Como elaborar flashcards? Parte II

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando em Educação em Ciências e Saúde
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Como fazer um flashcard?

Fabulous-Flash-Card-Template-Download (1)É simples, você precisa apenas de papel, caneta, talvez uma tesoura, e claro ter estudado antes. Você pode comprar pequenos cartões encontrados em papelarias, podendo ser coloridos, ou não, isso fica a seu critério. Você pode também usar folhas de papel oficio A4 e cortar os cartões da forma que desejar. Você pode ainda fazer os flashcards em aplicativos ou programas de computador, com o Flashcardpro®, Supercard®. Ou em sites, como o Goconqr.

A logica de construção dos flashcards é simples. Você pode, por exemplo, fazer um flashcard sobre uma palavra. Você pode utilizar qualquer palavra, por exemplo, “Paralelepípedo”.  Neste caso o seu objetivo é fazer com que essa palavra possa ativar sua memoria, de forma a acessar informações que se relacionam com a palavra escolhida, como em nosso exemplo, “Paralelepípedo” pode estar relacionado com a seguinte informação “formado por seis faces, sendo que duas são idênticas e paralelas entre si”, o que se pretende é que ao ler essa palavra você possa se lembrar desta informação.  Então em um dos lados do papel você escreve a palavra, e este lado será considerado como a frente, e no verso você escreve informações referentes a esta palavra.

Sem título

Outra forma de construção dos flashcards pode ser uma pergunta, por exemplo, quem descobriu o Brasil? Nesse caso a pergunta tem a mesma função da palavra, ativar sua memória para que você possa acessar alguma informação, neste caso do exemplo, “quem descobriu o Brasil? ”Em um dos lados você escreve uma pergunta, e este lado será a frente, e no verso, você adiciona a resposta para essa pergunta.

Sem título

Note que você pode moldar os flashcards de acordo com sua necessidade. Use palavras, perguntas, imagens, equações ou esquemas. O importante é que você obedeça a estrutura básica. De um lado aquilo que vai funcionar como uma solicitação à sua memória, e do outro o conteúdo com o qual você vai confirma se o que você lembrou era mesmo aquilo.

Como utilizar?

Há varias formas de utilizá-los. A escolha entre uma ou outra depende do conteúdo a ser estudado e de suas possibilidades e recursos, entre outros. Aqui sugerimos uma que é muito simples e rápida. Se você achar útil, mais tarde poderá experimentar outras maneiras de usá-los.

O flashcard individual

Como você já leu, o flashcard é um cartão que na frente tem a o tema e no verso a explicação do tema. Então o objetivo é a partir do que está na frente relembrar o que está no verso. Então:

  1. Leia a pergunta ou palavra escrita na frente do flashcard atentamente: Aqui você deve ativar a sua memória de maneira a buscar a informação relacionada com a palavra ou pergunta. Tente relembrar das informações relacionadas a aquela palavra ou pergunta. Você pode fazer isso mentalmente ou em voz alta. Nesse esforço você vai associando a palavra ou pergunta com a informação, e assim você irá fortalecendo a memorização das relações. Faça isso com calma, pois, não adianta pressa e fazer algo de qualquer maneira, sua memória as vezes precisa de tempo.
  2. Após tentar relembrar as informações, confira no verso se acertou ou errou, aferindo seu rendimento. Mas não pare por aí. Acertando ou errando procure memorizar a resposta correta. Repita mentalmente (ou em voz alta)> Isso é muito importante.

flashcards homeopatia

O flashcard em conjunto

Como você viu, a tarefa é simples. Ler e ativar a memória. Isso acontece sempre que você tem um flashcard na mão. Mas note que você provavelmente fará muitos cartões. Então agora você precisa ter uma maneira de utilizá-los ordenadamente. Então:

  1. Estude o assunto antes: É claro, não é? Como você vai construir os cartões se não sabe nada do assunto? Você não precisa saber o assunto profundamente, mas um mínimo que te permita fazer as perguntas e as respostas. Ah! E só para lembrar; enquanto você está fazendo os cartões está também aprendendo. Ok?
  2. Crie o conjunto de cartões: Crie conjuntos específicos por temas. Não será eficiente se você criar centenas de cartões sobre tudo o que você precisa e depois tentar utiliza-los todos ao mesmo tempo. Os conjuntos devem ser sobre um tema específico e ter um tamanho manipulável. Qual é esse tamanho? 10? 20? 30? Isso depende do assunto e da sua memória. Ok?
  3. Coloque os cartões em ordem: Esta ordem depende da estrutura do assunto e de como você acha melhor memorizar.Flashcards-Conjunto de cartões
  4. Use os cartões: Da maneira que já descrevemos. Lendo o tema e tentando responder às perguntas. Comece do início e vá até o final.
  5. Separe os cartões: Faça dois montes. Em alguns cartões você não lembrou não acertou a resposta. Estes vão para o primeiro monte. Os outros ficam no segundo monte.Flashcards-Conjunto de cartões-Lmbrados e esquecidos
  6. Reveja rapidamente o monte dos cartões esquecidos: Para estes, você dedica especial atenção. Faça cuidadosamente o esforço de ler e buscar a resposta. Os cartões lembrados  vão para o segundo monte. Os esquecidos retornam ao primeiro.
  7. Reveja rapidamente o monte dos cartões lembrados. Você já sabe. Ler e responder agora, é só para reforçar a memória.

