Testes de Hipótese – Como identificar o real?

Testes de Hipótese – Como identificar o real?

O cientista ao fazer os seus experimentos, dificilmente consegue trabalhar com toda a população de interesse. Em geral debruça-se apenas sobre uma de suas partes. Isto quer dizer que suas afirmativas sobre a natureza carregam sempre certo grau de incerteza.

Por isto ele quase sempre trabalha com hipóteses. E elas precisam ser testadas. Há variadas maneiras de fazê-lo. Neste material, mostraremos como a estatística o ajuda.
Mas, antes de tudo, é importante enfatizar que os testes de hipóteses não substituem experimentos e observações bem feitas. Eles tomam isto como pressuposto.

No fundo, o que o teste de hipótese faz é testar se o acaso pode, com algum grau de segurança, ser responsabilizado pelos resultados obtidos no estudo. Isto significa que um teste positivo não testa (diretamente) hipóteses sobre a natureza. Apenas afasta o acaso.

Como isto se dá e a suas consequências, é o que apresentaremos neste material de estudo.

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Para baixar esta apresentação clique aqui.

 

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Quais os seus conteúdos opcionais?

– O seu caso é muito complicado.
– Por que Doutor? O que houve?
– Você tem uma doença que está em um capítulo que eu
considerei como opcional durante os meus estudos.

https://www.quora.com/How-do-med-school-students-study

Quantas horas os estudantes de medicina estudam diariamente?

 Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Em Londres:

Acabei de terminar meu terceiro ano de faculdade de medicina no Reino Unido.

No meu primeiro e segundo anos, não tive exposição clínica, foi todo tomado por aulas. Então eram 1-5 horas de aulas por dia, de segunda a sexta-feira. Passava a maior parte do resto do dia estudando esse material. Estudava de 6-8 horas no sábado e descansava no domingo. No período de provas eram 8-12 horas por dia já que não havia aulas.

Neste último ano foi um pouco diferente, pois as aulas eram no hospital. Em geral, meu objetivo era fazer pelo menos 3 horas de estudo nos livros quando tinha aula e 6-8 horas nos dias livres. Eu também tentei tirar os domingos de folga, mas não fui muito boa nisso.

Catherine Frances, MBBS (*)  no King’s College – Londres

No Chile:

Bem, tudo depende do aluno, do teste e do ano. Estou no meu terceiro ano (dos 7 do meu país) e geralmente estudo uma semana para cada teste, pelo menos, 6 horas por dia. Eu sei que eu deveria estudar, todos os dias um pouco, mas quando você tem coisas para fazer o tempo todo e encontrar uma hora livre, você só quer descansar demais.

Valentina Adriazola D,  University Austral do Chile

 

Em Manilha:

Sou estudante de medicina nas Filipinas e, basicamente, estudei 7 dias por semana durante o meu 1º ano. Aulas das 8:00 às 17:00, 5 dias por semana, então fazia uma pausa no máximo até às 21:00hs (academia, recados ou sono). Em seguida, eu retomava o trabalho até 1-2hs da manhã, dependendo da carga de trabalho para o dia seguinte.

Nos finais de semana eu dormia para compensar a falta de sono durante a semana, em seguida, retomava meu trabalho. Nos domingos, porém, tentava não fazer nenhum trabalho até o final da tarde, mas na maioria das vezes não conseguia porque a carga de trabalho para a semana seguinte precisava ser planejada e dividida em partes para que não se tornasse tão esmagadora. Então recomeçava o trabalho após o café da manhã ou depois do almoço.

Jessica Ann B. Jorge,  Universidade de Manilha

No Brasil:

Que tal falar sobre isso nos comentários? ;))

(*) Pré-médico, equivalente ao Ciclo Básico no Brasil

A metacognição pode ser aprendida

 

“A habilidade de aprender de uma pessoa não é fixa, pode se desenvolver. De fato, apenas aceitar isso pode ter um impacto profundo na aprendizagem dos estudantes (Lovett, 2008). Ensinar aos nossos alunos a serem aprendizes estratégicos é, portanto, uma das habilidades mais valiosas que podemos dar. Os cursos que se concentram na aplicação de estratégias eficazes de aprendizagem dos alunos podem melhorar os seus desempenhos nestes cursos; mas podem também melhorar os seus desempenhos no longo prazo e evitar a evasão de estudantes considerados em risco (Lovett, 2008; Weinstein et al., 2000). Surpreendentemente, os comportamentos auto-reguladores e adaptativos podem ser ensinados em tempo mínimo de aula (literalmente, uma questão de minutos ao longo de um semestre) e os alunos rapidamente aprendem a aplicar esses comportamentos sem aviso prévio (Lovett, 2008). Uma vez que os comportamentos são internalizados, os alunos continuam a usá-los, facilitando concentrar sua atenção no conteúdo que estão aprendendo.”

