Gardner e a Inteligência Musical (Parte 2)


Resumo de Gardner, H.: Inteligência Musical, logo_da_Inteligencia_musicalpp 78-99, in Gardner, H.:Estruturas da Mente:

A Teoria das Inteligências Múltiplas, Porto Alegre, Editora Artes Médicas Sul, 1994.

 Introdução

Na semana passada apresentamos a primeira parte deste tema. Hoje prosseguimos buscando respostas para a dúvida se a a música qualifica-se como uma competência autônoma. Como dissemos no post anterior, ao ver de Gardner, isso depende do grau em que esta responda positivamente aos critérios definidores de uma inteligência.  Em busca destas respostas, continuaremos  então descrevendo neste post:

  • organização cerebral que possibilita a conquista musical, e finalmente,
  • maneiras pelas quais a inteligência musical interagiu e pode interagir com outras competências intelectuais humanas.

    Na próxima semana trataremos de algumas aplicações práticas do conhecimento sobre esta inteligência.

    Facetas Evolutivas e Neurológicas da Música

    A Evolução

    Sabe-se pouco sobre as origens evolutivas da música. Suspeita-se que a comunicação linguística e musical, nos seus primórdios eram uma única, separando-se faz longo tempo em um passado que se situa entre algumas centenas de milhares e um milhão da anos atrás.

Ao estudar a ontogênese da música, há um aspecto que pode ser de grande valia: o canto dos pássaros. Neste domínio os paralelos com a música humana são difíceis de ignorar (*).   Observa-se por exemplo, como em humanos,  a variedade de cantos e ainda notável interpenetração de fatores hereditários e ambientais. Outra similaridade é que há também uma via prescrita para o seu desenvolvimento. Assim como bebês iniciam com balbucios, podendo atingir em idades mais elevadas expressões musicais mais refinadas, há também em pássaros história desenvolvimental semelhante. Iniciam com um sub-canto que se desenvolve em um canto plástico para finalmente atingir o(s) canto(s) desenvolvido da espécie.

Observa-se que o canto dos pássaros possui expressão neurológica bem definida. É fortemente lateralizada; lesões no hemisfério esquerdo destroem o canto enquanto que o mesmo ocorrendo no hemisfério direito provocam efeito muito menor. Ainda mais, é possível diferenciar neurologicamente diferentes indivíduos de uma mesma espécie, conforme seu maior o menor estoque de cantos. Da mesma forma, este estoque varia conforme as estações do ano, sendo possível relacionar estas variações com a expansão ou retração de certos núcleos cerebrais.

Neurologia humana

Há uma concordância geral de que os setores e processos cerebrais responsáveis pela música não se superpõem aos da linguagem. Os mecanismos de percepção sonora da linguagem são diferentes daqueles responsáveis pela percepção e arquivamento do tom musical. Outro exemplo, é que em experimentos a memorização de sequências sonoras é grandemente afetada quando  outros sons são usados para interferir na memória. No entanto o mesmo não ocorre quando com o mesmo objetivo se utilizam vários estímulos verbais, sugerindo a independência dos circuitos sonoro-linguísticos dos musicais.

Lesões cerebrais específicas indicam o mesmo. Pode-se sofrer afasias significativas sem que haja prejuízo musical expressivo. Observa-se também o oposto, incapacidades musicais relevantes sem que a competência linguística seja afetada. É possível hoje localizar a linguagem no hemisfério esquerdo de indivíduos destros normais enquanto que a música está situada no direito.

Muito embora tais achados falem de lateralização bem definida das capacidades musicais, o treinamento parece afetar de forma significativa esta distribuição. Os dados obtidos não são universais nem definitivos. No entanto músicos, em algumas circunstâncias comportam-se de forma diferente, apresentando participação crescente do hemisfério esquerdo em detrimento das funções do hemisfério direito, habitualmente observadas em pessoas sem treinamento musical. Aparentemente a educação musical torna o músico um usuário mais intenso do hemisfério esquerdo que o novato.

Neste sentido, tem-se observado a grande variedade de representações neurais da capacidade musical. Isto parece ser devido a dois fatores. O primeiro é a igualmente grande variedade de tipos e graus de habilidade musical presentes na espécie humana. Se assim é a expressão musical, é razoável esperar correspondente estrutura e funcionamento cerebral. Em segundo lugar, é também muito grande a variedade de canais por meio dos quais as pessoas podem ter contato com a música. Assim cantar, tocar instrumentos com a mão ou boca, ouvir música, ver danças, entre outras promovem (ou se tornam possíveis devido à estruturas neurais) uma tal variedade de canais perceptivos que devem estimular o desenvolvimento também variado dos substratos cerebrais.