Então terminou? Sim. Por agora. Mas o estudo se faz em ciclos. Você faz estes 7 passos em vários períodos, repetido as etapas. Você pode ainda, se julgar interessante, embaralhar os cartões entre um ciclo e outro, mantendo os montes separados, é claro.

Mas só um detalhe: Do segundo ciclo em diante comece pelo monte dos cartões esquecidos. Idealmente repetição após repetição, o monte dos cartões esquecidos vai ficando progressivamente menor.

Ainda mais, pode haver um momento em que tudo fica no monte dos cartões lembrados. Aí chega a hora de você avaliar se cabe então fazer novos cartões , aprofundando ou ampliando o conteúdo do conjunto. Ok?

Lembre-se

  • Cada cartão deve conter apenas uma pergunta ou palavra, para você não confundir sua memória.
  • Seja sintético, e valorize o que é realmente importante, um flashcard não deve conter um capítulo de um livro, pois, são maiores as chances de que você esqueça algo quanto maior for o número de informações.
  • Utilize um formato que você compreenda, faça seus próprios flashcards, isso é importante, por que você os constrói de acordo com seu próprio funcionamento, otimizando a utilização dos flashcards.

Lembre-se de atualizar o conjunto de flashcards, mas em que sentido? Você já confeccionou uma série de flashcards para uma determinada disciplina, e pretende continuar utilizando a estratégia com flashcards, continue fazendo os flashcards no decorrer do avanço do seu processo de estudo.

Ao fazer os flashcards você pode gastar uma pouco de tempo, afinal, você tem que por a mão na massa, mas, este esforço provavelmente irá valer a pena, visto que você pode melhorar de forma significativa seu rendimento.

Utilize, e faça proveito desta ferramenta.

Leia também:

O que são flashcards? Parte I

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Raciocínio Clínico: por que é tão necessário ao aprendiz em saúde?

Márcia Regina de Assis
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em
Educação em Ciências e Saúde
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES).

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

duvidaDe forma geral, o raciocínio clínico é o processo usado por profissionais da área da saúde para refletir e planejar o tratamento do paciente, ou seja, é a tomada de decisão. Serve para orientar e conduzir da melhor maneira possível o tratamento do paciente. É uma função essencial da atividade dos profissionais da saúde. Sem o raciocínio clínico será muito difícil chegar a um diagnóstico, e mais que do que isso, será impossível a condução do tratamento do paciente, seja ele o tratamento fisioterapêutico, fonoaudiológico, terapêutico ocupacional, médico ou de enfermagem.

Durante a graduação os alunos dos cursos da área da saúde, em algum momento aprendem ou pelo menos ouvem falar sobre o raciocínio clinico. No entanto, nem sempre é fácil entender como esse raciocínio será utilizado durante a vida profissional.

Para que o raciocínio clínico seja eficiente não pode haver dicotomia entre a prática e a teoria. É preciso aprender a unir essas duas instâncias para realizar a tomada de decisão.

Não é uma tarefa fácil, mas existem algumas estratégias que podem facilitar esse processo de promoção do raciocínio clínico. Por exemplo:

  1. Realize de exercícios práticos de casos clínicos – sabe aqueles exercícios que muitos livros didáticos, como os de semiologia e os das disciplinas aplicadas, apresentam ao final de cada capítulo? Eles contribuem muito para o processo de desenvolvimento do raciocínio clínico.
  2. Faça esses exercícios utilizando a técnica de mapa mental(*), assim ficará mais clara a visualização de seu processo cognitivo;
  3. Leia prontuários (se já estiver no estágio ou na residência) de forma cronológica. Leia os prontuários sempre fazendo perguntas sobre o porquê de cada decisão tomada. Pense se você tomaria decisão diferente e discuta com o seu professor/preceptor/tutor;
  4. Após (ou durante) a leitura destes prontuários pense em pelo menos mais uma hipótese diagnóstica adicional. Então compare suas semelhanças e diferenças.
  5. Sempre tire suas dúvidas com seu professor. preceptor ou tutor.

O raciocínio clínico depende muito da integração entre o conhecimento teórico e o prático do profissional. Por isto, ao aprendiz é fundamental a leitura crítica dos capítulos de livros acadêmicos, de artigos com evidências científicas, reavaliação constante do aprendizado em sala e muita atenção no campo de estágio e/ou residência.

Se você já é um acompanhante deste blog, sabe que a metacognição ajuda muito nesse processo de aprendizado. Se for a primeira vez que entra aqui, sugiro a leitura dos seguintes posts:

O que é aprender a aprender? Uma metáfora;
Identificação de Eventos metacognitivos presentes em mensagens de membros de uma comunidade virtual de Enfermagem

Boa leitura!

