Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

carteiro-fazendo-a-triagem-das-cartasHoje continuamos  o post anterior sobre a Prática Distribuída (1). Vamos detalhar um pouco mais (com alguns comentários pessoais) esta estratégia, analisada  por John Dunlosky e colaboradores no artigo “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”.

No primeiro post (1),  mostramos que na Prática Distribuída (PD), você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Mostramos ainda que quando você faz a PD sua memorização é melhor no longo prazo.  No entanto, não explicamos em detalhe como aplicar esta estratégia. É o que faremos agora.

Como fazer a PD?

A resposta simples e incompleta é: Repita o seu estudo dando um tempo entre uma sessão de estudo e outra. O problema é que sempre ficam outras perguntas.

Repetir como?

Se você vai repetir é bom que varie as técnicas de estudo. Em primeiro lugar para evitar a monotonia e a “decoreba”. Além disto, diferentes técnicas permitem ver o assunto sob diferentes perspectivas. A variação também é importante porque cada técnica enfatiza um aspecto diferente do assunto. Por exemplo, uma técnica favorece a memorização de fatos enquanto outra o relacionamento entre eles.

Por isto um  aspecto importante é que os benefícios da PD variam conforme o objetivo do estudo. As pesquisas existentes mostram claramente que quanto mais o objetivo se aproxima da memorização de fatos e eventos, melhores são os resultados. Já em matérias que exigem a compreensão de processos complexos, ou nas quais a correta tomada de decisão é fundamental, os resultados não são tão claros.

Aqui entra em jogo a técnica de estudo, a motivação e a intenção. Em síntese, não se trata apenas de repetir e pronto. Importa muito como e porque e para que você o faz.

Por exemplo, ao estudar você o faz motivado? Você realmente quer aprender aquele assunto? Tem clareza dos benefícios que aquele conhecimento trará para você? É bastante óbvio que se as respostas para as perguntas são positivas então o estudo será muito melhor. Ok?

Outra variável é a intenção. Não confunda com a motivação. A motivação te dá a energia necessária para o estudo, mas a intenção de aponta o objetivo. Isto é, você precisa ter clareza de onde você que chegar no estudo. Dito de outra forma, você precisa ter metas explícitas para o seu estudo. Que informação você precisa memorizar? Que tipo de problema você precisa ser capaz de resolver? Quais os diagnósticos que você precisa fazer? Que tipos de ações ou procedimentos você precisa se tornar hábil? Sem isto você não vai saber o que tem de fazer, nem poderá julgar se conseguiu. Como disse Sêneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.”

E finalmente a técnica de estudo. Neste sentido é que você precisa aprender a aprender. Por exemplo, se o objetivo é a memorização, suas repetições enfatizarão a repetição de memória. Já o autoquestionamento te ajuda a organizar os fatos, favorecendo seu desempenho em provas de resposta aberta. Se um assunto é complexo, você pode esquematiza-lo de modo a poder perceber as suas múltiplas partes assim como a relação existente entre elas.  Por outro lado. Mais que isto, se você varia as técnicas de estudo durante as repetições o estudo se torna mais eficiente. Por isto começamos este tópico  falando da variação como uma peça chave na PD.

E as matérias?

Normalmente você tem muitas matérias para estudar. Então precisa dar um jeito para estuda-las todas e, além disto, repetir os seus tópicos. Este é um assunto que demanda maior espaço de explicação e foge ao escopo deste texto. Mas ele já foi tratado em outros lugares. Você precisa aprender a gerenciar o seu tempo e uma forma de fazê-lo é construir e manter um Quadro Horário (2).

Repetir quando?

Isto é, quanto tempo entre uma sessão de estudo e outra?. Isto depende de dois fatores. Primeiro algo muito óbvio. Quanto tempo  você tem para finalizar o estudo?  Se você faz uma disciplina que dura vários meses e tem apenas uma prova final , o intervalo pode ser de meses semanas. Se a prova é mensal ou semanal este intervalo cai necessariamente para dias. É uma questão de bom senso.

Em segundo lugar, agora já não tão óbvio, depende do tempo que você deseja (ou precisa) memorizar a informação. Isto é, por quanto tempo você precisa que aquela informação esteja disponível na sua mente? Como regra geral, quanto mais longo, por mais tempo você se lembrará dela. Reveja o gráfico deste texto. Mas é claro que o numero de sessões importa (3)!

Sendo um pouco mais preciso, experimentalmente calculou-se que o melhor intervalo consiste em 10% a 20% do tempo desejado de retenção. Por exemplo, para memorizar por uma semana o intervalo deveria ser de 12 a 24 horas. Para lembrar-se por cinco anos, as repetições deveriam ser realizadas a cada 6 a 12 meses.

