Copiar ou prestar atenção ?


MP900443316[1]Um problema:

Não sei quanto a você, mas ao longo da minha vida de estudante sempre tive um grande problema: copiar OU prestar atenção. Eu assistia as aulas e a maior parte do que eu deveria aprender (e “caía” na prova) era falada pelo professor. Logo, obviamente eu deveria copiar para o caderno para poder depois estudar (frequentemente na véspera da prova).

Mas o que acontecia era que eu não conseguia acompanhar o professor em tudo o que ele falava. Tentava escrever e me perdia no caderno. Pelo menos para minha velocidade de escrever, os professores falavam rápido demais. E assim quando terminava de descrever uma ideia, o professor já estava muitos conceitos à frente na explicação e eu completamente perdido.

Mais que isto; quando conseguia copiar aula, o fazia de forma tão automática que mal percebia o que estava sendo dito. Ao chegar em casa e tentar estudar, tinha dificuldades. Isto porque eu havia copiado as ideias e às vezes as explicações; mas como não havia prestado atenção na aula, já que a estava copiando, então entender o que havia escrito era um desafio. A “salvação da lavoura” para mim era quando topava com um daqueles raríssimos professores que primeiro escreviam tudo no quadro (dando tempo para o aluno copiar) para só depois começar a explicar.

Para mim, copiar a aula era uma tarefa insana, e por isto volta e meia desistia de fazê-lo para dedicar-me apenas a prestar atenção na aula. Nestes períodos as aulas ficavam muito mais tranquilas. Entendia o que estava sendo dito e acreditava ter aprendido o assunto. Mas quando chegava a casa para estudar e ainda mais nas vésperas das provas descobria que não me lembra de quase nada da aula. E para piorar, não tinha nenhum recurso para ajudar a memória. Afinal, o caderno estava em branco (ou quase).

Durante todo o meu segundo grau vivi este conflito, de resolver um problema, apenas para cria outro. Sim, porque se copiava, eu tinha material para estudo posterior, mas como não prestava atenção, não conseguia estudar depois. Se prestava atenção, a situação se invertia; havia compreensão, mas logo depois esquecendo do que havia sido dito, ficava muito complicado estudar apenas com um caderno quase em branco. E assim durante longo tempo, vivi este conflito, tentando fazer ao mesmo tempo duas coisas para mim mutuamente excludentes.

Será que esta situação não lhe é familiar? Como disse no início do texto, não sei se especificamente você, mas em minha já algo longa vida de professor, tenho percebido isto como um problema muito comum. Portanto acho que se isto não ocorre com você provavelmente vê acontecer com amigos.

Uma descoberta:

Continuando minha história, fui inventado soluções. Ler mais os livros da disciplina, perguntar a colegas, estudar em grupo, etc. Mas uma delas acabou despontando como a mais prática. Lá para o final do segundo grau e início da faculdade, descobri um personagem importantíssimo: A Fanática Copiadora[1]! Embora alguns homens pudessem assim ser classificados, geralmente eram mulheres as ocupantes desta função. Eram colegas de turma dotadas da rara (e muito apreciada) capacidade de copiar com rapidez e eficiência.

Assim, durante algum tempo, uma fanática copiadora e uma máquina Xerox resolveram o meu problema. Durante a aula eu prestava atenção, confiando que antes das provas poderia “xerocar” o caderno da amiga. Ainda mais que na faculdade; livros, artigos científicos e eventualmente apostilas, assumiram um papel mais relevante que no segundo grau.

Mas como tudo muda, isto não funcionou durante muito tempo. Como disse, copiar com eficiência é uma qualidade muito rara. Ao longo do tempo a “minha turma” foi se reduzindo. No início da faculdade éramos 320 alunos, logo fomos subdividos em grupos de 40, com horários e disciplinas diferentes. No meu internato mais divisões e a turma reduziu-se para doze alunos. No mestrado seis e no doutorado dois alunos. E em algum ponto do caminho perdi minha fanática copiadora.

E assim progressivamente fui voltando ao início, ou quase. Isto porque ao longo do tempo fui descobrindo o “caminho das pedras”. Descobri que se por um lado era necessário registrar tudo o que era apresentado em aula, não era necessário copiar tudo o que o professor dizia.

Copiar e Anotar: Dá tudo no mesmo?

O que hoje para mim é óbvio, e talvez também para você; na época não parecia. Vejo hoje que isto continua não sendo óbvio para um bom número de estudantes. Vamos então explorar um pouco isto e logo depois explico a razão deste aprofundamento.

Peço então que você pense no que significa COPIAR. Agora pare alguns segundos e em um papel escreva as ideias que vêm à sua mente para o significado de COPIAR.