Referência:

Gabinete de Educação Médica da Faculdade de Medicina. Universidade de Coimbra. Estratégias de promoção do raciocínio clínico. Essências Educare. https://www.uc.pt/fmuc/gabineteeducacaomedica/fichaspedagogicas/essencias_n18

(*) Para saber mais sobre mapas mentais clique aqui e acesse uma das aulas do Professor Mauricio Peixoto.

Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

carteiro-fazendo-a-triagem-das-cartasHoje continuamos  o post anterior sobre a Prática Distribuída (1). Vamos detalhar um pouco mais (com alguns comentários pessoais) esta estratégia, analisada  por John Dunlosky e colaboradores no artigo “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”.

No primeiro post (1),  mostramos que na Prática Distribuída (PD), você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Mostramos ainda que quando você faz a PD sua memorização é melhor no longo prazo.  No entanto, não explicamos em detalhe como aplicar esta estratégia. É o que faremos agora.

Como fazer a PD?

A resposta simples e incompleta é: Repita o seu estudo dando um tempo entre uma sessão de estudo e outra. O problema é que sempre ficam outras perguntas.

Repetir como?

Se você vai repetir é bom que varie as técnicas de estudo. Em primeiro lugar para evitar a monotonia e a “decoreba”. Além disto, diferentes técnicas permitem ver o assunto sob diferentes perspectivas. A variação também é importante porque cada técnica enfatiza um aspecto diferente do assunto. Por exemplo, uma técnica favorece a memorização de fatos enquanto outra o relacionamento entre eles.

Por isto um  aspecto importante é que os benefícios da PD variam conforme o objetivo do estudo. As pesquisas existentes mostram claramente que quanto mais o objetivo se aproxima da memorização de fatos e eventos, melhores são os resultados. Já em matérias que exigem a compreensão de processos complexos, ou nas quais a correta tomada de decisão é fundamental, os resultados não são tão claros.

Aqui entra em jogo a técnica de estudo, a motivação e a intenção. Em síntese, não se trata apenas de repetir e pronto. Importa muito como e porque e para que você o faz.

Por exemplo, ao estudar você o faz motivado? Você realmente quer aprender aquele assunto? Tem clareza dos benefícios que aquele conhecimento trará para você? É bastante óbvio que se as respostas para as perguntas são positivas então o estudo será muito melhor. Ok?

Outra variável é a intenção. Não confunda com a motivação. A motivação te dá a energia necessária para o estudo, mas a intenção de aponta o objetivo. Isto é, você precisa ter clareza de onde você que chegar no estudo. Dito de outra forma, você precisa ter metas explícitas para o seu estudo. Que informação você precisa memorizar? Que tipo de problema você precisa ser capaz de resolver? Quais os diagnósticos que você precisa fazer? Que tipos de ações ou procedimentos você precisa se tornar hábil? Sem isto você não vai saber o que tem de fazer, nem poderá julgar se conseguiu. Como disse Sêneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.”

E finalmente a técnica de estudo. Neste sentido é que você precisa aprender a aprender. Por exemplo, se o objetivo é a memorização, suas repetições enfatizarão a repetição de memória. Já o autoquestionamento te ajuda a organizar os fatos, favorecendo seu desempenho em provas de resposta aberta. Se um assunto é complexo, você pode esquematiza-lo de modo a poder perceber as suas múltiplas partes assim como a relação existente entre elas.  Por outro lado. Mais que isto, se você varia as técnicas de estudo durante as repetições o estudo se torna mais eficiente. Por isto começamos este tópico  falando da variação como uma peça chave na PD.

E as matérias?

Normalmente você tem muitas matérias para estudar. Então precisa dar um jeito para estuda-las todas e, além disto, repetir os seus tópicos. Este é um assunto que demanda maior espaço de explicação e foge ao escopo deste texto. Mas ele já foi tratado em outros lugares. Você precisa aprender a gerenciar o seu tempo e uma forma de fazê-lo é construir e manter um Quadro Horário (2).

Repetir quando?

Isto é, quanto tempo entre uma sessão de estudo e outra?. Isto depende de dois fatores. Primeiro algo muito óbvio. Quanto tempo  você tem para finalizar o estudo?  Se você faz uma disciplina que dura vários meses e tem apenas uma prova final , o intervalo pode ser de meses semanas. Se a prova é mensal ou semanal este intervalo cai necessariamente para dias. É uma questão de bom senso.

Em segundo lugar, agora já não tão óbvio, depende do tempo que você deseja (ou precisa) memorizar a informação. Isto é, por quanto tempo você precisa que aquela informação esteja disponível na sua mente? Como regra geral, quanto mais longo, por mais tempo você se lembrará dela. Reveja o gráfico deste texto. Mas é claro que o numero de sessões importa (3)!

Sendo um pouco mais preciso, experimentalmente calculou-se que o melhor intervalo consiste em 10% a 20% do tempo desejado de retenção. Por exemplo, para memorizar por uma semana o intervalo deveria ser de 12 a 24 horas. Para lembrar-se por cinco anos, as repetições deveriam ser realizadas a cada 6 a 12 meses.