Estudando para a(s) prova(s):

Na prática isto significa que você precisa analisar o seu conteúdo de estudo. Se você fizer isto, descobrirá que de todos os tópicos  que são cobrados em prova, há alguns que são periféricos e outros centrais. Estes são de três tipos: a) aqueles que vão fundamentar sua prática profissional ao longo dos anos, b) são fundamento ou indispensáveis para o estudo de disciplinas subsequentes e finalmente c) os que serão cobrados em exames que avaliam o aprendizado cumulativo ao longo dos anos. Já os periféricos criam o contexto que permite a compreensão e o aprendizado dos tópicos centrais. Por isto pense em intervalos diferentes p
ara estes dois tipos de tópicos.

Vamos voltar ao gráfico. Nele é possível perceber pelo menos dois aspectos.

O primeiro já falamos. Para a memorização  de longo prazo, o melhor é fazer pratica-distribuidaa PD. Intervalos longos entre as sessões são melhores que os curtos. Lembrou do “vem fácil, vai fácil”? Então a PD deve ser aplicada principalmente quando a memorização é a de longo prazo. E em quando isto? Ora, nos itens de conhecimento central; “a”, “b” e “c” acima. Conhecimentos fundamentais para a prática profissional futura ou para o aprendizado de disciplinas subsequentes e provas de conhecimento acumulado.

Agora vamos à um segundo aspecto. A PD é ótima para o longo prazo. Ok. Mas, e o curto prazo? Volte ao gráfico. Observe que o estudo maciço é melhor. Veja que o desempenho dos alunos em testes imediatos (círculo) ou separados de 1 dia (quadrados) foi sempre melhor que os da PD.  Claro que naquele teste feito 30 dias após foi pior, mas aqui eu estou me referindo  à testes que acontecem logo após a sessão de estudo.

Então ficamos assim: Quando você perceber que os conhecimentos a serem cobrados são do tipo periféricos, criadores de contexto, o melhor é estudar mais intensivamente. Ou seja, o estudo maciço favorece o “vem fácil”, e neste caso ( e apenas neste) o “vai fácil” não importa muito.

Ah! Então ficamos assim: “Importantes” é PD e “decoreba” é estudo maciço? Não! Alto lá! Estas duas “categorias”, principalmente a “decoreba”  não substituem  a classificação de central e periférico. Você ainda precisa discriminar entre o centro e a periferia. Até porque, há itens que precisam ser memorizados para que outros possam ser aprendidos. Um exemplo muito simples: Nomes. Seja em língua estrangeira seja na nomenclatura técnica. Se você não sabe o nome da “coisa”, não pode aprender a usar o “troço”. Ok?

E só mais um detalhe. O estudo maciço funciona melhor para itens de memorização simples. Já para resolução de problemas, compreensão de processos e conhecimento interdisciplinar a PD é bem superior.

Por isto cuidado com as simplificações. Ao estudar faça-o com critério e Inteligência. Acreditamos que a Prática Distribuída pode ser benéfica para você. Experimente e nos mantenha informados de seus progressos nos comentários.

Um grande abraço

(1) Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

(2) Caso você queira saber mais, há três outras postagens que podem ajudá-lo. São elas:

(3) Portanto não me venha com “piadinhas” dizendo que basta estudar um assunto hoje e mais uma vez dali a 10 anos para lembrar-se dele até o resto da vida. Ok?

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Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

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“Relógio Mole, momento da primeira explosão” de Dali, como referencia ao Big Bang.

Estudar durante longo tempo, passar noites em claro. Você conhece isto?

É muito comum que alunos façam grandes blocos de estudo. São horas a fio,  lendo, fazendo exercícios, e muitas vezes isso se estende por dias. É frequente que isto seja entendido como o “bom estudo”, como a atitude mais adequada, principalmente quando se aproxima a semana que todo estudante “ama” – a semana de provas.

Mas seria isso realmente a forma adequada de estudar, estudar em massa, por longos períodos? Esta estratégia pode ter te salvado, pode ter sido útil em alguns momentos. Afinal de contas é melhor isto que fazer nada. Mas, caro leitor, esta não é a melhor maneira para aprender.

Hoje vamos apresentar a vocês, uma estratégia presente no artigo escrito por John Dunlosky e colaboradores, “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”, esta estratégia é chamada de Prática Distribuída (PD).

Todo mundo sabe que repetir ajuda a lembrar. Então é só ficar repetindo para se dar bem nas provas? É… Mas não é!

Um primeiro problema é que se eu falo de repetir as pessoas pensam logo em logo em decorar. Não, por favor, não é isto. Decorar não dá certo, não funciona e cada vez mais as provas de “decoreba” estão desaparecendo. No ensino superior então nem se fala… Aprender é muito mais que decorar uma lista de nomes, datas, fatos ou processos. É saber tudo isto e poder usar na prova, mas também na sua vida diária e profissional. Não é objetivo deste texto aprofundar o assunto. Então, dado o aviso, vamos ao segundo problema.

Suponhamos que você decidiu  estudar um determinado assunto e sabe que uma vez só não basta. Você esquece o que estudou. Então tem que estudar de novo. O “aluno padrão” como e que faz? Deixa tudo para depois e na véspera da prova estuda, estuda e estuda. Isto é, repete, repete e repete. Grande candidato para a decoreba e o fracasso!