National Association of Geoscience Teachers  (2017)

Lovett, M. (2008). Teaching Metacognition. (more info) Presentation at the Educause Learning Initiative 2008 annual meeting.
Weinstein, C. E., Husman, J., & Dierking, D. R. (2000). Self-Regulation Interventions with a Focus on Learning Strategies. Chapter 22 in the Handbook of Self-Regulation, M. Boekaerts, P.R. Pintrich & M. Zeidner (eds.), Academic Press, p. 727-747.

Raciocínio Clínico: por que é tão necessário ao aprendiz em saúde?

Márcia Regina de Assis
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em
Educação em Ciências e Saúde
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES).

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

duvidaDe forma geral, o raciocínio clínico é o processo usado por profissionais da área da saúde para refletir e planejar o tratamento do paciente, ou seja, é a tomada de decisão. Serve para orientar e conduzir da melhor maneira possível o tratamento do paciente. É uma função essencial da atividade dos profissionais da saúde. Sem o raciocínio clínico será muito difícil chegar a um diagnóstico, e mais que do que isso, será impossível a condução do tratamento do paciente, seja ele o tratamento fisioterapêutico, fonoaudiológico, terapêutico ocupacional, médico ou de enfermagem.

Durante a graduação os alunos dos cursos da área da saúde, em algum momento aprendem ou pelo menos ouvem falar sobre o raciocínio clinico. No entanto, nem sempre é fácil entender como esse raciocínio será utilizado durante a vida profissional.

Para que o raciocínio clínico seja eficiente não pode haver dicotomia entre a prática e a teoria. É preciso aprender a unir essas duas instâncias para realizar a tomada de decisão.

Não é uma tarefa fácil, mas existem algumas estratégias que podem facilitar esse processo de promoção do raciocínio clínico. Por exemplo:

  1. Realize de exercícios práticos de casos clínicos – sabe aqueles exercícios que muitos livros didáticos, como os de semiologia e os das disciplinas aplicadas, apresentam ao final de cada capítulo? Eles contribuem muito para o processo de desenvolvimento do raciocínio clínico.
  2. Faça esses exercícios utilizando a técnica de mapa mental(*), assim ficará mais clara a visualização de seu processo cognitivo;
  3. Leia prontuários (se já estiver no estágio ou na residência) de forma cronológica. Leia os prontuários sempre fazendo perguntas sobre o porquê de cada decisão tomada. Pense se você tomaria decisão diferente e discuta com o seu professor/preceptor/tutor;
  4. Após (ou durante) a leitura destes prontuários pense em pelo menos mais uma hipótese diagnóstica adicional. Então compare suas semelhanças e diferenças.
  5. Sempre tire suas dúvidas com seu professor. preceptor ou tutor.

O raciocínio clínico depende muito da integração entre o conhecimento teórico e o prático do profissional. Por isto, ao aprendiz é fundamental a leitura crítica dos capítulos de livros acadêmicos, de artigos com evidências científicas, reavaliação constante do aprendizado em sala e muita atenção no campo de estágio e/ou residência.

Se você já é um acompanhante deste blog, sabe que a metacognição ajuda muito nesse processo de aprendizado. Se for a primeira vez que entra aqui, sugiro a leitura dos seguintes posts:

O que é aprender a aprender? Uma metáfora;
Identificação de Eventos metacognitivos presentes em mensagens de membros de uma comunidade virtual de Enfermagem

Boa leitura!

