A Psicologia Diferencial e o Processo de Aprendizagem na Perspectiva Individual


Olá!

Apresento o abaixo o texto de uma aluna de mestrado que orientei. Acho que pode ajudá-lo a entender um pouco melhor sobre o que é e como a Psicologia Diferencial pode ajudar a compreender o seu processo de estudo.

Prof. Mauricio A. P. Peixoto


A Psicologia Diferencial e o Processo de Aprendizagem na Perspectiva Individual

Alessandra Costa Penna

Extrato de: Estilos de aprendizagem e ambientes de ensino: Estudo comparativo dos estilos verbalizados e visualizador nos contextos presencial e a distância. / . – Rio de Janeiro: UFRJ / Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, 2007, pg 45-49.

Segundo Jonassen & Grabowski (2001), a psicologia diferencial é o campo da psicologia que estuda o papel das diferenças individuais no comportamento humano. Os objetivos fundamentais desta área da psicologia são o estudo dos comportamentos humanos, a compreensão dos processos mentais, e a procura de causas e compreensão das consequências das diferenças psicológicas entre cada um de nós.

Como cada pessoa se desenvolve de forma diferente, esta vertente da psicologia concentra os seus estudos na variabilidade do ser humano. Entende-se diferenças individuais como as inteligências, os estilos cognitivos e a personalidade. Cada indivíduo possui uma maneira de acomodar as idéias e assimilar mentalmente um conteúdo, e isto é possivel pois cada um possui determinadas habilidades mentais. Os estilos cognitivos e o tipo de controle cognitivo refletem o modo de pensar do indivíduo e sua personalidade.

No processo de aprendizagem os indivíduos apresentam diferentes modos de comportar-se, assim, uma vez respeitadas tais diferenças, é possível promover a igualdade de condições e oportunidades para o aprender.

Para estes autores, a personalidade influencia a estabilidade emocional do aprendiz e a motivação para aprender. A fim de descrever as diferenças individuais, tais autores utilizaram o termo “metáfora geográfica”. Esta vê as diferenças entre os indivíduos como um mapa da mente, no qual cada indivíduo tem um “terreno” diferente. A mente humana pode ser vista como uma paisagem de traços e habilidades que varia de indivíduo para indivíduo. Tal paisagem possui picos e vales. Os picos representariam os traços fortes (resistentes), e os vales a ausência de habilidades específicas de aprendizagem. E, finalmente, a combinação de traços e aptidões de um individuo compõe o estilo e a personalidade.

Estudos denominados de ATI (aptitude-by-treatment interaction research) investigam o efeito das atitudes e  dos traços do aprendiz nos resultados de aprendizagem, a partir das diferentes formas de instrução. “Aptitude” se refere às variáveis de personalidade, estilos cognitivo, habilidades mentais; “Treatment” consiste da estrutura e forma de apresentação das estratégias instrucionais (entendendo como estratégias instrucionais o conjunto de decisões que resultam em um plano, método, ou uma série de atividades com objetivo de atingir uma meta- Jonassen, Grabinger & Harris, 1990 In: Jonassen & Grabowski, 2001); e “Interaction” é o que ocorre entre “aptitude” e “treatment”. Então, diferenças individuais resultam em diferentes desempenhos, resultados. Portanto, diferentes estratégias instrucionais podem facilitar ou inibir, prejudicar, a aprendizagem, dependendo dos efeitos das características estruturais dos tipos de aprendizes. Exemplificando, aprendentes com diferentes traços não respondem similarmente a uma mesma forma de instrução.

O estudo da ATI é útil para entendermos as diferenças individuais no processo de aprendizagem, logo é útil para compreendermos os diferentes estilos de aprendizagens e para analisarmos os diferentes tratamentos de informação.

Cada indivíduo tem uma maneira de acomodar as idéias e assimilar mentalmente um conteúdo, ou seja, constroem significados diferentes para um mesmo conhecimento compartilhado, e aplicam tal conhecimento de forma diferente em novas situações e contextos. Isto é possível, pois que cada um possui determinadas habilidades mentais para processar as informações. E, portanto, os estilos cognitivos e o tipo de controle cognitivo refletem o modo de pensar do indivíduo e sua personalidade.

Cada aprendiz tem sua história de vida, algumas experiências de aprendizado bem sucedidas, outras nem tanto. Este conjunto de experiências serve como pano de fundo para seus aprendizados.

Entendo ser pela consciência de todos estes aspectos, por uma constante retomada de suas próprias preferências, das vantagens e limitações das mesmas, que o aprendiz conhece seus processos de aprendizagem, tornando-se mais eficiente.

Em relação ao ambiente de aprendizagem, os pontos que devem ser ressaltados são (Jonassen & Grabowski, 2001):

·       Cada aprendiz é único na forma como recebe, processa informações, lida com diferentes situações de aprendizagem e aprende.

·       Uma única forma de apresentar informações não vai atingir a todos os aprendizes da mesma maneira. E aqui não estou me referindo somente ao formato dos materiais didáticos, mas à utilização de diferentes mídias, como a impressa e a digital.

·       A combinação de diferentes dinâmicas de trabalho em sala de aula beneficia diversas “preferências” de aprendizagem (estilos de aprendizagem).