O aluno menos “padrão” começa um pouco antes. Dependendo da quantidade de matéria, talvez alguns dias ou semanas. Já é melhor. Estuda durante mais tempo e em cada período de estudo se cansa menos porque fica menos tempo estudando. E então na hora da prova a nota melhora.

Já o aluno “fora do padrão” faz melhor. Procura ser ativo no estudo e compreender o que estuda. Estuda desde o início do curso. Repete o estudo dos temas com critério e regularidade. Na hora da prova não tira “10” necessariamente. É melhor em algumas matérias e pior em outras. Mas suas notas são regularmente boas e altas.

E porque isto acontece? Há várias causas, mas no que importa aqui, uma boa razão é que ele não estuda “muito”. Ele estuda “bem”. Ele utiliza a Prática Distribuída (PD).

O que é a Prática Distribuída?

É o que diz o termo, você faz a PD quando você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Entendeu?

Mas observe que repetir não é decorar. E, além disto, ao repetir você não precisa fazer sempre a mesma coisa. Por exemplo, primeiro você poderia ler sobre o assunto, em outro momento você poderia fazer um esquema, depois um resumo, fazer exercícios, ou ainda  tentar repetir de memória, conferindo no livro depois. Então entenda que o que você repete é o estudo daquele tópico específico que você precisa aprender. As formas de fazê-lo podem e devem ser variadas.

A PD funciona? Por que?

A PD é uma estratégia de aprendizagem que faz muito tempo, vem sendo pesquisada com resultados positivos. Por exemplo, já em 1979 Bahric fez um experimento para comparar o estudo maciço (repetição sem intervalo) com a PD. Para isto comparou 3 grupos com cada um com diferentes intervalos de tempo entre uma sessão de estudo e 30 dias depois da última sessão todos fizeram  uma prova. Vejam na figura abaixo o que ele encontrou:pratica-distribuida

Foram 6 sessões de estudo, e no início de cada uma foi feito um teste sobre o assunto. Notem que o teste era sempre feito antes do estudo. O primeiro grupo, representado pelos círculos fez as seis sessões uma seguida da outra. O segundo grupo (quadrados) fez o estudo em dias seguidos e o terceiro (triângulos) fez um intervalo de 30 dias entre uma e outra sessão.

O que você pode perceber é que o desempenho de todos os grupos foi progressivamente crescente, mas o que fez o intervalo mais longo foi sempre pior nas provas. Nada demais, você diria. Com tanto tempo entre um estudo e outro, é claro que eles tinham que esquecer muita coisa.  Eu concordo, faz sentido. Mas vejam o que aconteceu  na prova final, um mês depois que eles pararam de estudar. Observe que a seta mostra que o grupo de maior intervalo (30 dias) teve desempenho melhor que os outros dois!

Ué? Como assim? Parece maluquice, não? Pois bem, há várias teorias que procuram explicar isto. Aqui vou apresentar apenas uma, que não só faz sentido como também é particularmente interessante para este texto.

Note que, ao contrário dos intervalos curtos, o grupo do intervalo longo precisava fazer um esforço extra para lembrar-se dos assuntos, tanto na hora do teste inicial como também durante a sessão de estudo subsequente. Isto quer dizer que estes alunos, ao contrário dos outros,  tinha que buscar as respostas. Os outros já as tinham “na ponta da língua”. Desta forma, os alunos do intervalo longo, ao responder o teste estavam exercitando também os seus mecanismos de busca, coisa que os outros não precisavam. É por isto que se diz: “Vem fácil, vai fácil”.

Há ainda uma série de outros estudos que não cabe citar aqui. Por agora basta saber que a PD foi testada em muitas e diferentes situações e em todas,  a PD se mostrou superior ao estudo maciço. Foi demonstrado que a PD independe da idade, de crianças a idosos podem utiliza-la com benefícios. Também seus benefícios se apresentaram em diferentes conteúdos, do ensino elementar ao superior, nelas incluídas as da área da saúde. Finalmente ela não se restringe à instituição escolar. Estudos clínicos demonstraram seus efeitos na esclerose múltipla, traumatismo craniano e amnesia.

Talvez neste momento  você esteja confrontando a sua experiência com estudo e o que aqui se apresenta. Quando as pessoas estudam repetidamente e em curtos intervalos, geralmente ficam mais tranquilas, já que ao final de algumas repetições  elas passam a acreditar que sabem tudo. Não é verdade?

Aqui entra um detalhe importante  do que sabemos sobre a metacognição (conhecimento sobre o conhecimento).  Quando você estuda há duas perguntas que parecem iguais, mas não o são: a) Aprendi o assunto? e b) Serei capaz de responder bem às questões de prova?  Não é exatamente verdadeiro que se você aprendeu, vai responder.  Note que nem sempre saber significa que você pode demonstrar que sabe. É aquela situação em que te perguntam: Ah! Você sabe isto? Então explica!

