CONHECER é RELACIONAL – A experiência e a consciência do corpo


Anotado de Gill, Jerry H.: Learning to Learn: Toward a Philosophy
of Education (cap 2), – Ed.:Humanities Press  Internacional, Inc.,
Atlantic Highlands, New Jersey, pp 39-48, 1993.

Conhecercomodana.jpgComo é algo muito próximo, a consciência de ter um corpo geralmente passa despercebida. No entanto é através dele que interagimos com o mundo. Por isto, “Ser um corpo define a natureza e a estrutura de nossa experiência”. De longa data, filósofos da tradição ocidental têm passado ao largo deste aspecto. Por um lado, os racionalistas definem o homem como mentes possuindo corpos. E por outro, os empiristas enfatizam a percepção em detrimento da mente. Como conseqüência, tradicionalmente não se tem valorizado a importância do movimento. Ora, é através dele que interagimos com o mundo. é através dele que nos percebemos como tendo um corpo.

O trabalho de Jean Piaget demonstra que a criança tem habilidade de raciocínio antes de se tornar um membro da comunidade lingüística. Ele conclui que nós pensamos antes e independentemente de falar. Percebe-se aí o conhecimento não apenas como atividade mental, mas também como uma habilidade racional exibida na atividade física da criança. Isto reforça a participação do corpo no processo de construção do raciocínio. Visão, audição e tato surgem simultaneamente e de maneira interdependente; um influenciando o outro. Desta forma é correto dizer que quando pensamos, o fazemos através do nosso corpo.

Percepção e razão não podem ser entendidos separadamente. Por exemplo: A imagem de campos gravitacionais ou eletromagnéticos onde um de seus elementos só pode ser compreendido em relação ao outro (positivo e negativo; leve e pesado). Ou então: A função de uma máquina complexa não pode ser compreendida apenas pela análise individual de suas engrenagens, mas pelo estudo de suas relações. Por isto é possível afirmar que não há aprendiz sem algo a ser aprendido; conhecer sem o conhecedor e o conhecimento.

O dualismo racionalista tem um problema ao tentar explicar a relação existente entre o aprendiz e o conhecimento. Se o aprendiz está em contato direto com a realidade, pelo pensamento ou percepção, não há possibilidade de erro.  Se não está (sua percepção se faz por intermédio do pensamento), não é possível assegurar-se sobre o que ele sabe; nem mesmo se há algo a ser conhecido (fora do aprendiz).

Segundo a filosofia pós-crítica; o problema se resolve ao consideraros aprendiz e conhecimento como dois pólos mutuamente interdependentes, de um único e abrangente contexto. Outro  problema; é o  das “outras mentes”. Como é possível a comunicação entre seres humanos?  Como sabemos que o outro existe? Na filosofia crítica, aprendiz e conhecimento são duas entidades autônomas, e por isto o ceticismo desponta. Este problema existe tanto em relação a objetos e eventos, como também em relação a outros seres vivos, inclusive o homem. Para a filosofia pós-crítica; isto é um problema apenas na medida em as pessoas foram definidas como entidades isoladas, autocontidas.

A solução é considerá-las como constituídas uma da outra, no sentido em que o mundo é experienciado “de dentro” e de acordo com uma visão humana, centrada na pessoa. O conhecimento do outro não surge em função da evidência (perceptual e/ou lógica), como Robinson Crusoes solitários. Nosso conhecimento do mundo e das outras pessoas resulta do caráter relacional da nossa experiência.  Existimos tendo a intersubjetividade como leito pétreo da realidade, sendo ela logicamente, a primeira em relação aos outros aspectos e elementos da experiência. “O conhecimento aflora da relação”.

Outra maneira de analisar o problema da experiência, é considerá-la do ponto de vista da relação entre  dimensões. Na visão ocidental tradicional existem  duas dimensões; a da aparência e a da  essência, esta transcendendo aquela e ambas de certa maneira opondo-se espacial e temporalmente. As duas, nesta visão, são igualmente permanentes e exigentes de atenção. Já a visão oriental, entende a dimensão da aparência colapsada na da essência (eterno), traduzindo uma percepção basicamente monística da realidade. O problema de ambas as visões, é explicar de que forma acontece a relação entre estas dimensões na vida diária e una do ser humano. A resposta da filosofia pós-critica, é que os vários níveis da experiência estão todos ligados entre si, e todos experimentados simultaneamente pelo indivíduo. “A experiência humana existe no vórtex de muitas dimensões interseccionantes, não no limite entre dois domínios autocontidos”.

Conseqüência do conceito acima é a necessidade de se estabelecer uma hierarquia ontológica entre as dimensões. As nuances da experiência humana resultam não de níveis estratificados, mas de uma hierarquia mais complexa. Dentre os diferentes níveis da experiência, alguns são mais ricos do que outros, no sentido de serem mais complexos, estruturados e abrangentes.

Em uma relação mediada a dimensão mais rica é experienciada dentro e através de uma dimensão menos rica.  Assim, uma hierarquia ontológica pode ser construída iniciando-se pela dimensão física ou material da experiência; menos complexa. Prosseguindo-se para níveis mais ricos, temos a dimensão social, moral ou estética. Finalmente, no ápice temos a dimensão religiosa como a mais rica e abrangente de todas.

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