Projeto de extensão – Parte 4: Fundamentação Teórica


ítulo do projeto:

Estratégias de ensino/aprendizagem no desenvolvimento por meio de um blog educativo na área da saúde

Fundamentação Teórica

Nas economias baseadas no saber (e é razoável afirmar como relevante este aspecto para o Brasil); três são os fatores significativos para o desenvolvimento:

1­. A capacidade de produzir conhecimento;

2. Suas estratégias para disseminá-­lo;

3­. A capacidade das pessoas de utilizá-­lo.

Assim é que “O desafio é criar espaços que viabilizem o discurso da integração, onde o saber popular seja respeitado e valorizado, unindo-­se aos conhecimentos da academia e dos profissionais das instituições públicas e privadas, como também das organizações não governamentais (Ellery et al, 2010).

É sobejamente conhecido que em grande parte do mundo ocidental se observa grande participação na vida cotidiana das tecnologias de informação e comunicação. Tal fato foi denominado por Castells (2003) de Sociedade da Informação. Um mundo “onde o conhecimento é um recurso flexível, fluido, sempre em expansão e em mudança” (Hargreaves, 2004).

No dizer de Coutinho&Lisboa (2011):

“ O desafio imposto à escola por esta nova sociedade é imenso; o que se lhe pede é que seja capaz de desenvolver nos estudantes competências para participar e interagir num mundo global, altamente competitivo que valoriza o ser-­se flexível, criativo, capaz de encontrar soluções inovadoras para os problemas de amanhã, ou seja, a capacidade de compreendermos que a aprendizagem não é um processo estático mas algo que deve acontecer ao longo de toda a vida.”

Uma das formas para superar este desafio é integrar ensino, pesquisa e extensão, Como afirma Dias (2009) “A pesquisa e a extensão, em interação com o ensino, com a universidade e com a sociedade, possibilitam operacionalizar a relação entre teoria e prática, a democratização do saber acadêmico e o retorno desse saber à universidade.”

Em relação à educação, Coll & Monereo (2010) listam oito fatores de especial importância neste cenário. No que se refere à este projeto três são mais pertinentes:

  1. Informação, excesso de informação e ruído: Se por um lado a disponibilidade de informação na rede é gigantesca, isto não significa necessariamente que os usuários estejam mais e melhor informados. A capacidade de localizar a informação correta e filtros que atestem a qualidade do material obtido são questões chave neste contexto.
  2. A rapidez dos processos e suas consequências: O aumento da velocidade de produção e transformação da informação provoca grande instabilidade nos processos de ensino e aprendizagem.
  3. A escassez de espaços e tempo para a abstração e a reflexão: Afirmam os autores (d’aprés Cébrian, 1998) “a velocidade é contrária à reflexão, impede a dúvida e dificulta o aprendizado”.

Além disto, no que se refere à educação, a rede mundial de computadores é frequentemente vista apenas como repositório de informação. Isto implica em reduzir o processo de busca de conteúdo a mero obstáculo na consecução da meta. No entanto isto não é necessariamente verdade, já que buscas na web envolvem competências na resolução de problemas. Tais competências são em si requisitos para o aprendizado e alfabetização em um mundo progressivamente imerso e dominado pelas tecnologias da informação ( Caviglia; Ferraris , 2008).

Na perspectiva de uma teoria do conhecimento, este projeto se fundamenta nos princípios do construtivismo. Como um paradigma ou visão de mundo postula que a aprendizagem é um processo construtivo ativo. Neste sentido o aprendizado se liga ao conhecimento prévio e as representações mentais são subjetivas (Constructivism, 2015). Matthews, na perspectiva epistemológica, aponta duas teses que são centrais ao construtivismo (El-Hani & Bizzo, 2008):

  1. O conhecimento é uma construção do sujeito, e não algo que ele possa receber passivamente do meio.
  2. O ato de conhecer é um processo de adaptação, que organiza o mundo das experiências, mas não conduz à descoberta de uma realidade dada, independente da mente que a conhece. Embora mais fortemente aderente à primeira, ambas as teses permitem entender e aceitar os objetivos e ações propostos neste projeto. Assim é que entendemos o aprendiz em saúde, potencial leitor deste blog como um indivíduo em construção, interagindo com o mundo segundo suas demandas e características idiossincrásicas. Desta forma, o blog proposto se coloca como uma parte da rede de conteúdos (presencial e/ou virtual) disponível para este aprendiz. Enfatizamos, entretanto, que este projeto procura criar condições para que o blog seja candidato à nó privilegiado nesta rede de informações. Isto porque projeta funções de curadoria e filtro de conteúdo para o seu tema específico.

Na perspectiva do processamento cognitivo, este projeto busca suporte na Cognição Distribuída. De forma simples, este conceito pode ser entendido como a capacidade de interagir significativamente com ferramentas que expandem nossas capacidades mentais. É possível traçar suas raízes em Vygotsky (1978) na sua proposição de dois importantes conceitos:

  1. A cognição humana possui uma propriedade que é a de interpor artefatos mediadores entre o estímulo e seus recursos internos, tais como a linguagem e objetos físicos que a altera de maneira fundamental.
  2. Estes artefatos mediadores derivam do ambiente tanto cultural como físico. Assim sendo, afirma que a cognição humana é uma propriedade não apenas dos processos internos como ainda dos processos sociais e mundo físico.