Referência:

Gabinete de Educação Médica da Faculdade de Medicina. Universidade de Coimbra. Estratégias de promoção do raciocínio clínico. Essências Educare. https://www.uc.pt/fmuc/gabineteeducacaomedica/fichaspedagogicas/essencias_n18

(*) Para saber mais sobre mapas mentais clique aqui e acesse uma das aulas do Professor Mauricio Peixoto.

Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

carteiro-fazendo-a-triagem-das-cartasHoje continuamos  o post anterior sobre a Prática Distribuída (1). Vamos detalhar um pouco mais (com alguns comentários pessoais) esta estratégia, analisada  por John Dunlosky e colaboradores no artigo “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”.

No primeiro post (1),  mostramos que na Prática Distribuída (PD), você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Mostramos ainda que quando você faz a PD sua memorização é melhor no longo prazo.  No entanto, não explicamos em detalhe como aplicar esta estratégia. É o que faremos agora.

Como fazer a PD?

A resposta simples e incompleta é: Repita o seu estudo dando um tempo entre uma sessão de estudo e outra. O problema é que sempre ficam outras perguntas.

Repetir como?

Se você vai repetir é bom que varie as técnicas de estudo. Em primeiro lugar para evitar a monotonia e a “decoreba”. Além disto, diferentes técnicas permitem ver o assunto sob diferentes perspectivas. A variação também é importante porque cada técnica enfatiza um aspecto diferente do assunto. Por exemplo, uma técnica favorece a memorização de fatos enquanto outra o relacionamento entre eles.

Por isto um  aspecto importante é que os benefícios da PD variam conforme o objetivo do estudo. As pesquisas existentes mostram claramente que quanto mais o objetivo se aproxima da memorização de fatos e eventos, melhores são os resultados. Já em matérias que exigem a compreensão de processos complexos, ou nas quais a correta tomada de decisão é fundamental, os resultados não são tão claros.

Aqui entra em jogo a técnica de estudo, a motivação e a intenção. Em síntese, não se trata apenas de repetir e pronto. Importa muito como e porque e para que você o faz.

Por exemplo, ao estudar você o faz motivado? Você realmente quer aprender aquele assunto? Tem clareza dos benefícios que aquele conhecimento trará para você? É bastante óbvio que se as respostas para as perguntas são positivas então o estudo será muito melhor. Ok?

Outra variável é a intenção. Não confunda com a motivação. A motivação te dá a energia necessária para o estudo, mas a intenção de aponta o objetivo. Isto é, você precisa ter clareza de onde você que chegar no estudo. Dito de outra forma, você precisa ter metas explícitas para o seu estudo. Que informação você precisa memorizar? Que tipo de problema você precisa ser capaz de resolver? Quais os diagnósticos que você precisa fazer? Que tipos de ações ou procedimentos você precisa se tornar hábil? Sem isto você não vai saber o que tem de fazer, nem poderá julgar se conseguiu. Como disse Sêneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.”

E finalmente a técnica de estudo. Neste sentido é que você precisa aprender a aprender. Por exemplo, se o objetivo é a memorização, suas repetições enfatizarão a repetição de memória. Já o autoquestionamento te ajuda a organizar os fatos, favorecendo seu desempenho em provas de resposta aberta. Se um assunto é complexo, você pode esquematiza-lo de modo a poder perceber as suas múltiplas partes assim como a relação existente entre elas.  Por outro lado. Mais que isto, se você varia as técnicas de estudo durante as repetições o estudo se torna mais eficiente. Por isto começamos este tópico  falando da variação como uma peça chave na PD.

E as matérias?

Normalmente você tem muitas matérias para estudar. Então precisa dar um jeito para estuda-las todas e, além disto, repetir os seus tópicos. Este é um assunto que demanda maior espaço de explicação e foge ao escopo deste texto. Mas ele já foi tratado em outros lugares. Você precisa aprender a gerenciar o seu tempo e uma forma de fazê-lo é construir e manter um Quadro Horário (2).

Repetir quando?

Isto é, quanto tempo entre uma sessão de estudo e outra?. Isto depende de dois fatores. Primeiro algo muito óbvio. Quanto tempo  você tem para finalizar o estudo?  Se você faz uma disciplina que dura vários meses e tem apenas uma prova final , o intervalo pode ser de meses semanas. Se a prova é mensal ou semanal este intervalo cai necessariamente para dias. É uma questão de bom senso.