Note no gráfico como isto aparece. Já mostrando que a PD distribuída melhora o desempenho na prova que é feita trinta dias após, e isto é um argumento em defesa da PD. Mas outra coisa é o desempenho dos alunos durante as sessões de estudo. Perceba como o gráfico mostra que os seus desempenhos são muito melhores no estudo maciço.

Isto não explica porque você se sente melhor após várias etapas seguidas de estudo?  É o que Michael (1991) chamou de “curva da procrastinação”, que é um nome complicado para se referir ao “aluno padrão” descrito linhas acima. Ou seja, quando a prova está longe, o estudo fica esquecido. A medida que ela se aproxima mais intensa e frequentemente o aluno passa a estudar.  E perceba como, por vias tortas, isto acaba sendo verdade. O aluno favorece a memorização imediata. E isto é bom (pelo menos parece que é bom); mas o preço que se paga é o rápido esquecimento.

Uma vez, conversando com um oficial de alta patente, ligado ao ensino militar, escutei o seguinte comentário:

– Meus alunos estudam muito para as provas, e respondem bem às questões. O problema é que  normalmente após os testes fazemos sessões de treinamento físico, e depois  todo o conhecimento sai pelo ralo junto com a água do banho!

Então? Percebeu como a Prática Distribuida pode te ajudar? Espero que sim.

Se você se interessou, talvez agora você tenha outras perguntas sobre a PD. Por exemplo:

  • Como fazer a PD?
  • Repetir como?
  • E as matérias?
  • Repetir quando?
  • Como estudar para a prova?

Estas perguntas são legítimas e vamos respondê-las no próximo post. Ok?

Um grande abraço

Nota: Este artigo prossegue no post “Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Como transformar os testes em seus melhores amigos

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando em Educação em Ciências e Saúde
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O Autoteste
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Chega a semana de provas, as olheiras aparecem, o sono é enxotado pelas consecutivas xícaras de café e, parece haver uma montanha sobre as costas. Assim, as provas acabam por se tornar objeto de pavor e, não ferramentas para auxiliar sua aprendizagem, o que na verdade deveriam ser. Neste artigo, você verá como a utilização de autotestes ou testes práticos, podem incrementar sua aprendizagem.

O que queremos aqui é lhe apresentar uma ferramenta que pode ser muito interessante e, que pode melhorar o seu processo de aprendizagem. Como você verá,  os testes podem deixar de ser aqueles instrumentos temidos, para se transformar em um auxílio para o seu aprendizado. Estamos falando então dos autotestes e não das  provas.

O que é? E por que utilizar?

O Autoteste é em uma forma de avaliação não formal, no qual, você pode obter informações sobre sua própria aprendizagem. Sua utilização pode potencializar seu processo de aprendizagem. Há  uma serie de estudos que afirmam isso. Na produção desta postagem utilizamos como referencial o artigo “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology” (Melhorando à aprendizagem de estudantes com técnicas eficazes de aprendizagem: Diretrizes promissoras da Psicologia Cognitiva e Educacional) escrito por John Dunlosky e outros autores.

Um exemplo de sua utilização aconteceu  com um grupo de estudantes de psicologia, que durante um curso sobre cérebro e comportamento, foram divididos em dois grupos. Toda a semana um dos grupos  fazia um  autoteste sobre o conteúdo das aulas. O outro, em vez disto, fazia uma revisão sobre o assunto. Nas provas, o grupo dos autotestes teve melhor desempenho que o das revisões.

E há outras vantagens do autoteste.  Primeiro, em comparação com a revisão, ele é mais rápido. Você também não precisa de nenhum treinamento especial para fazer um autoteste. Você já sabe. Afinal, há quanto tempo você já vem fazendo provas? E para professores é a mesma coisa, professores sabem construir provas, portanto sabem construir autotestes.

Outro benefício, é que você faz um “controle de qualidade” do seu estudo. Identificando o que respondeu com facilidade ou não, o que sabe e o que não sabe, o que aprendeu ou não. Ao  encontrar os erros que cometeu, pode saber o que precisa estudar novamente. Desta forma,   observando e mapeando seus  erros e dificuldades , você agora pode otimizar o seu estudo, deixando em segundo plano o que já sabe e dedicando mais tempo naquilo que ainda precisa aprender.

Há aspectos negativos no autoteste, mas eles são muito pequenos se comparados a seus benefícios. Em geral se resumem a uma seleção inadequada do material, isto é, fazer um autoteste fácil sobre coisas que você já sabe não ajuda muito. E então fiquem atentos ao que selecionar. Procure fazer autotestes dos assuntos mais importantes ou difíceis da matéria. Que os seus autotestes não sejam fáceis demais, pois isto criaria a ilusão de que você sabe mais do realmente aprendeu. Mas que também não sejam difíceis em excesso, para que você não fique paralisado. Isto não ajuda em nada. Ficar no meio termo aqui é uma virtude.

 Como fazer?

Os materiais para os autotestes em geral são simples, e consistem em, lista de palavras, figuras, exercícios do seu livro didático e outros, ou seja, não tem nada de mirabolante, sofisticado, são coisas que em geral você já dispõe na sua casa.