·       O conhecimento por parte do professor das suas próprias preferências de aprendizagem e a de seus alunos, deve refletir no planejamento das atividades pedagógicas e na orientação para o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem.

·       O aprendiz precisa conhecer suas próprias preferências de aprendizagem para desenvolver estratégias que o auxiliem a lidar com as mais diferentes situações de aprendizagem na escola ou na vida.

Somente nos últimos anos se tem dado ênfase ao modo de aprender dos indivíduos, sob o ponto de vista daquele que aprende (Berbaum, 1993). Silva e Sá (1993) descrevem a aprendizagem como caracterizada pela organização e ativação de conhecimentos nos momentos apropriados, pelo recurso das estratégias cognitivas e sua aplicação eficaz.

Mc Keachie, 1966 (apud: Bordenave, J. D., Pereira, A. M.), a partir de sua experiência com alunos e professores de física, afirma que o ensino se torna mais eficaz quando o professor conhece a natureza das diferenças entre os alunos.

Serafini (1996) compreende a aprendizagem condicionada por diversas variáveis do indivíduo. Para esta autora, cada pessoa tem um estilo de aprendizagem e obtém melhor rendimento quando o segue.

Sadler-Smith e Smith (2004) entendem que a forma de comunicação professor-aluno e as diferenças individuais, estas últimas do ponto de vista dos alunos, interagem modificando o processo de aprendizagem 1e o seu respectivo resultado 2 .

Sohn, Doane e Garrison (2006) estudaram o impacto das diferenças individuais e do contexto de aprendizagem na aquisição de habilidades cognitivas de comparação visual e na transferência desta aprendizagem para novas situações. O estudo foi realizado em um grupo de estudantes da Universidade do Mississipi, e foi visto que, dependendo do treinamento inicial oferecido aos alunos, o resultado de desempenho em uma segunda etapa (de transferência do aprendizado para uma nova situação) variava. Então foi observado o efeito do nível de habilidade cognitiva na performance do estudante em diferentes treinamentos. Com este estudo, tais autores concluíram que para um bom treinamento é importante conhecer as diferenças individuais, antes mesmo de selecionar os indivíduos para serem treinados.

Ao trazer a experiência obtida através da pesquisa realizada por Sohn, Doane e Garrison (2006) para a realidade deste estudo, é possível pensar que, ao conhecer os estilos de aprendizagem dos alunos, o professor poderá optar por diferentes recursos de apresentação dos conteúdos de sua disciplina, e, simultaneamente, os alunos, ao conhecerem seus estilos preferenciais de aprendizagem, poderão fazer uma escolha mais consciente do contexto de ensino no qual melhor se adaptem. Portanto, conhecendo e respeitando tais diferenças, o processo de ensino-aprendizagem poderá acontecer de forma mais harmoniosa.

Quando o professor ensina, deseja que o aluno aprenda e cresça como pessoa humana. E para ensinar, o professor define objetivos, escolhe determinados conteúdos e atividades, mas os alunos não são todos iguais, são pessoas diferentes e singulares. Logo, reagirão de maneira diferente aos professores, aos objetivos das aulas, aos conteúdos (matérias), aos métodos de ensino, e às formas de avaliação. Tais reações diferentes os levarão a aprender de forma diferente. Portanto, as características pessoais dos alunos devem merecer a atenção do professor.

O professor e o aluno necessitam conhecer seu modo de aprender e mediar as possíveis diferenças que surgem de sua relação, uma vez que sabemos que há benefício no aprendizado quando os estilos de aprendizagem dos alunos são respeitados, e quando tais alunos se sentem motivados para aprender. Portanto, o professor, como um mediador do processo de aprendizagem, deve ficar atento aos estilos de aprendizagem de seus alunos, e procurar facilitar a aprendizagem destes utilizando diferentes formas, recursos, de apresentação do conteúdo.

(1) Em termos de funcionamento cognitivo, comportamento durante a aprendizagem, e predisposição para atividades específicas.

(2) Em termos de performance e motivação.

Referências Bibliográficas:

  •  BERBAUM, J. Aprendizagem e Formação. Porto: Porto Editora, 1993.
  • BORDENAVE, J. D.; PEREIRA, A. M. Estratégias de Ensino-Aprendizagem . Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
  • JONASSEN, David H.; GRABOWSKI, Barbara L. Handbook of individual differences: learning & instruction. Lawrence Erlbaum Associates, Inc., Publishers, Hillsdale, New Jersey, 2001.
  • SADLER-SMITH, E.; SMITH, T. J. Strategies for accommodating individual’s styles and preferences in flexible learning programmes. British Journal of Educational Technology, vol. 35, nº 4, 2004, pág. 395-412.
  • SERAFINI, M. T. Saber estudar e Aprender. 2ª ed. Lisboa: Presença, 1996.
  • SILVA, A.L. da e SÁ, I. de. Saber Estudar e Estudar para Saber. Porto: Porto Editora, 1993.
  • SOHN, Y.W.; DOANE, S. M.; GARRISON, T. The impact of individual differences and learning context on strategic skill acquisition and transfer. Learning and Individual Differences, vol. 16, nº 1, 2006, pág. 13-30.
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