Em segundo lugar, agora já não tão óbvio, depende do tempo que você deseja (ou precisa) memorizar a informação. Isto é, por quanto tempo você precisa que aquela informação esteja disponível na sua mente? Como regra geral, quanto mais longo, por mais tempo você se lembrará dela. Reveja o gráfico deste texto. Mas é claro que o numero de sessões importa (3)!

Sendo um pouco mais preciso, experimentalmente calculou-se que o melhor intervalo consiste em 10% a 20% do tempo desejado de retenção. Por exemplo, para memorizar por uma semana o intervalo deveria ser de 12 a 24 horas. Para lembrar-se por cinco anos, as repetições deveriam ser realizadas a cada 6 a 12 meses.

Estudando para a(s) prova(s):

Na prática isto significa que você precisa analisar o seu conteúdo de estudo. Se você fizer isto, descobrirá que de todos os tópicos  que são cobrados em prova, há alguns que são periféricos e outros centrais. Estes são de três tipos: a) aqueles que vão fundamentar sua prática profissional ao longo dos anos, b) são fundamento ou indispensáveis para o estudo de disciplinas subsequentes e finalmente c) os que serão cobrados em exames que avaliam o aprendizado cumulativo ao longo dos anos. Já os periféricos criam o contexto que permite a compreensão e o aprendizado dos tópicos centrais. Por isto pense em intervalos diferentes p
ara estes dois tipos de tópicos.

Vamos voltar ao gráfico. Nele é possível perceber pelo menos dois aspectos.

O primeiro já falamos. Para a memorização  de longo prazo, o melhor é fazer pratica-distribuidaa PD. Intervalos longos entre as sessões são melhores que os curtos. Lembrou do “vem fácil, vai fácil”? Então a PD deve ser aplicada principalmente quando a memorização é a de longo prazo. E em quando isto? Ora, nos itens de conhecimento central; “a”, “b” e “c” acima. Conhecimentos fundamentais para a prática profissional futura ou para o aprendizado de disciplinas subsequentes e provas de conhecimento acumulado.

Agora vamos à um segundo aspecto. A PD é ótima para o longo prazo. Ok. Mas, e o curto prazo? Volte ao gráfico. Observe que o estudo maciço é melhor. Veja que o desempenho dos alunos em testes imediatos (círculo) ou separados de 1 dia (quadrados) foi sempre melhor que os da PD.  Claro que naquele teste feito 30 dias após foi pior, mas aqui eu estou me referindo  à testes que acontecem logo após a sessão de estudo.

Então ficamos assim: Quando você perceber que os conhecimentos a serem cobrados são do tipo periféricos, criadores de contexto, o melhor é estudar mais intensivamente. Ou seja, o estudo maciço favorece o “vem fácil”, e neste caso ( e apenas neste) o “vai fácil” não importa muito.

Ah! Então ficamos assim: “Importantes” é PD e “decoreba” é estudo maciço? Não! Alto lá! Estas duas “categorias”, principalmente a “decoreba”  não substituem  a classificação de central e periférico. Você ainda precisa discriminar entre o centro e a periferia. Até porque, há itens que precisam ser memorizados para que outros possam ser aprendidos. Um exemplo muito simples: Nomes. Seja em língua estrangeira seja na nomenclatura técnica. Se você não sabe o nome da “coisa”, não pode aprender a usar o “troço”. Ok?

E só mais um detalhe. O estudo maciço funciona melhor para itens de memorização simples. Já para resolução de problemas, compreensão de processos e conhecimento interdisciplinar a PD é bem superior.

Por isto cuidado com as simplificações. Ao estudar faça-o com critério e Inteligência. Acreditamos que a Prática Distribuída pode ser benéfica para você. Experimente e nos mantenha informados de seus progressos nos comentários.

Um grande abraço

(1) Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

(2) Caso você queira saber mais, há três outras postagens que podem ajudá-lo. São elas:

(3) Portanto não me venha com “piadinhas” dizendo que basta estudar um assunto hoje e mais uma vez dali a 10 anos para lembrar-se dele até o resto da vida. Ok?

Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

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“Relógio Mole, momento da primeira explosão” de Dali, como referencia ao Big Bang.