Você mesmo pode elaborar e fazer esses testes resolvendo os exercícios do  final do capítulo, ou dos materiais suplementares que em geral acompanham os livros didáticos. Essa resolução pode ser feita de forma rápida, mentalmente, ou o que é ainda melhor, fazer como se fosse um prova, escrever todas as respostas e somente depois checar identificando os acertos e os erros. Mas importante, não basta a atitude de “acertei este”, “errei aquele”. O que importa é reforçar em sua mente, o que acertou e descobrir o certo naquilo que errou. E melhor ainda, pensar nas razões do erro, e assim buscar aprender a aprender!

Testes de memória também podem ser utilizados. Um bom exemplo são os Flashcards, que são pequenos cartões (impressos ou digitais ) que contem na frente uma pergunta ou informação a ser completada e, no verso a resposta ou a informação que falta e complementa a primeira informação. Por exemplo, se você estivesse estudando inglês, poderia usar o flashcard abaixo para memorizar o significado de “paint”.

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Ao preparar e fazer os seus autotestes, leve em consideração os três fatores que influenciam suas condições de aprendizagem:

  1. O formato, que pode variar de acordo com o que você concluir como melhor para sua aprendizagem. Os exemplos citados acima são apenas dois deles, você também pode utilizar testes de múltipla escolha, responder questões formuladas por você mesmo, ou seja, também depende de sua criatividade e autonomia.
  2. A dosagem, é basicamente a quantidade de teste que você deve fazer, e quanto a isso, não existe qualquer indicação de um número ideal de testes, pois, isso vai depender do seu processo de aprendizagem. Feito um teste, se você foi bem, talvez não seja necessário fazer outro, porém, se não deu nada certo, talvez seja interessante refazer o teste, podendo utilizar um novo formato.
  3. O tempo entre os testes, é importante perceber que deve haver algum intervalo entre um teste e outro. Fazer sucessivos  testes, um após outro,  talvez não seja o mais adequado. Isto provavelmente  mais prejudica que  auxilia a sua aprendizagem.  Mais razoável é esperar pelo menos um dia de intervalo entre um teste e outro.

Não se preocupe muito com a sua idade, apesar dos estudos terem trabalhado principalmente com estudantes de graduação, os autotestes podem ser utilizados em qualquer nível de instrução e em diversas situações. Acreditamos que não seja aplicável a situações de aprendizagem para crianças, mais ele é bastante adequado  para as demais faixas etárias.

Concluindo:

Como diz o artigo  base desta postagem, os autotestes apresentam bons resultados nas situações de aprendizagem, em diversos formatos, idades e tempos de realização. Por isto  achamos que você pode, como diz o título deste post: “TRANSFORMAR OS TESTES EM SEUS MELHORES AMIGOS” Ok?

 

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Fracasso aprendido…E como se livrar dele!

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

“Um dado que surpreendeu os pesquisadores do estudo (*),
foi que alunos de baixo desempenho relatam se esforçar
tanto para aprender ou estudar para as provas quanto os de alto rendimento.
O que diferencia esses dois grupos é a menor confiança
dos estudantes de pior desempenho 
 em  relação aos resultados que terão.”
(Antonio Gois, O Globo, 15/02/2016)

 

Fracasso aprendido é isto. Você tenta, tenta, e não dá certo. Um dia você desiste de tentar. Afinal de contas, a vida te mostrou que com você as coisas não dão certo. É justo, é legítimo. E tome frustração.

Nas fases iniciais, você tenta fazer mais, estudar mais. É a fase onde estão os alunos do estudo acima. E, em alguns casos, até dá certo. Mas a que custo!

Há muitas causas para isto; pobreza, alimentação, estrutura familiar, educação prévia, etc.  Em síntese, o resultado da vida que você teve, quer você tenha escolhido isto ou não. O problema é que tudo isto é passado, e “não adianta chorar sobre o leite derramado”. Você é o que é. Mas isto não significa que não possa se transformar. Por agora não dá para pensar muito em motivação. Afinal, você já a tem. É só por causa dela que você tem se esforçado mais e mais.

Que tal parar de fazer “mais do mesmo” e obter sempre o mesmo? O meu conselho é: Pare de fazer mais, faça melhor ! Esqueça o slogan da Nike: “Just do it!”. Pense como o inventor Thomas A. Edison :

“There’s a way to do it better . . . find it!”
(há uma maneira de fazer melhor…descubra-a!)

