção adequadas.

Neste sentido então, quase se iguala atenção à compreensão. Isto se deve em parte ao desconhecimento das operações mentais específicas à cada tarefa. Já nos referimos à atitude mental de atenção. Vejamos agora o que se passa durante o processo de compreender.

É comum em sala de aula que o professor pergunte aos alunos se compreenderam o que foi dito. Mas o que é compreender? Quando na dúvida, o professor costuma testar a compreensão fazendo perguntas ao aluno sobre o que foi dito. Talvez isto já tenha acontecido com você. As respostas em geral, situam-se em quatro categorias. O aluno: Capturar020

  1. Não se lembra de nada.
  2. Repete “ipsis literis” o que foi dito, mas não consegue explicar o que foi repetido.
  3. Repete e explica.
  4. Repete, explica e completa a explicação fazendo ligações com assuntos correlatos.

Estas quatro categorias dão ao professor uma ideia do que se passa na mente do aluno. Da mesma forma podem dar a você uma indicação do seu grau de aprendizado sobre um assunto específico.

No primeiro caso, o aluno nada sabe. Significa dizer que a aula “não entrou” na sua mente. E, do ponto de vista específico deste texto, não houve a construção das formas mentais. Se nada existe, então nada pode ser recuperado. Logo, ele “Não se lembra de nada.”. Neste sentido então, não houve atitude mental de atenção.

No segundo dizemos que há informação, mas o aluno não sabe o que ela significa. Por isto ele repete sem conseguir explicar. Não houve, neste caso o conhecimento. O aluno não consegue responder às perguntas do professor E isto só se dá no terceiro caso quando a repetição se associa às respostas corretas, frequentemente dadas com suas próprias palavras. É neste momento que o professor (e também você) pode perceber que o aluno conhece o assunto.

Mas compreender vai além de conhecer. Quando compreende, você tem consciência sobre quatro aspectos metacognitivos:

  1. O que você sabe sobre o assunto.
  2. O que não sabe e precisa saber.
  3. Como se relaciona tudo o que você sabe, não sabe e precisa saber.
  4. E finalmente como o que você sabe se relaciona com outros conhecimentos correlatos.

Se as resposta de uma pessoa revelam o seu conhecimento, são as perguntas que indicam a compreensão. Avaliar a compreensão de alguém é analizar a percepção e profundidade de suas perguntas, E esta é uma ferramenta que tanto você como o seu professor podem usar.

Assim, podemos dizer que compreender é uma ação mental onde você torna explícitas as relações entre o todo e as partes. E você sabe que está fazendo isto quando tem respostas para perguntas do tipo: Para que e porque isto se dá; como ocorre, quais seus benefícios, etc.

Por isto fica claro que compreender não é prestar atenção. Na atitude mental de atenção, já dito, você faz existir mentalmente (por meio de formas mentais) um conteúdo que originalmente estava no meio externo.

Mas uma vez criadas as formas mentais, é necessário todo um processamento para gerar o conhecimento e posteriormente a compreensão. Nos termos deste texto, compreender é estabelecer as ligações entre as formas mentais atuais (as que se referem ao conteúdo que está sendo ministrado no presente) e as anteriores (formas mentais de conteúdos passados). Ainda mais, significa usar o seu raciocínio para destas relações, tirar consequências.

Fica claro então a diferença entre a atenção e a compreensão. Mas fica também explícita a função da atenção na compreensão.

Para compreender é preciso atentar

Para compreender é preciso atentar: “Cumprehendere é “tornar para si” ; é também “ter o sentido de”. Há portanto a necessidade prévia de trazer para consciência o objeto a ser compreendido. A ausência da atenção determina a ausência da compreensão. Sem a matéria prima, não há como obter o produto.

Entendeu?


[1]  Reitere-se aqui o que já dissemos sobre a metáfora da memória-arquivo; didaticamente forte, mas imprecisa à luz da literatura corrente.

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Hoje terminamos o ato de prestar atenção. Mas a série continua! Se agora você já pode ficar atento, está na hora de trabalhar o ANOTAR. Lembra que no início mostramos que Copiar era impossível e que o melhor era anotar?

Então nos vemos na próxima semana!

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Copiar ou Prestar Atenção? A Estrutura da Atitude Mental da Atenção

Como prometi no post da semana passada, hoje inicio a mostrar como objetivamente prestar atenção.