Estudando para a(s) prova(s):

Na prática isto significa que você precisa analisar o seu conteúdo de estudo. Se você fizer isto, descobrirá que de todos os tópicos  que são cobrados em prova, há alguns que são periféricos e outros centrais. Estes são de três tipos: a) aqueles que vão fundamentar sua prática profissional ao longo dos anos, b) são fundamento ou indispensáveis para o estudo de disciplinas subsequentes e finalmente c) os que serão cobrados em exames que avaliam o aprendizado cumulativo ao longo dos anos. Já os periféricos criam o contexto que permite a compreensão e o aprendizado dos tópicos centrais. Por isto pense em intervalos diferentes p
ara estes dois tipos de tópicos.

Vamos voltar ao gráfico. Nele é possível perceber pelo menos dois aspectos.

O primeiro já falamos. Para a memorização  de longo prazo, o melhor é fazer pratica-distribuidaa PD. Intervalos longos entre as sessões são melhores que os curtos. Lembrou do “vem fácil, vai fácil”? Então a PD deve ser aplicada principalmente quando a memorização é a de longo prazo. E em quando isto? Ora, nos itens de conhecimento central; “a”, “b” e “c” acima. Conhecimentos fundamentais para a prática profissional futura ou para o aprendizado de disciplinas subsequentes e provas de conhecimento acumulado.

Agora vamos à um segundo aspecto. A PD é ótima para o longo prazo. Ok. Mas, e o curto prazo? Volte ao gráfico. Observe que o estudo maciço é melhor. Veja que o desempenho dos alunos em testes imediatos (círculo) ou separados de 1 dia (quadrados) foi sempre melhor que os da PD.  Claro que naquele teste feito 30 dias após foi pior, mas aqui eu estou me referindo  à testes que acontecem logo após a sessão de estudo.

Então ficamos assim: Quando você perceber que os conhecimentos a serem cobrados são do tipo periféricos, criadores de contexto, o melhor é estudar mais intensivamente. Ou seja, o estudo maciço favorece o “vem fácil”, e neste caso ( e apenas neste) o “vai fácil” não importa muito.

Ah! Então ficamos assim: “Importantes” é PD e “decoreba” é estudo maciço? Não! Alto lá! Estas duas “categorias”, principalmente a “decoreba”  não substituem  a classificação de central e periférico. Você ainda precisa discriminar entre o centro e a periferia. Até porque, há itens que precisam ser memorizados para que outros possam ser aprendidos. Um exemplo muito simples: Nomes. Seja em língua estrangeira seja na nomenclatura técnica. Se você não sabe o nome da “coisa”, não pode aprender a usar o “troço”. Ok?

E só mais um detalhe. O estudo maciço funciona melhor para itens de memorização simples. Já para resolução de problemas, compreensão de processos e conhecimento interdisciplinar a PD é bem superior.

Por isto cuidado com as simplificações. Ao estudar faça-o com critério e Inteligência. Acreditamos que a Prática Distribuída pode ser benéfica para você. Experimente e nos mantenha informados de seus progressos nos comentários.

Um grande abraço

(1) Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

(2) Caso você queira saber mais, há três outras postagens que podem ajudá-lo. São elas:

(3) Portanto não me venha com “piadinhas” dizendo que basta estudar um assunto hoje e mais uma vez dali a 10 anos para lembrar-se dele até o resto da vida. Ok?

Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

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“Relógio Mole, momento da primeira explosão” de Dali, como referencia ao Big Bang.

Estudar durante longo tempo, passar noites em claro. Você conhece isto?

É muito comum que alunos façam grandes blocos de estudo. São horas a fio,  lendo, fazendo exercícios, e muitas vezes isso se estende por dias. É frequente que isto seja entendido como o “bom estudo”, como a atitude mais adequada, principalmente quando se aproxima a semana que todo estudante “ama” – a semana de provas.

Mas seria isso realmente a forma adequada de estudar, estudar em massa, por longos períodos? Esta estratégia pode ter te salvado, pode ter sido útil em alguns momentos. Afinal de contas é melhor isto que fazer nada. Mas, caro leitor, esta não é a melhor maneira para aprender.

Hoje vamos apresentar a vocês, uma estratégia presente no artigo escrito por John Dunlosky e colaboradores, “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”, esta estratégia é chamada de Prática Distribuída (PD).

Todo mundo sabe que repetir ajuda a lembrar. Então é só ficar repetindo para se dar bem nas provas? É… Mas não é!

Um primeiro problema é que se eu falo de repetir as pessoas pensam logo em logo em decorar. Não, por favor, não é isto. Decorar não dá certo, não funciona e cada vez mais as provas de “decoreba” estão desaparecendo. No ensino superior então nem se fala… Aprender é muito mais que decorar uma lista de nomes, datas, fatos ou processos. É saber tudo isto e poder usar na prova, mas também na sua vida diária e profissional. Não é objetivo deste texto aprofundar o assunto. Então, dado o aviso, vamos ao segundo problema.

Suponhamos que você decidiu  estudar um determinado assunto e sabe que uma vez só não basta. Você esquece o que estudou. Então tem que estudar de novo. O “aluno padrão” como e que faz? Deixa tudo para depois e na véspera da prova estuda, estuda e estuda. Isto é, repete, repete e repete. Grande candidato para a decoreba e o fracasso!