No entanto é apenas mais tarde, que o termo surge em sua forma mais completa, enunciado por Edwin Hutchins (1995) em seu livro “Cognition in the Wild”. Nele, o autor propõe clara distinção nos estudos sobre a cognição:

“… Tenho em mente a distinção entre o laboratório, onde a cognição é estudada como que encarcerada e o mundo cotidiano, onde a cognição humana se adapta ao seu contexto natural. Espero evocar com esta metáfora um sentido de pensamento ecológico no qual a cognição humana interage com um ambiente rico em recursos organizacionais.” Assim é que fundamentados neste conceito, é possível pensar em processos cognitivos que incluem não só o ser humano, como também as ferramentas que usamos para compartilhar e expandir nosso conhecimento (Reilly, 2010). Por isto, a consecução dos objetivos propostos neste projeto permite definir o blog proposto como ferramenta de Cognição Distribuída. Em particular chamo a atenção para o objetivo: Promover curadoria de conteúdo específico à área do blog, integrando-o a outras ferramentas, tais como bancos de dados ligados à educação e/ou saúde, plataformas de distribuição de conteúdo ( YouTube, Slideshare, Issuu entre outras).

A produção de conteúdo na internet é espantosa. Gunelius (2014) mostrou, por exemplo, que em um único minuto usuários do:

  • Facebook compartilham aproximadamente 2,5 milhões de pedaços de conteúdo.
  • Twitter publicam 300.000 “tweets”.
  • Instagram postam aproximadamente 220.000 fotos novas.
  • YouTube carregam 72 horas de novos vídeos.
  • Correio eletrônico enviam mais de 200 milhões de mensagens.
  • Site de vendas da Amazon geram mais de US$ 80 mil em vendas.

Da mesma forma o é o material científico publicado. Usando dados de 2010, Hull (2010) apresenta os seguintes dados:

  • 10 mil artigos publicados em 4 anos pelo PLoS ONE.
  • PubMed tem 1,7 milhões de artigos em sua base de dados.
  • A base Scopus e a ISI Web of Knowledge afirmam cada um ter 40 milhoes de registros em suas respectivas bases.

Jinha (2010), finalmente estima em 50 milhões o total de artigos publicados (dentro e fora da internet) desde 1665. Dados nacionais do Portal Periódicos mostram que o fluxo de informação é também enorme.

Em 2013 foram 56.524.022 acessos a bases de dados do portal e 44.420.626 downloads de artigos com texto completo.

É fácil perceber portanto a necessidade de ações de curadoria na internet de modo a permitir a existência de filtros que indiquem caminhos e atestem qualidade do material publicados.

Referências:

ANDY HARGREAVES. O ensino na sociedade do conhecimento: educação na era da insegurança. Artmed, 2004.
CARDOSO, P. Como criar um blog no WordPress grátis? Disponível em:  Acesso em: 25/5/2015.
CAVIGLIA, F.; FERRARIS, M. The Web as a learning environment. In: M. Kendall; B. S. F. of B. C. Society (Orgs.); Learning to Live in the Knowledge Society, IFIP – The International Federation for Information Processing. p.175–178, 2008. Springer US. Disponível em: Acesso em: 18/12/2013.
CÉSAR COLL; CARLES MONEREO. Educação e aprendizagem no século XXI. Psicologia da Educação Virtual: Aprender e ensinar com as tecnologias da informação e comunicação. 2010. Porto Alegre: Artmed.
DUNCAN HULL. How many journal articles have been published (ever)? | O’Really? O’Really?, 15. jul. 2010. Disponível em: Acesso em: 23/5/2015.
EDWIN HUTCHINS. Cognition in the Wild | The MIT Press. 1º ed. MIT Press, 1995.
ERIN REILLY. What is Distributed Cognition? New Media Literacies Blog, 2010. Disponível em: . Acesso em: 19/9/2010.
JANE HART. Top 100 Tools for Learning 2014 – Center for learning and performance technologies. Disponível em:. Acesso em: 25/5/2015.
JINHA, A. E. Article 50 million: an estimate of the number of scholarly articles in existence. Learned Publishing, v. 23, n. 3, p. 258–263, 2010. Disponível em:  Acesso em: 23/5/2015.
MANUEL CASTELLS. A Galáxia Internet: reflexões sobre a Internet, negócios e a sociedade. Zahar, 2003.
SUSAN GUNELIUS. The Data Explosion in 2014 Minute by Minute – ? Infographic | ACI. , 12. jun. 2014. Disponível em:  Acesso em: 23/5/2015.
VYGOTSKY, L. S. Mind in society: the development of higher psychological processes. Cambridge: Harvard University Press, 1978. WordPress › Brasil. .Disponível em: . Acesso em: 25/5/2015.

   

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