Estudar durante longo tempo, passar noites em claro. Você conhece isto?

É muito comum que alunos façam grandes blocos de estudo. São horas a fio,  lendo, fazendo exercícios, e muitas vezes isso se estende por dias. É frequente que isto seja entendido como o “bom estudo”, como a atitude mais adequada, principalmente quando se aproxima a semana que todo estudante “ama” – a semana de provas.

Mas seria isso realmente a forma adequada de estudar, estudar em massa, por longos períodos? Esta estratégia pode ter te salvado, pode ter sido útil em alguns momentos. Afinal de contas é melhor isto que fazer nada. Mas, caro leitor, esta não é a melhor maneira para aprender.

Hoje vamos apresentar a vocês, uma estratégia presente no artigo escrito por John Dunlosky e colaboradores, “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”, esta estratégia é chamada de Prática Distribuída (PD).

Todo mundo sabe que repetir ajuda a lembrar. Então é só ficar repetindo para se dar bem nas provas? É… Mas não é!

Um primeiro problema é que se eu falo de repetir as pessoas pensam logo em logo em decorar. Não, por favor, não é isto. Decorar não dá certo, não funciona e cada vez mais as provas de “decoreba” estão desaparecendo. No ensino superior então nem se fala… Aprender é muito mais que decorar uma lista de nomes, datas, fatos ou processos. É saber tudo isto e poder usar na prova, mas também na sua vida diária e profissional. Não é objetivo deste texto aprofundar o assunto. Então, dado o aviso, vamos ao segundo problema.

Suponhamos que você decidiu  estudar um determinado assunto e sabe que uma vez só não basta. Você esquece o que estudou. Então tem que estudar de novo. O “aluno padrão” como e que faz? Deixa tudo para depois e na véspera da prova estuda, estuda e estuda. Isto é, repete, repete e repete. Grande candidato para a decoreba e o fracasso!

O aluno menos “padrão” começa um pouco antes. Dependendo da quantidade de matéria, talvez alguns dias ou semanas. Já é melhor. Estuda durante mais tempo e em cada período de estudo se cansa menos porque fica menos tempo estudando. E então na hora da prova a nota melhora.

Já o aluno “fora do padrão” faz melhor. Procura ser ativo no estudo e compreender o que estuda. Estuda desde o início do curso. Repete o estudo dos temas com critério e regularidade. Na hora da prova não tira “10” necessariamente. É melhor em algumas matérias e pior em outras. Mas suas notas são regularmente boas e altas.

E porque isto acontece? Há várias causas, mas no que importa aqui, uma boa razão é que ele não estuda “muito”. Ele estuda “bem”. Ele utiliza a Prática Distribuída (PD).

O que é a Prática Distribuída?

É o que diz o termo, você faz a PD quando você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Entendeu?

Mas observe que repetir não é decorar. E, além disto, ao repetir você não precisa fazer sempre a mesma coisa. Por exemplo, primeiro você poderia ler sobre o assunto, em outro momento você poderia fazer um esquema, depois um resumo, fazer exercícios, ou ainda  tentar repetir de memória, conferindo no livro depois. Então entenda que o que você repete é o estudo daquele tópico específico que você precisa aprender. As formas de fazê-lo podem e devem ser variadas.

A PD funciona? Por que?

A PD é uma estratégia de aprendizagem que faz muito tempo, vem sendo pesquisada com resultados positivos. Por exemplo, já em 1979 Bahric fez um experimento para comparar o estudo maciço (repetição sem intervalo) com a PD. Para isto comparou 3 grupos com cada um com diferentes intervalos de tempo entre uma sessão de estudo e 30 dias depois da última sessão todos fizeram  uma prova. Vejam na figura abaixo o que ele encontrou:pratica-distribuida

Foram 6 sessões de estudo, e no início de cada uma foi feito um teste sobre o assunto. Notem que o teste era sempre feito antes do estudo. O primeiro grupo, representado pelos círculos fez as seis sessões uma seguida da outra. O segundo grupo (quadrados) fez o estudo em dias seguidos e o terceiro (triângulos) fez um intervalo de 30 dias entre uma e outra sessão.