O aluno menos “padrão” começa um pouco antes. Dependendo da quantidade de matéria, talvez alguns dias ou semanas. Já é melhor. Estuda durante mais tempo e em cada período de estudo se cansa menos porque fica menos tempo estudando. E então na hora da prova a nota melhora.

Já o aluno “fora do padrão” faz melhor. Procura ser ativo no estudo e compreender o que estuda. Estuda desde o início do curso. Repete o estudo dos temas com critério e regularidade. Na hora da prova não tira “10” necessariamente. É melhor em algumas matérias e pior em outras. Mas suas notas são regularmente boas e altas.

E porque isto acontece? Há várias causas, mas no que importa aqui, uma boa razão é que ele não estuda “muito”. Ele estuda “bem”. Ele utiliza a Prática Distribuída (PD).

O que é a Prática Distribuída?

É o que diz o termo, você faz a PD quando você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Entendeu?

Mas observe que repetir não é decorar. E, além disto, ao repetir você não precisa fazer sempre a mesma coisa. Por exemplo, primeiro você poderia ler sobre o assunto, em outro momento você poderia fazer um esquema, depois um resumo, fazer exercícios, ou ainda  tentar repetir de memória, conferindo no livro depois. Então entenda que o que você repete é o estudo daquele tópico específico que você precisa aprender. As formas de fazê-lo podem e devem ser variadas.

A PD funciona? Por que?

A PD é uma estratégia de aprendizagem que faz muito tempo, vem sendo pesquisada com resultados positivos. Por exemplo, já em 1979 Bahric fez um experimento para comparar o estudo maciço (repetição sem intervalo) com a PD. Para isto comparou 3 grupos com cada um com diferentes intervalos de tempo entre uma sessão de estudo e 30 dias depois da última sessão todos fizeram  uma prova. Vejam na figura abaixo o que ele encontrou:pratica-distribuida

Foram 6 sessões de estudo, e no início de cada uma foi feito um teste sobre o assunto. Notem que o teste era sempre feito antes do estudo. O primeiro grupo, representado pelos círculos fez as seis sessões uma seguida da outra. O segundo grupo (quadrados) fez o estudo em dias seguidos e o terceiro (triângulos) fez um intervalo de 30 dias entre uma e outra sessão.

O que você pode perceber é que o desempenho de todos os grupos foi progressivamente crescente, mas o que fez o intervalo mais longo foi sempre pior nas provas. Nada demais, você diria. Com tanto tempo entre um estudo e outro, é claro que eles tinham que esquecer muita coisa.  Eu concordo, faz sentido. Mas vejam o que aconteceu  na prova final, um mês depois que eles pararam de estudar. Observe que a seta mostra que o grupo de maior intervalo (30 dias) teve desempenho melhor que os outros dois!

Ué? Como assim? Parece maluquice, não? Pois bem, há várias teorias que procuram explicar isto. Aqui vou apresentar apenas uma, que não só faz sentido como também é particularmente interessante para este texto.

Note que, ao contrário dos intervalos curtos, o grupo do intervalo longo precisava fazer um esforço extra para lembrar-se dos assuntos, tanto na hora do teste inicial como também durante a sessão de estudo subsequente. Isto quer dizer que estes alunos, ao contrário dos outros,  tinha que buscar as respostas. Os outros já as tinham “na ponta da língua”. Desta forma, os alunos do intervalo longo, ao responder o teste estavam exercitando também os seus mecanismos de busca, coisa que os outros não precisavam. É por isto que se diz: “Vem fácil, vai fácil”.

Há ainda uma série de outros estudos que não cabe citar aqui. Por agora basta saber que a PD foi testada em muitas e diferentes situações e em todas,  a PD se mostrou superior ao estudo maciço. Foi demonstrado que a PD independe da idade, de crianças a idosos podem utiliza-la com benefícios. Também seus benefícios se apresentaram em diferentes conteúdos, do ensino elementar ao superior, nelas incluídas as da área da saúde. Finalmente ela não se restringe à instituição escolar. Estudos clínicos demonstraram seus efeitos na esclerose múltipla, traumatismo craniano e amnesia.

Talvez neste momento  você esteja confrontando a sua experiência com estudo e o que aqui se apresenta. Quando as pessoas estudam repetidamente e em curtos intervalos, geralmente ficam mais tranquilas, já que ao final de algumas repetições  elas passam a acreditar que sabem tudo. Não é verdade?

Aqui entra um detalhe importante  do que sabemos sobre a metacognição (conhecimento sobre o conhecimento).  Quando você estuda há duas perguntas que parecem iguais, mas não o são: a) Aprendi o assunto? e b) Serei capaz de responder bem às questões de prova?  Não é exatamente verdadeiro que se você aprendeu, vai responder.  Note que nem sempre saber significa que você pode demonstrar que sabe. É aquela situação em que te perguntam: Ah! Você sabe isto? Então explica!

Note no gráfico como isto aparece. Já mostrando que a PD distribuída melhora o desempenho na prova que é feita trinta dias após, e isto é um argumento em defesa da PD. Mas outra coisa é o desempenho dos alunos durante as sessões de estudo. Perceba como o gráfico mostra que os seus desempenhos são muito melhores no estudo maciço.