No início desta série apresentamos o conceito de “prestar atenção” como uma atitude. Uma atitude que envolvia:

  • ficar olhando para o professor,
  • pensar naquilo que ele diz,
  • fazer um esforço para se concentrar,
  • não pensar em outros assuntos,
  • e outras coisas semelhantes.

É bem verdade que quando você está atento em geral você olha para o professor, pensa no que ele diz e etc.  Mas o problema aqui é que estas atitudes são eventos externos e secundários ao verdadeiro ato da atenção. São consequência de algo. E tanto isto é verdade, que se você está desatento, não consegue tomar estas atitudes. Mas se está atento elas estão presentes sem que você precise se preocupar com elas. Elas surgem “naturalmente”.

Na verdade estas atitudes não são naturais no sentido de surgem sem causa. Mas você pode toma-las como “naturais” na medida em que surgem sem esforço porque consequentes de algo que lhes antecede: A Atitude Mental de Atenção.

Ter Intenção – O Projeto de fazer o necessário.

Você talvez tenha percebido que desde que iniciei este texto dei muita importância a consciência, seja no sentido de perceber o mundo à sua volta, seja na intenção de fazer algo. E este é o ponto de partida da Atenção. Note que usei o termo intenção. Poderia ter escolhido desejo? Vontade?

Acho que não. No desejo você apenas quer que algo aconteça. Na intenção você se compromete a fazer o que é necessário para atingir o objetivo. A diferença aqui está em dois aspectos. Um, já dito, é o compromisso. Mas o outro é a clareza do necessário. O seu compromisso é com um conjunto de ações, que você sabe quais são e como fazê-las.

Isto é, sua intenção é um projeto que descreve objetivamente tudo o que você fará e como vai fazê-lo. Mas como fazer isto?

Por meio de uma ordem mental para você mesmo. Por exemplo; procure lembrar-se de uma circunstância qualquer em que você teve que fazer algo difícil e muito complicado. Provavelmente antes de fazer, você repassou na sua mente tudo o que deveria fazer. E você fez isto às vezes “vendo”, às vezes “dizendo” para você mesmo tudo o que deveria ser feito. Não foi mais ou menos assim?

É isto o que me retiro como “ordem mental”. Assim, para dar início à. Atitude Mental de Atenção, diz para você mesmo:

1. Que vai executar a atitude.clip_image002[5]

2. Quando vai executá-la (durante a aula ou palestra).

3. Como vai fazê-la (descreve os procedimentos necessários).

Uma sugestão que dou é enunciar mentalmente, pouco antes da aula estas três etapas. Algo como: “Na próxima aula eu vou prestar atenção. Isto é, vou usar as formas mentais para construir na minha mente o conteúdo da aula.”

Note que este detalhamento, na realidade, só é necessário no início, quando você está aprendendo. Depois, o processo todo vai se automatizando. Progressivamente a ordem mental vai se tornando mais sintética. E é possível que ao final ela não passe de uma rápida lembrança do tipo:”- Atenção!”.

Mas note que neste caso, dizer para si “Atenção!” não foi uma mera redução; foi um adensamento. Com aquela única palavra, você continua dizendo tudo o que dizia antes, apenas não precisa falar tanto.

Fazer existir mentalmente o conteúdo (Formas mentais):

Ao ler o texto, talvez você já tenha se perguntado sobre como fazer para internalizar o conteúdo da aula. Além disto, ainda pouco falei de “formas mentais”. O que é isto?

Isto nos leva a uma questão maior. A realidade externa; por exemplo, o que o professor diz ou faz, acontece fora de nós. E para tornar este conteúdo próprio, é necessário que ele passe à existir dentro de nós. Então é legítimo que nos perguntemos sobre como a mente faz para internalizar estes conteúdos.

clip_image004[5]Responder a esta pergunta é ainda tarefa para a pesquisa científica e filosófica. E há no momento variadas respostas, sobre as quais não há acordo universal. Discuti-las foge do escopo deste texto.

Mas há uma que se não é muito precisa, tem a vantagem de ser didática. E ainda mais nos ajuda a resolver o seu problema prático de prestar atenção em aula. Esta resposta é: A mente internaliza a realidade externa por meio de representações mentais. Isto quer dizer que se eu sei reconhecer uma cadeira, é porque eu criei para mim mesmo uma “cadeira mental”, ou seja, uma espécie de “fotografia mental” desta cadeira. E é esta foto a que posso usar para comparar o que vejo com o que já possuo na mente e assim dizer se o objeto a minha frente é uma cadeira ou outra coisa.