O que você pode perceber é que o desempenho de todos os grupos foi progressivamente crescente, mas o que fez o intervalo mais longo foi sempre pior nas provas. Nada demais, você diria. Com tanto tempo entre um estudo e outro, é claro que eles tinham que esquecer muita coisa.  Eu concordo, faz sentido. Mas vejam o que aconteceu  na prova final, um mês depois que eles pararam de estudar. Observe que a seta mostra que o grupo de maior intervalo (30 dias) teve desempenho melhor que os outros dois!

Ué? Como assim? Parece maluquice, não? Pois bem, há várias teorias que procuram explicar isto. Aqui vou apresentar apenas uma, que não só faz sentido como também é particularmente interessante para este texto.

Note que, ao contrário dos intervalos curtos, o grupo do intervalo longo precisava fazer um esforço extra para lembrar-se dos assuntos, tanto na hora do teste inicial como também durante a sessão de estudo subsequente. Isto quer dizer que estes alunos, ao contrário dos outros,  tinha que buscar as respostas. Os outros já as tinham “na ponta da língua”. Desta forma, os alunos do intervalo longo, ao responder o teste estavam exercitando também os seus mecanismos de busca, coisa que os outros não precisavam. É por isto que se diz: “Vem fácil, vai fácil”.

Há ainda uma série de outros estudos que não cabe citar aqui. Por agora basta saber que a PD foi testada em muitas e diferentes situações e em todas,  a PD se mostrou superior ao estudo maciço. Foi demonstrado que a PD independe da idade, de crianças a idosos podem utiliza-la com benefícios. Também seus benefícios se apresentaram em diferentes conteúdos, do ensino elementar ao superior, nelas incluídas as da área da saúde. Finalmente ela não se restringe à instituição escolar. Estudos clínicos demonstraram seus efeitos na esclerose múltipla, traumatismo craniano e amnesia.

Talvez neste momento  você esteja confrontando a sua experiência com estudo e o que aqui se apresenta. Quando as pessoas estudam repetidamente e em curtos intervalos, geralmente ficam mais tranquilas, já que ao final de algumas repetições  elas passam a acreditar que sabem tudo. Não é verdade?

Aqui entra um detalhe importante  do que sabemos sobre a metacognição (conhecimento sobre o conhecimento).  Quando você estuda há duas perguntas que parecem iguais, mas não o são: a) Aprendi o assunto? e b) Serei capaz de responder bem às questões de prova?  Não é exatamente verdadeiro que se você aprendeu, vai responder.  Note que nem sempre saber significa que você pode demonstrar que sabe. É aquela situação em que te perguntam: Ah! Você sabe isto? Então explica!

Note no gráfico como isto aparece. Já mostrando que a PD distribuída melhora o desempenho na prova que é feita trinta dias após, e isto é um argumento em defesa da PD. Mas outra coisa é o desempenho dos alunos durante as sessões de estudo. Perceba como o gráfico mostra que os seus desempenhos são muito melhores no estudo maciço.

Isto não explica porque você se sente melhor após várias etapas seguidas de estudo?  É o que Michael (1991) chamou de “curva da procrastinação”, que é um nome complicado para se referir ao “aluno padrão” descrito linhas acima. Ou seja, quando a prova está longe, o estudo fica esquecido. A medida que ela se aproxima mais intensa e frequentemente o aluno passa a estudar.  E perceba como, por vias tortas, isto acaba sendo verdade. O aluno favorece a memorização imediata. E isto é bom (pelo menos parece que é bom); mas o preço que se paga é o rápido esquecimento.

Uma vez, conversando com um oficial de alta patente, ligado ao ensino militar, escutei o seguinte comentário:

– Meus alunos estudam muito para as provas, e respondem bem às questões. O problema é que  normalmente após os testes fazemos sessões de treinamento físico, e depois  todo o conhecimento sai pelo ralo junto com a água do banho!

Então? Percebeu como a Prática Distribuida pode te ajudar? Espero que sim.

Se você se interessou, talvez agora você tenha outras perguntas sobre a PD. Por exemplo:

  • Como fazer a PD?
  • Repetir como?
  • E as matérias?
  • Repetir quando?
  • Como estudar para a prova?

Estas perguntas são legítimas e vamos respondê-las no próximo post. Ok?

Um grande abraço

Nota: Este artigo prossegue no post “Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?