Isto não explica porque você se sente melhor após várias etapas seguidas de estudo?  É o que Michael (1991) chamou de “curva da procrastinação”, que é um nome complicado para se referir ao “aluno padrão” descrito linhas acima. Ou seja, quando a prova está longe, o estudo fica esquecido. A medida que ela se aproxima mais intensa e frequentemente o aluno passa a estudar.  E perceba como, por vias tortas, isto acaba sendo verdade. O aluno favorece a memorização imediata. E isto é bom (pelo menos parece que é bom); mas o preço que se paga é o rápido esquecimento.

Uma vez, conversando com um oficial de alta patente, ligado ao ensino militar, escutei o seguinte comentário:

– Meus alunos estudam muito para as provas, e respondem bem às questões. O problema é que  normalmente após os testes fazemos sessões de treinamento físico, e depois  todo o conhecimento sai pelo ralo junto com a água do banho!

Então? Percebeu como a Prática Distribuida pode te ajudar? Espero que sim.

Se você se interessou, talvez agora você tenha outras perguntas sobre a PD. Por exemplo:

  • Como fazer a PD?
  • Repetir como?
  • E as matérias?
  • Repetir quando?
  • Como estudar para a prova?

Estas perguntas são legítimas e vamos respondê-las no próximo post. Ok?

Um grande abraço

Nota: Este artigo prossegue no post “Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Cédric Villani fala sobre Educação Matemática

Saiu no Globo de 14/08/2012. Li, gostei e trago para vocês um extrato da entrevista. Há um grifo meu em determinados trechos, que considero mais relevantes. Quem sabe você concorda comigo…

A entrevista:

digitalizar0001Um dos maiores gênios da matemática, o francês Cédric Villani foge do estereótipo do professor sisudo. Visual extravagante, que lhe rendeu a alcunha de “Lady Gaga da matemática”, o ganhador da Medalha Fields de 2010 – o equivalente ao Prêmio Nobel de sua área – está no Rio para fazer uma conferência no Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Em entrevista, ele se disse encantado com a cidade.

• O senhor também mencionou a necessidade de atrair os jovens para a matemática. Com fazer isso diante do fato de a maioria dos estudantes, e das pessoas em geral, ter “medo” de matemática e dos estudos de ciências em geral?

Este é realmente um dos maiores perigos que devemos temer. Primeiro temos que reconhecer que as pessoas aprendem e usam a matemática há milhares de anos, então temos várias ferramentas pedagógicas que são boas e funcionam. São muitos os sistemas usados e hoje temos a possibilidade de compará-los e experimentar. Outra coisa que as pessoas tendem a esquecer é que na pedagogia o melhor método costuma ser aquele que é o preferido do professor; o que ele ou ela desenvolveram por si próprios e sabem por experiência própria que seu sistema funciona. No fim, o que importa é a relação entre os alunos e o professor. Os professores mais motivadores que encontrei na escola eram os que tinham seu próprio estilo, seus próprios exercícios e que davam mais atenção para os alunos que se mostravam mais interessados. Eram os que realmente gostavam da matéria que ensinavam, e isso é motivador. E na matemática, embora alguns princípios sejam importantes, deve-se ter paciência. A matemática não é algo natural para nós. Nossa maneira de pensar é baseada em emoções, sentimentos na identidade visual e no contato com as pessoas, e não na lógica matemática. Esta lógica foi desenvolvida por várias civilizações ao longo do tempo e chegou a nós com esforço. Temos que lembrar disso e que leva tempo para entrarmos no espírito da matemática. E o mais importante na educação matemática não é o

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MentoMob – Uma lista que ensina

Uma “Playlist” comum é uma lista de músicas que você gosta e compartilha com outras pessoas. As listas do MentorMob são diferentes, são uma ferramenta de ensino.

Suponha que você quer ensinar uma coisa que está na web, só que espalhada por vários lugares. E que nestes vários lugares há informação com diferentes níveis de complexidade e formatos.  Então você cria uma lista destes lugares. Configura a sequência que eles devem ser vistos e dá algumas orientações que você acha pertinentes. E aí voce compartilha com o seu aluno o endereço da lista.

O que o seu aluno vê, não é uma lista simples, mas um conjunto de telas nas quais em sequência, como se fosse uma apresentação de slides, aparecem todos os sites, documentos, vídeos e etc. que você definiu. O aluno controla as idas e vindas, e ecebe orientações que você achou adequado colocar.

MentorMob

Como você vê, a “playlist” do MentorMob é quase um tutorial sobre o assunto que você quer ensinar. Inclui ainda vários recursos de compartilhamento e diálogo.

Gostei!

 

Você tem alguma dúvida ou pergunta?

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Copiar ou prestar atenção? Relações entre termos correlatos

No post da semana passada terminamos uma etapa importante. Ensinanos como fazer a Atitude Mental de Atenção. Com isto você já se capacitou para fazer o que prometemos desde o início desta série: Prestar atenção!

No entanto, há alguns alertas que devemos fazer. Isto porque frequentemente confundimos a atenção com outras coisas bem diferentes. E quando isto acontece, nem prestamos atenção nem obtemos estas outras coisas. Mais que isto, às vezes, esperamos da atenção benefícios que ela não pode dar.