Fazer melhor é estudar de uma foram mais eficiente e eficaz. Isto significa, usar as estratégias de aprendizagem corretas, no momento e contexto certos.  Por exemplo:

  1.  Você tem muita coisa para ler (é sempre assim), mas tudo é igualmente importante? Certamente há alguns detalhes que são menos importantes que as idéias centrais. Mas como descobri-las senão lendo tudo? Resposta: Use a leitura inspecional, uma técnica que dirigida pelas questões certas (que você pode construir), permite separar “o joio do trigo”, o que é principal do que é secundário.
  2. A leitura inspecional permitiu identificar o que é importante, mas como juntar isto. Resuma da maneira certa. Resumir é um técnica que tem regras e procedimentos. Não é apenas copiar partes do texto. Não deve ser confundida também com as notas de conteúdo. Ainda mais, há alunos que estudam escrevendo; explicando para si o assunto por meio de um texto. Isto é bom e ajuda algumas pessoas pessoas, mas não é resumir.
  3. Os assuntos parecem todos desconexos. Você não consegue entendê-los, fica se perguntando o que “tem a ver” com que. Experimente fazer um mapa mental ou então um mapa conceitual. Ambos são formas de representação gráfica do conhecimento que,entre outras coisas, te ajudam a entender as relações entre os tópicos de um assunto. Ainda mais, facilitam a memorização.

Aprender a aprender é então uma forma de estudar com mais facilidade. Se você melhorar a qualidade do seu estudo (fazer melhor) e mantiver adequado nível de esforço, é muito mais fácil melhorar o seu desempenho. E assim aumenta a sua confiança no sucesso. O fracasso que você aprendeu, vai progressivamente sendo deixado para trás. E assim todos aqueles fatores antigos se mostram cada vez mais incapazes de impedir o seu crescimento pessoal e profissional.

 

(*) Pesquisa da OCDE-Organização para o Desenvolvimento Econômico sobre o desempoenho de alunos no Pisa, que é um teste internacional realizado em 65 paises.

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Para otimizar o seu tempo de estudo otimize sua forma de estudar o conteúdo

Se você tem muita matéria e pouco tempo, mais importante que administrar o tempo é estudar da maneira certa.

Quando você aprende a aprender, o seu estudo rende mais e você não desperdiça o seu tempo estudando sem muitos resultados. Por isto otimizar o tempo é otimizar o conteúdo !

Assista este vídeo onde eu explico isto melhor. Abraços…

Prof. Mauricio Peixoto

O que é um problema de pesquisa ?

Publicação atualizada da original de 25 de Março de 2009

Maurício Abreu Pinto Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Os problemas são oportunidades em roupas de trabalho.”
– Henry Kaiser citado em The Kaiser Story‎ –
Página 62, de Kaiser Industries Corporation
– Publicado por Kaiser Industries Corp., 1968 – 72 páginas

Definição de Problema

Toda pesquisa se inicia com algum tipo de problema ou indagação. Entretanto, ao se afirmar isto, torna-se conveniente esclarecer o significado desse termo. Uma acepção bastante corrente identifica problema com questão, o que dá margem a uma série de desencontros e equívocos sobre a natureza dos problemas verdadeiros e dos falsos problemas. Outra acepção identifica problema como algo que provoca desequilíbrio, mal-estar, constrangimento às pessoas. Contudo, na acepção científica, problema é qualquer situação não resolvida e que é objeto de dicussão, em qualquer domínio do conhecimento.

Quando se trata de conceituar o que é um problema de pesquisa, é preciso levar em conta de antemão que nem todo problema é passível de tratamento científico. Isto significa que, para realizar uma pesquisa é necessário, em primeiro lugar, verificar se o problema cogitado se enquadra na categoria de científico.

Um problema é de natureza científica quando envolve variáveis que podem ser testadas, observadas, manipuladas.

Um problema de pesquisa pode ser determinado por razões de ordem prática ou de ordem intelectual.

São inúmeras as razões de ordem prática e intelectual que conduzem à formulação de problemas de pesquisa. Apenas com o objetivo de ilustrar o universo de possibildades que pode se descortinar em relação a este tema, apresenta-se abaixo algumas definições e exemplos de problemas de ordem prática e de ordem intelectual.

Problemas de ordem prática

  • Direcionados para respostas que ajudem a subsidiar ações. Em pacientes com morte cerebral, o momento preciso para desligar os aparelhos de manutenção das funções vitais é controverso e envolve várias áreas além da medicina. O intensivista necessita de critérios claros de ação para para subsidiar sua conduta.
  • Direcionados para a avaliação de certas ações ou programas.  Campanhas de esclarecimento são ferramentas frequentes em saúde pública. Foi realizada uma determinada campanha sobre os perigos do cólera, mas não se sabe se e como ela foi eficaz.
  • Direcionados a verificar as conseqüências de várias alternativas  possíveis. Há argumentos a favor de um ensino de saúde que integre em diferentes momentos alunos de medicina, enfermagem e nutrição (além de outras possíveis áreas). Em alguns lugares isto já foi feito. Mas momento não se sabe ao certo quais os seus efeitos, riscos e benefícios em comparação com outras formas de ensino mais tradicionais. É preciso avaliá-los. disciplina.
  • Direcionados à predição de acontecimentos, com vistas a planejar uma ação adequada. Indústrias ao par de seus benefícios contribuem para a deterioração do meio ambiente. Exemplo: Petrobrás está interessada em verificar em que medida a construção de uma planta de gasolina poderá concorrer para a deterioração ambiental de uma determinada área. Para isto realiza-se um estudo de impacto ambiental.