Talentos incomuns

Outro critério definido por Gardner para a aceitação de uma inteligência é a existência de exemplos de expressões superdesenvolvidas da inteligência candidata, de preferência em isolamento relativo à outras candidatas.

Aqui é possível encontra dois tipos de exemplos; alterações mentais e os gênios. No primeiro caso, a literatura os apresenta em grande número. Às vezes são crianças (em geral) que ao par de capacidades intelectuais muito limitadas apresentam desempenhos musicais surpreendentes. Tais desempenhos são variados. Podem incluir repetições precisas de melodias completas escutados uma única vez, completar corretamente sequências musicais incompletas, memória musical prodigiosa ou ainda a capacidade de tocar de “ouvido” melodias familiares em grande número de instrumentos.

Outro tipo de talento incomum é o encontrado nos gênios musicais, nos quais se observa um padrão típico de surgimento precoce e desenvolvimento padrão seguido de treinamento continuado, já descrito em post anterior. Cabe aqui enfatizar que este esquema de desenvolvimento foi descrito para sociedade ocidental, principalmente a européia.O mesmo não é necessariamente verdadeiro para outras culturas. No entanto, estudos multiculturais mostram relativa uniformidade na importância atribuída à música. O que se observa de variabilidade é nas características valorizadas. Em alguns casos é o respeito aos padrões tradicionais, restringindo-se a   liberdade individual. Em outros a memória musical, a participação coletiva ou ainda a execução musical visualmente atraente.

Relação com outras competências intelectuais:

A música é uma competência intelectual separada, que não depende de objetos físicos no mundo. Por isto a destreza musical pode ser elaborada até um grau considerável simplesmente através da exploração e do aproveitamento do canal oral-auditivo. A música relaciona-se de uma variedade de modos à gama dos sistemas simbólicos humanos e suas competências intelectuais.

Alguns compositores enfatizaram as ligações existentes entre a música e a linguagem gestual. A própria música é melhor pensada como um gesto expandido, que é pensado pelo menos implicitamente,com o corpo. A música deve ser vista para ser assimilada; no balé, na interpretação corporal no canto, muitos dos métodos mais eficazes de ensino musical tentam integrar voz, mão e corpo.

As ligações da música com a inteligência espacial são mais indiretas mas não menos genuínas. Por exemplo, a localização das capacidades musicais no hemisfério direito sugere esta ligação. Lauren Harris refere-se às poderosas capacidades espaciais das quais compositores dependem para estabelecer, apreciar e revisar o complexo arquitetônico de uma composição.

Em relação ao desempenho musical e a vida sentimental das pessoas, a música pode servir como um meio de captar sentimentos, conhecimento sobre sentimentos ou conhecimento sobre as formas de sentimento, comunicando-os do intérprete ou criador para o ouvinte atento. Sabe-se pouco sobre aspectos neurológicos relacionados a esta área. Mas parece que a competência musical não depende de mecanismos analíticos corticais apenas, mas também de estruturas subcorticais consideradas centrais ao sentimento e à motivação.

A inteligência musical apresenta sua própria trajetória de desenvolvimento bem como sua própria representação neurológica,a fim de que não seja engolida pelas mandíbulas onívoras da linguagem humana. De acordo com alguns investigadores nem todos os aspectos semânticos da linguagem são diretamente análogos a música.

As ligações entre música e matemática atraíram a imaginação de indivíduos reflexivos. O estudo cuidadoso da música partilhou muitas características com a prática da matemática tais como um interesse em proporções, proporções espaciais, padrões recorrentes e outra séries detectáveis. Assim para apreciar a função dos ritmos no trabalho musical o indivíduo deve ter alguma competência numérica básica.

Stravinsky afirma que “música e matemática não são semelhantes”. O matemático G.H Hardy tinha estas diferenças em mente quando dizia que a música pode estimular as emoções, acelerar o pulso, curar a maldição da asma, induzir epilepsia ou acalmar um bebê. Os padrões formais que são a raison d’être do matemático são, para os músicos um ingrediente útil porém não essencial para os propósitos expressivos para suas capacidades.

(*) Lembrar que um dos critérios propostos por Gardner para identificar uma inteligência é exatamente a possibilidade de sua localização cerebral.

   

 Anterior       ⇔        Proximo            

Você tem alguma dúvida ou pergunta?

Deixe sua questão no campo de comentários !

Anúncios

2 thoughts on “Gardner e a Inteligência Musical (Parte 2)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s