Por isto hoje trabalharei com vocês três palavras que que podem ser um problema para quem quer prestar atenção. São elas:

  • Memória
  • Interesse
  • Compreensão

Memória e atenção

Do que foi dito até agora, pode parecer que a construCapturar018ção das formas mentais é uma técnica de memorização. É razoável imaginar que eu internalizo uma informação ela estará disponível sempre que necessário. Mas isto não é verdade. Quantas vezes não conseguimos lembrar-se de algo que já soubemos, até com muita profundidade?

Você dirá: Claro, há coisas que não uso há muito tempo e com isto a memória vai se “apagando”. E você estará certo. A prática é uma forma muito eficaz de memorizar. Mas isto nos leva à uma característica essencial da memória e que a diferencia d atenção.

Quando nos lembramos de algo, o fazemos por conta de duas coisas:

  1. Este algo já estava dentro de nossa mente e;
  2. de alguma maneira conseguimos trazê-lo à consciência.

E é esta a diferença. Na atenção apenas introjetamos o objeto. Na memorização o objeto já introjetado é trazido de volta à consciência.

Outra forma de discriminar um termo do outro é ressaltar que na atenção temos em nossa presença o objeto a ser apreendido. Ele é algo do mundo externo e para fazê-lo existir na mente, construo a forma mental correspondente. Já na memória não: o objeto não está mais no mundo externo (pelo menos não na minha presença). Ele existe apenas como forma mental.

Na atenção fazemos existir mentalmente algo que lá estava ausente. Na memória este algo já existe; nossa tarefa é recuperá-lo.

Outro ponto importante, é que a atenção é indispensável para a memória. Se a memória recupera uma forma mental pré-existente, é por meio da atenção que ela é construída. Não é possível memorizar sem a atenção anterior.

Por exemplo, se você está em sala de aula e o professor está explicando um conteúdo, cabe primeiro atentar para ele (construir a forma mental), e isto durante a aula. Já na hora da prova, longe da explicação do professor você precisa exercitar a memória (recuperando a forma mental criada pela atenção)

Assim temos:

  • Atenção = Presença do objeto + Construção da forma mental correspondente.
  • Memória = Ausência do objeto + Recuperação da forma mental pré-existente.

Esta diferença tem consequências práticas. Sendo diferentes as tarefas – construir e recuperar as formas mentais – são também diferentes as operações mentais que as executam. O propósito deste capítulo é ensiná-lo a praticar a atitude mental de atenção. A atitude mental de memorização é tema de outro texto.

Gostar do assunto (Interesse) e Atenção

Segundo o Aurélio; interesse é “estado de espírito que se tem para com aquilo que se acha digno de atenção”. É portanto resultante do valor que se dá a algo. É só após isto que surge a atenção, Eis aí uma primeira distinção. Outra definição da mesma fonte: “qualidade do que retém a atenção, que prende o espírito”. Isto é é algo que atrai, que prende a atenção. Não é ela própria a atenção.

Que não se negue a importância do interesse. Para atentar, já disse antes, é preciso valorizar o mundo apreendido. Quando gostamos de algo, tudo é mais fácil. É muito importante queo professor motive os seus alunos. Sem saber o valor dos conteúdos apresentados, é difícil que se sintam atraídos por ele.

Qual a função do interesse?

Mas a questão aqui é outra. Afirmo que o interêsse não é suficiente para que o aluno aprenda. Se o caminho é aplainado por ele, o aprendizado começa a ocorrer apenas no momento da atenção. Tomemos um exemplo de La Garanderie: Capturar019

“Filipe é apaixonado por motos. Observa-as, assiste corridas, vai a oficinas. Lê revistas, coleciona fotos. Fala sobre elas o tempo todo, com seus amigos e com quem mais estiver por perto. Questionado, sabe tudo sobre elas. E por quê este desempenho? Porque dado o seu interesse está atento a tudo o que se refere a elas.”

Nos termos deste texto, está constantemente criando formas mentais do objeto do seu interesse. Tem imagens mentais das motos, relembra corridas importantes, executa em sua imaginação os movimentos do piloto de sua preferência. Assim é que por conta do seu interesse criou espontaneamente uma “biblioteca mental” sobre o assunto. E. quando questionado, basta recuperar a forma mental pertinente[1].

O que chama a atenção neste exemplo é a criação espontânea das formas mentais. Aqui o interesse foi o ponto de partida, mas o desempenho de Filipe não se deu apenas em função do seu interesse por motos, mas porque desenvolveu em relação à elas o hábito de regularmente criar formas mentais dos objetos do seu interesse.

Agora tomemos outro exemplo.

Suponhamos que João não tenha qualquer interesse em motos, mas que por conta do destino empregou-se em uma loja de vendas de motocicletas. Ele não se interessa por elas, nem mesmo gosta, mas sabe que do seu conhecimento e da sua capacidade de se relacionar com os amantes do veículo, depende seu desempenho como vendedor e, portanto o seu sustento.

A diferença está na atenção!