. . .

clip_image002

. . . Pensou???

Bem, então vamos ao que o dicionário Houaiss[2] apresenta como significado[3]:

  • Produzir cópia de, por transcrição ou por imitação
  • Tornar a produzir, por qualquer processo de reprodução; reproduzir
  • Transcrever (trecho selecionado de texto, ou uma imagem do documento ativo) para a área de transferência, sem alterar o conteúdo do documento ativo

Os significados acima são de alguma forma, próximos aos que você pensou? Note que em síntese tudo se refere a que ao copiarmos algo a cópia é idêntica ao original. Chamo sua atenção para isto:

ORIGINAL = CÓPIA !

Agora então eu pergunto: É possível COPIAR uma aula? Isto é; produzir algo que seja IGUAL à aula que você acabou de assistir? Note que ao usar o termo igual, estou perguntando se é possível produzir algo que seja indistinguível do original. É possível produzir algo que você possa mostrar a alguém e esta pessoa possa acreditar que está REALMENTE assistindo a aula que você assistiu?

Acho que você concordará que não é possível. Mesmo que você filme a aula, o espectador saberá que está assistindo a um vídeo de uma aula que já ocorreu. Por melhores que sejam os dispositivos técnicos a serem usados, eles só permitirão uma experiência no máximo muito similar à aula verdadeira. O resultado será apenas uma referência ao original[4].

Assim, acho que neste momento você já está convencido que copiar uma aula é tarefa impossível. Mas se assim é porque usamos o verbo copiar para expressar aquilo que fazemos ao assistir uma aula? Sabemos lá no fundo o que significa copiar. Mas também e ao mesmo aceitamos fazer algo que não é copiar. Aceitamos uma coisa que é uma “meia-sola” do copiar. Ou seja “copiamos” uma aula –  na medida do possível.

Assim, sem nos darmos muita conta do que que fazemos, aceitamos dia após dia executar uma missão impossível. Pode não parecer, mas isto cria um conflito cognitivo e emocional no estudante. Daí as resistências em relação à tarefa. Quem, exceto heróis de cinema, aceitam em sua rotina executar missões impossíveis (e as realizam com sucesso)?

Uma solução possível é utilizar outro verbo: Anotar. Você ou seus amigos talvez usem copiar e anotar como sinônimos. E aí neste caso a missão deixa de ser impossível. Sabe por quê? De novo o Houaiss que nos diz que anotar obviamente é fazer uma anotação e esta significa[5]:

  • Indicação; escrita breve; apontamento, nota, chamada.
  • Série de comentários gerais sobre produção literária, artística ou científica; observação.

Então perceba que anotar não é copiar.

Copiar é passivo, exige do estudante uma atitude de mera reprodução. O que diz o professor é para ser escrito e ponto final. Nada mais. Aliás, o aluno NÃO pode colocar na cópia nada que já não tivesse sido dita pelo professor na aula. Da mesma forma, não pode dela retirar nada. Nos dois casos seria uma distorção do original.

Ao contrário, anotar envolve uma série de ações do aluno para extrair da aula alguns aspectos. Anotar é então uma ação ativa. Implica em uma participação do estudante. Exige sua crítica ao discurso do professor, para selecionar o que é importante e o que não é. Demanda ainda uma decisão do aluno no momento de organizar no papel as informações selecionadas. Ele precisa pensar e decidir tendo em vista o tipo de aula e professor, conteúdo, suas características pessoais, e objetivos futuros da anotação.

Assim; a grande mensagem deste post é que você deve parar de copiar e passar a anotar. Para isto pensar sobre você e seus objetivos para então  produzir as SUAS observações sobre a aula que está assistindo.

Como fazer isto é o que ensinarei nos próximos posts.

Até lá!


[1] Antes que seja criticado enfatizo que na época não usava e hoje também não uso este termo como pejorativo, Atualmente, não acho que esta seja a melhor solução, mas acredito que neste mundo real, para as pessoas que vivem o dilema de copiar ou prestar atenção, ser amigo de uma fanática copiadora é extremamente valioso.

[2]http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=copiar&x=11&y=17&stype=k em 06/11/2011

[3] São vários, mas cito aqui o s mais relevantes.

[4] Note que não estou aqui valorando diferenças entre original e cópia. Não importa aqui que uma ou outra pessoa prefira o vídeo da aula que a própria. Aui, isto não importa. O que procuro enfatizar é a diferença reconhecível entre o original e o que se apresenta como cópia.

[5]http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=anota%E7%E3o&stype=k em 06/11/2011

Você tem alguma dúvida ou pergunta?

Deixe sua questão no campo de comentários !

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s