CONHECER é RELACIONAL – A experiência na perspectiva pós-crítica


Conhecer como dançaNa semana passada apresentamos a a dança como uma metáfora para compreender o processo de conhecer. Esta imagem é derivada inicialmente de alguns comentários no prefácio do maior trabalho de Merleau-Ponty que é o livro Fenomenologia da Percepção. Ao discriminar o seu enfoque, ele sugere que em vez de tentar arranhar a realidade diretamente como no empirismo, ou desesperar por jamais poder fazê-lo como no racionalismo; deveríamos “afrouxar as amarras intencionais que nos prendem ao mundo, de modo à colocá-las em foco”.

Ele reconhece, portanto o caráter mediador ou indireto do processo de conhecer. Assim, do mesmo passo que evita a arrogância do objetivismo, afirma a realidade do conhecimento sem cair, entretanto no ceticismo do subjetivismo. A imagem de afrouxar as amarras intencionais pelas quais estamos interconectadas ao mundo, sugere a metáfora da dança como uma forma de retratar o relacionamento entre o aprendiz e o conhecimento.

Tradicionalmente, os dois modelos de experiência dentro do pensamento ocidental baseiam-se no empirismo e no racionalismo. Empirismo tende a ser reducionista e o racionalismo pende em direção ao dualismo. Ambos conduzem a dificuldades, que resultam de um impasse entre fato e valor, entre os aspectos objetivos e subjetivos da experiência humana.

O reducionismo empirista trata a experiência muito atomizadamente e ignora suas características intencionais ou direcionais. Há, entretanto um problema ainda mais relevante, que o impede de tornar-se uma descrição real da estrutura da realidade. Os objetos e eventos da vida real são percebidos como formas, cores, pesos e etc. Para que estas sensações possam ser percebidas como uma unidade, uma cadeira, por exemplo, o empirismo lança mão do conceito de “associação sensorial”. Os dados provenientes das sensações vem associados ou “empacotados” em determinados padrões. Assim, construímos ou inferimos entidades percebidas pelas sensações, por meio destes padrões de associação.

O que se critica, portanto é que, como estes padrões não são em si mesmos sensoriais ou empíricos, e é a unidade da experiência que o empirismo se propõe a explicar; ao fazê-lo tem um pressuposto não empírico. Portanto, o problema desta explicação da unidade da experiência, é que ela pressupõe exatamente o que se espera dela explicar. Isto é, necessita de um pressuposto não empírico (padrões de associação) para explicar a percepção das coisas que deveria ser (para o empirismo) puramente empírico (baseado apenas na percepção pura dos sentidos).

O dualismo racionalista, por outro lado superestima o aspecto intelectual da experiência humana. Ao definir o conhecimento como função exclusiva dos poderes e categorias da mente humana, termina enfatizando a interpretação em detrimento da percepção. O principal problema aqui é como explicar a falta ou a busca do conhecimento, pois se o conhecimento é meramente o resultado do trabalho mental, não deveria haver insuficiência do saber. Ignorância e descoberta, para não dizer nada do erro, são eventos contra os quais se choca a visão excessivamente intelectualizada da experiência humana. Se a realidade vivenciada é primariamente resultado do trabalho da mente humana, nossas assertivas sobre o conhecimento deveriam ser perfeitas. Como não o são, algo deve estar faltando.

A filosofia pós-crítica freqüentemente toma o caráter constitutivo de incorporação como centro de desenvolvimento da compreensão integradora da experiência humana. Nossos corpos são os únicos objetos do universo que não podemos mover para longe. Nossos corpos são como ligação pela qual nós interagimos com e interferimos no mundo. Isto é; em relação à experiência, a filosofia pós-crítica propõe que em vez de observá-la “de fora”, deve-se fazê-lo através da relação, é importante “soltar as amarras que nos prendem à realidade” para poder compreendê-la.

Assim; um primeiro aspecto, é que o mundo é vivenciado em relação a, com e através do nosso ativo engajamento nele. Isto é o que os fenomenologistas chamam de intencionalidade. Toda atividade humana é direcional. Fazemos o que fazemos, por termos um objetivo; um objetivo em relação a algo. A experiência é vivenciada “de dentro” da relação. Não é função seja da percepção pura, seja da razão. Surge da nossa relação com o mundo, onde o meio, a percepção e a razão interagem. Neste sentido, a experiência é vetorial – perpassa as dimensões da consciência e da ação. Por isto a realidade é simultaneamente dependente e independente de nossas capacidades intelectuais.

Outra maneira de responder à visão tradicional é considerar a relação entre o todo e as partes. Nossa experiência do mundo, se faz vivenciado-o como totalidades significativas; uma cadeira, um conceito, uma emoção. Compreender, entretanto, pressupõe alguma forma de análise, e é claro que ela permite identificar as partes, mas apenas como referentes ao todo.

A análise, portanto é logicamente dependente da experiência totalizante primária. Apesar disto, é necessária a exposição primária às partes compreendendo o todo, para só após perceber-lo. No entanto, a distância entre a percepção do particular e a compreensão do todo, não se faz por mais exposição (empirismo) ou pelos poderes da mente (racionalismo). Faz-se pela interação entre o aprendiz e a realidade. Assim qualquer forma de atomização é uma abstração

Bem . por hoje é só. Na próxima semana continuarei apresentando as idéias de Gill, agora explorando as relações entre a consciência do corpo e sua relação com a experiência. Ou seja, conhecer é relacional e é por meio do corpo que conhecemos. Até lá!

Referencia: Gill, Jerry H.: Learning to Learn:Toward a Philosophy of Education (cap 2), – Ed.:Humanities Press Internacional, Inc., Atlantic Highlands, New Jersey, pp 39-42, 1993.

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