Agora João se comporta exatamente como Felipe, lê as revistas, assiste à corridas, fala com pessoas, etc. Como Felipe, cria as formas mentais adequadas. Como Felipe, portanto, aprende bastante sobre motos, porém não por prazer, mas apenas pelas suas necessidades profissionais. De novo, assim como Felipe a razão para o seu desempenho não foi o interesse, muito pelo contrário, mas sim a criação de formas mentais.

Em defesa do papel do interesse, é provável que Felipe e João se comportem de forma diferente ao longo do tempo. O desempenho de Felipe, provavelmente se manterá alto durante longo tempo, já que ele gosta de motos. Já o de João, provavelmente desaparecerá tão logo ele troque de emprego. Afinal, ele não gosta delas, aprendeu apenas para poder ganhar dinheiro.

Compreensão e Atenção

Parece, às vezes, que basta prestar atenção à aula para compreender um assunto. Basta que o professor explique direito o tema, para que o aluno compreenda. É como se a compreensão fosse uma consequência direta e automática da aula e atenção adequadas.

Neste sentido então, quase se iguala atenção à compreensão. Isto se deve em parte ao desconhecimento das operações mentais específicas à cada tarefa. Já nos referimos à atitude mental de atenção. Vejamos agora o que se passa durante o processo de compreender.

É comum em sala de aula que o professor pergunte aos alunos se compreenderam o que foi dito. Mas o que é compreender? Quando na dúvida, o professor costuma testar a compreensão fazendo perguntas ao aluno sobre o que foi dito. Talvez isto já tenha acontecido com você. As respostas em geral, situam-se em quatro categorias. O aluno: Capturar020

  1. Não se lembra de nada.
  2. Repete “ipsis literis” o que foi dito, mas não consegue explicar o que foi repetido.
  3. Repete e explica.
  4. Repete, explica e completa a explicação fazendo ligações com assuntos correlatos.

Estas quatro categorias dão ao professor uma ideia do que se passa na mente do aluno. Da mesma forma podem dar a você uma indicação do seu grau de aprendizado sobre um assunto específico.

No primeiro caso, o aluno nada sabe. Significa dizer que a aula “não entrou” na sua mente. E, do ponto de vista específico deste texto, não houve a construção das formas mentais. Se nada existe, então nada pode ser recuperado. Logo, ele “Não se lembra de nada.”. Neste sentido então, não houve atitude mental de atenção.

No segundo dizemos que há informação, mas o aluno não sabe o que ela significa. Por isto ele repete sem conseguir explicar. Não houve, neste caso o conhecimento. O aluno não consegue responder às perguntas do professor E isto só se dá no terceiro caso quando a repetição se associa às respostas corretas, frequentemente dadas com suas próprias palavras. É neste momento que o professor (e também você) pode perceber que o aluno conhece o assunto.

Mas compreender vai além de conhecer. Quando compreende, você tem consciência sobre quatro aspectos metacognitivos:

  1. O que você sabe sobre o assunto.
  2. O que não sabe e precisa saber.
  3. Como se relaciona tudo o que você sabe, não sabe e precisa saber.
  4. E finalmente como o que você sabe se relaciona com outros conhecimentos correlatos.

Se as resposta de uma pessoa revelam o seu conhecimento, são as perguntas que indicam a compreensão. Avaliar a compreensão de alguém é analizar a percepção e profundidade de suas perguntas, E esta é uma ferramenta que tanto você como o seu professor podem usar.

Assim, podemos dizer que compreender é uma ação mental onde você torna explícitas as relações entre o todo e as partes. E você sabe que está fazendo isto quando tem respostas para perguntas do tipo: Para que e porque isto se dá; como ocorre, quais seus benefícios, etc.

Por isto fica claro que compreender não é prestar atenção. Na atitude mental de atenção, já dito, você faz existir mentalmente (por meio de formas mentais) um conteúdo que originalmente estava no meio externo.

Mas uma vez criadas as formas mentais, é necessário todo um processamento para gerar o conhecimento e posteriormente a compreensão. Nos termos deste texto, compreender é estabelecer as ligações entre as formas mentais atuais (as que se referem ao conteúdo que está sendo ministrado no presente) e as anteriores (formas mentais de conteúdos passados). Ainda mais, significa usar o seu raciocínio para destas relações, tirar consequências.

Fica claro então a diferença entre a atenção e a compreensão. Mas fica também explícita a função da atenção na compreensão.

Para compreender é preciso atentar

Para compreender é preciso atentar: “Cumprehendere é “tornar para si” ; é também “ter o sentido de”. Há portanto a necessidade prévia de trazer para consciência o objeto a ser compreendido. A ausência da atenção determina a ausência da compreensão. Sem a matéria prima, não há como obter o produto.

Entendeu?


[1]  Reitere-se aqui o que já dissemos sobre a metáfora da memória-arquivo; didaticamente forte, mas imprecisa à luz da literatura corrente.

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Hoje terminamos o ato de prestar atenção. Mas a série continua! Se agora você já pode ficar atento, está na hora de trabalhar o ANOTAR. Lembra que no início mostramos que Copiar era impossível e que o melhor era anotar?

Então nos vemos na próxima semana!

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