Assim, para prestar atenção você precisa internalizar os conteúdos da aula. E isto só é feito quando você os faz existir internamente. E eles só existem sob a forma de representações mentais. E as representações mentais existem na sua mente como formas mentais que são semelhantes ao conteúdo externo. Portanto agora tenho já uma definição:

Atitude Mental de Atenção é o processo de criação de formas mentais dos conteúdos a serem aprendidos.

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Agora que você já sabe que para ter a Atitude Menta de Atenção, aguarde a próxima semana quando mostrarei a você o que é uma forma mental.

Até lá!

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Copiar ou prestar atenção? Valorizando a Distração.

Nos posts anteriores mostrei como copiar é difícil e que a solução é anotar. Para anotar com eficiência descrevi os seus pressupostos. E hoje vou tratar de um tema no mínimo estranho: Pretendo mostrar a você que para estar atento em aula você precisa estar desatento.

Valorizar a Distração

É o polo de onde sai a atenção:

Faça uma experiência. Pegue um relógio com ponteiro de segundos e fixe sua atenção no seu movimento. Esforce-se para ficar atento apenas ao ponteiro e a nada mais. Por quanto tempo você consegue manter-se atento apenas à ele? Possivelmente só alguns minutos; ou talvez segundos.

É isto aí. Não podemos manter uma atenção concentrada em um único objeto durante longo tempo. Porque?

De novo a Gestalt e a alternância figura-fundo. Estamos o tempo todo “pulando” entre ver e observar, entre ouvir e escutar. Neste sentido então atenção e distração são dois polos de um único contínuo.

Não podemos fugir disto. O que podemos é gerenciar este processo, usando a nossa atenção da maneira certa e com os objetivos adequados. E é este o objetivo deste texto; ajudá-lo nesta tarefa.

A distração é útil:

Em primeiro lugar, não podemos fugir porque a distração é o repouso da atenção. Como vimos você não pode manter sua atenção concentrada em um único objeto durante muito tempo. Distrair-se dele é uma forma de repouso, de modo a permitir que logo após este período você possa retomar ao objeto original da atenção.

Além disto, a distração aumenta a compreensão. Há pelo menos duas razões para esta afirmativa no mínimo contra intuitiva. Uma porque quando atento você está continuamente clip_image002[4]recebendo novas informações. E assim recebendo o novo o tempo todo, fica difícil processar o que recebe. Por isto é que é só quando você fica “desatento” que aquelas informações recebidas podem ser processadas. Então, ao assistir uma aula, por exemplo, você precisa estar o tempo todo ora recebendo a informação, ora processando-a. Assim é que o processo de alternância é útil porque permite a recepção da informação durante o período de atenção e o seu processamento durante a distração.

Por outro lado, quando você assiste a uma aula ou lê um livro, em geral, está recebendo informação ordenada. Isto é, os conceitos são apresentados em uma determinada ordem, e esta ordenação implica em uma conexão entre um dado tema e o outro que lhe sucede.

Por isto entender a informação seguinte, demanda a compreensão da informação anterior. A distração cria um período de tempo onde a informação recém-adquirida pode ser processada e compreendida. Permite que a nova informação seja recebida com seus antecedentes trabalhados. E isto é bom.

clip_image004Mas há ainda outro benefício. Já dito, as ideias são apresentadas em aula ordenadamente porque há conexão entre elas. Compreender é perceber estas ligações; é inserir as novas ideias em contextos mais amplos

A distração assim, na medida em que permite o processarnento da informação anterior, permite também estabelecer com mais eficiência a ligação entre estas ideias.

E assim é que captando quando atento; e repousando, processando e ligando durante a desatenção sua compreensão aumenta muito, tornando sua presença em aula muito mais adequada e eficaz para o seu aprendizado.

A distração precisa de objetos:

Já falamos várias coisas sobre a distração, mas não dissemos o que ela é na realidade. Para tal pense um pouco. O que acontece quando em aula você se distrai?

Em síntese, o que é ficar distraído? Neste momento da distração, o que se passa pela sua cabeça? Talvez à uma lembrança sua, ou um pensamento vago?