É possível ainda considerar como problemas de interesse prático, embora mais próximos dos problemas de interesse intelectual, aqueles referentes a muitas pesquisas que são realizadas no âmbito dos cursos universitários de graduação. Esses problemas servem, normalmente, para um treinamento do aluno na elaboração de projetos de pesquisa.

Problemas de ordem intelectual

  • Direcionados para a exploração de um objeto pouco conhecido.  Exemplo: Diagnóstico  /  Decisão médica.
  • Direcionados para áreas já exploradas,com o objetivo de determinar com maior precisão e apuro as condições em que certos fenômenos ocorrem e como podem ser influenciados por outros. A melanina é conhecida como tendo efeito fotoprotetor contra a radiação ultra-violeta. No entanto, alguns estudos sugerem dano genético posterior à exposição solar decorrente de alguns dos seus metabólicos.
  • Direcionados para a testagem de alguma teoria específica. Exemplo: pesquisador, a partir de um grupo de crianças de faixa etária entre 0 a 14 anos, dispõe-se a verificar até que ponto a teoria piagetiana sobre os estádios de desenvolvimento infantil pode ser ou não comprovada.
  • Direcionados para descrição de um determinado fenômeno. Entender como se dá o processo de escolha da especialidade em alunos de medicina.

Como formular um problema de pesquisa

Formular um problema científico não constitui uma tarefa fácil e, por isso, o treinamento desempenha um papel fundamental nesse processo.

Por estar estreitamente vinculado ao processo criativo, a formulação de problemas não se faz mediante a observação de procedimentos rígidos e sistemáticos. Contudo, existem algumas condições que facilitam essa tarefa, tais como:

  • Imersão sistemática no objeto;
  • Estudo da literatura existente e discussão com pessoas que já tenham experiência prática no campo de estudo em questão.
A experiência acumulada dos pesquisadores possibilita ainda o desenvolvimento de certas regras práticas para a formulação de problemas científicos. Entretanto, vale ressaltar que, em alguns casos, o problema proposto não se adequa a essas regras. Isto não significa, porém, que ele deva ser abandonado. Muitas vezes, o melhor será proceder à sua reformulação ou esclarecimento.

O problema deve ser formulado como pergunta

Esta é a maneira mais fácil e direta de formular um problema e contribui substancialmente para delimitarmos o que é o tema da pesquisa e o problema da pesquisa.  Tomemos por exemplo uma pesquisa sobre a disciplina de Questão Metodológica. Se eu disser que vou pesquisar sobre esta disciplina, pouco estarei dizendo (este é, provavelmente o meu tema). Mas, se propuser: “que fatores provocam o sono nas aulas de Questão Metodológica?” ou “quais as características dos alunos que freqüentam a disciplina de Questão Metodológica?”, estarei efetivamente propondo problemas de pesquisa.

Mas chamo sua atenção para uma sutileza. A questão formulada não é o problema de pesquisa. É uma dedução do problema. Tecnicamente chamamo-la de “Questão Norteadora“. Neste sentido é apenas um recurso heurístico que visa facilitar o seu pensamento. Você precisa antes problematizar. Isto é, o problema é construído sobre um contexto amplo de dados e raciocínios. É aí que você identificará situações obscuras, perguntas não respondidas, proposições contraditórias, etc. E é deste contexto que o problema aflora.  Isto significa que não é correto sair à esmo fazendo perguntas. É necessário deduzi-las neste processo de problematização.

O problema deve ser claro e preciso

O problema não pode ser solucionado se não for apresentado de maneira clara e precisa. Com freqüência, problemas apresentados de forma desestruturada e com erros de formulação acarretam em dificuldades para resolvê-los.

Por exemplo, “como funciona a mente do médico?”. Este problema está inadequadamente proposto porque não está claro a que se refere. Para solucionar o impasse, deve-se partir para uma das muitas e possíveis reformulações à  pergunta inicial: “Que mecanismos psicológicos podem ser identificados no processo de diagnosticar, vivido pelo médico?”. etc.

Pode ocorrer também que algumas formulações apresentem termos definidos de forma não adequada, o que torna o problema carente de clareza. Seja, por exemplo, “A abelha possui inteligência?”. A resposta a esta questão depende de como se define inteligência. Muitos problemas deste tipo não são passíveis de solução porque empregam termos retirados da linguagem cotidiana que, em muitos casos, são ambíguos.

O problema deve ter base empírica

Os problemas científicos devem basear-se em fatos. Isto é, devem primar pela objetividade. Cabe ao pesquisador tentar aproximar-se o máximo possível da realidade, sem que suas conclusões sejam distorcidas por valores, percepções pessoais e preconceitos. O pesquisador busca responder perguntas, achar soluções; e não comprovar opiniões pre-concebidas.