Para onde você está olhando? Para alguém que passou pela janela, um colega que faz careta, ou um detalhe na roupa de alguém?

O que você ouve? Uma música ao longe, um barulho em algum lugar, os cochichos dos colegas logo à frente. Note que em todas estas clip_image006circunstâncias você está atento a algo. Alguma coisa atrai a sua atenção, e você fica focado nela.

Isto quer dizer que você continua prestando atenção; apenas o foco não é a aula.. É outro. Então estar desatento em aula não significa que você não esteja atento. Significa apenas que você está atento para outras coisas que não a aula.

Dito desta forma parece uma piada. Mas isto é necessariamente ruim? Sim e não. A desatenção pode prejudicá-lo apenas na medida em que ela foge do seu controle. Você sai do foco e não volta, ou fica nele tanto tempo que ao voltar já não sabe mais o que está sendo tratado no livro ou na aula.

E assim, do ponto de vista deste texto, a desatenção funciona exatamente igual à atenção.

Por isto, assim como a atenção a desatenção também precisa de um foco. De um objeto sobre o qual colocar sua (des)atenção.

E este foco varia conforme o objetivo da desatenção. Por exemplo; se o que você quer é o repouso, basta fixar-se em alguma coisa que não o professor ou o livro. Já se o necessário é a compreensão, então você deve afastar-se da aula (basta aquele “olhar parado”) focando naquilo que acabou de ser dito ou lido.

Por último falemos de um tipo muito especial de objeto – o Devaneio: Você viu ou escutou alguma coisa que o lembrou de outra, que o levou a outra, e a outra e de repente você percebe que já nem sabe direito onde está nem o que está fazendo ali.

Descrito desta forma, o devaneio é danoso à sua concentração. Mas fiquemos apenas com as primeiras associações. Se você estava escutando “A” e isto te lembrou “B”, é porque de alguma forma “A” e “B” estão conectados em sua mente. Se você sabe disto, sem perder o foco da sua atenção (a aula), você pode usar isto em seu beneficio.

Em primeiro lugar, “B” pode ser uma chave de memorização. Por exemplo, sempre que você quiser lembrar-se de “A” comece por “B”. Assim fica mais fácil porque “B” já existe na sua mente e é fácil de lembrar. Já “A” é conteúdo novo, cuja lembrança exige esforço de estudo.

Por outro lado, esta rede de relações: A – B – C – …. – n; pode ser de grande auxílio para você contextualizar ou ampliar as lições do livro ou professor. Por exemplo, o professor pode estar apresentando um conceito; digamos “aceleração”. Em um dado momento clip_image008da aula ele apresenta a aceleração como variação de velocidade; aí você se lembra da montanha russa que você gosta. E devaneia nas suas experiências de subir e descer nas rampas. Lembra como você sentia o seu corpo mais leve ou mais pesado conforme os diferentes movimentos do carro. Você pode ficar por aí, e neste caso o devaneio apenas o afastou da aula.

Mas você pode ser mais criativo e perguntar-se porque aquela lembrança específica, naquele exato momento da aula. Ao refletir sobre isto você pode se dar conta que andar de montanha russa é um belo exemplo prático das forças de aceleração e desaceleração.

E aí está: Você acabou de transformar um devaneio prejudicial em uma ferramenta de aprendizagem. Agora você pode associar todas as sensações da montanha russa aos conceitos de aceleração. Com isto então deu mais significado ao tema da aula e criou uma chave de memorização muito particular.

Finalmente apenas um sutil detalhe, Devanear é conceber na imaginação: sonhar; mas no exemplo acima, eu me fixei não no ato em si do devaneio, mas no seu conteúdo. Atentei para a lembrança da montanha russa e suas relações com a aceleração. Assim, o objeto da atenção (ou da desatenção, como preferir) não foi o sonho clip_image010acordado, mas aquilo sobre o que você sonhava. Por isto ao tentar tornar útil o devaneio, atente não para o sonho, mas para o seu conteúdo. Este é o objeto sobre o qual a atenção pode agir.

Fui claro?

Espero que sim, porque por enquanto termino por aqui. O problema é que até agora, não ensinei como OBJETIVAMENTE prestar atenção. Mas não se preocupe pois este é o tema do próximo post, na semana que vem.

Até lá!

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