É bastante complexo investigar certos problemas que já trazem em si uma carga muito grande de juízos de valor. Por exemplo, “a mulher deve realizar tarefas tipicamente masculinas?” ou “é aceitável o casamento entre homossexuais?”. Estes problemas conduzem inevitavelmente a julgamentos morais e, conseqüentemente, a considerações subjetivas, invalidando os propósitos da investigação científica, que tem a objetividade como uma das mais importantes características.

Esta é uma tarefa muito simples quando estamos investigando rochas, por exemplo em geologia. Aqui é fácil separar o que é objetivo do que não é. Na biologia esta diferença é mais sutil, mas não chega a ser complexa em demasia.

O problema surge de forma marcante ao investigarmos fatos sociais. Aqui, valores, percepções pessoais e preconceitos são exatamente o objeto de pesquisa. Ainda mais, há grande identidade entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa. Por isto, nestes casos, cabe ao pesquisador tomar precauções especiais para discriminar entre valores e percepções como objeto da pesquisa ou enviesamento de projeto.  No primeiro caso estamos lidando com fatos sociais. Já no segundo nos afastamos da ciência.

O problema não deve ter base exclusivamente empírica

A teoria aqui importa muito. O pesquisador não está sozinho no mundo. O seu campo de pesquisa, de uma forma ou de outra, já existia antes da sua chegada e continuará existindo (de uma forma ou de outra), após a sua saída.  Isto quer dizer que ele se situa em uma comunidade que se relaciona, entre outras formas, por meio do debate teórico. Além disto a teoria permite criar hipóteses, problemas e soluções. Permite ainda interpretar e dialogar com a a realidade.

Por isto, o que quer que chamemos de “fato”, está imerso em um campo complexo de conceitos, proposições e relacionamentos. Assim é que, sem negarmos a importância do contato com a realidade, é por meio da teoria que construímos, identificamos e concluímos sobre a realidade.

O problema deve ser suscetível de solução

Um problema pode ser claro, preciso e referir-se a conceitos empíricos, mas se não for possível coletar os dados necessários à sua resolução, ele torna-se inviável. Por Exemplo, “ligando-se um disco rígido de um computador à memória de um homem, é possível realizar transferência de dados?”. Esta pergunta só poderá ser respondida quando a tecnologia neurofisiológica progredir a ponto de possibilitar a obtenção de dados relevantes. Por isto, para formular adequadamente um problema é preciso ter o domínio da tecnologia adequada à sua solução.

O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável

Em muitas pesquisas, o problema tende a ser formulado em termos muito amplos, requerendo algum tipo de delimitação. Por exemplo, “o que pensam os médicos?”. Para começar, seria necessário delimitar o universo dos médicos: homens, mulheres; jovens, idosos; clínicos, cirurgiões; etc. Seria necessário ainda delimitar o “que pensam”, já que isto envolve muitos aspectos, tais como: percepção, religião, sociais, econômicos, políticos, psicológicos, profissionais etc. Ainda mais seria necessário precisar o que pensam “sobre o que”.

A delimitação do problema guarda estreita relação com os meios disponíveis para investigação. Por exemplo, um pesquisador poderia pesquisar o que pensam os os obstetras cariocas sobre o parto de cócoras a sua profissão, mas não poderia pesquisar todos e tudo que estes profissionais pensam sobre todas as coisas.

E então o que fazer?

Segue abaixo uma “receita de bolo”. Mas atenção! Desconfie de toda “receita de bolo” quando o resultado desejado não for um bolo. O que se segue é mera orientação, exageradamente simplificada. Isto pode te ajudar se você entende-la como  uma descrição geral e genérica do caminho para identificar um problema. Isto pode te prejudicar se você entender isto como uma descrição literal e restrita. Em resumo; observe os passos abaixo, mas seja crítico. Contextualize-os à sua realidade,  e converse com seus colegas e professores. Os passos abaixo são ponto de partida, não de chegada. Assim:

  1. Identifique uma área de seu interesse.
  2. Leia, estude e pratique bastante sobre ela.
  3. Após estas leituras (ou durante), busque perguntas sem resposta, áreas de sombra, temas polêmicos, perguntas que têm respostas contraditórias e ainda sub-áreas que parecem estar pouco desenvolvidas. Pergunte-se sobre a sua prática na área.
  4. Converse sobre isto com seu orientador e colegas.
  5. Se for o caso retome o passo 3.
  6. ESCREVA o problema. Faça-o de forma completa e gramaticalmente correta.
  7. Repita o passo 4.
  8. Se for o caso repita o passo 6.

Para saber mais, talvez você possa consultar:

  • Leedy, P. D.: The Problem: The Heart of the Research Project in ______Practical Research – Planning and Design, Cap 3, pp. 59-85, 5a. Ed., 1993
  • Las principales dificultades que encontramos para investigar.  http://www.investigar.info/curso/m2/m2.htm
Extraído parcialmente (e ampliado com comentários pessoais) de: Problemas e Objetivos,
Laboratório de Pedagogia do Design- LPD – PUC-Rio.
Acessado em 6/3/2009

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