Os oito critérios de uma Inteligência para Howard Gardner (Parte 2)


multiplas-inteligencias-howard-gardner-capaNa semana passada  definimos os pré-requisitos e os oito critérios para caracterizar uma inteligência segundo Gardner. Hoje vamos descrever estes critérios em maior detalhe.

Isolamento potencial por dano cerebral

Gardner afirma que as pessoas têm inteligências múltiplas porque elas tem nódulos neurais múltiplos, cada qual com seu modo de operar específico e sistemas de memória próprios. Se isto é verdade, então um dano cerebral específico poderia anular uma dada inteligência sem afetar significantemente as outras. E isto parece ser verdadeiro, já que existe aphasia sem amusia. Isto é; músicos com danos cerebrais que dificultam a fala podem manter intacta sua capacidade de tocar (Hodges, 1996; Sergent, 1993). Isto nos dá conta que as inteligências existem em (ou fazem uso de) regiões específicas do cérebro.

Existência de idiots savants, prodígios e outros indivíduos excepcionais

De outra forma, estes casos nos mostram também a autonomia das inteligências. Aqui podemos observar uma dada inteligência em sua forma “pura” e hiper desenvolvida, sem que o mesmo aconteça com as outras. Se no caso anterior, a inteligência era isoladamente lesada, aqui ela se apresenta em alto nível. Por exemplo, Mozart podia escrever música antes mesmo que tivesse aprendido a escrever. As inteligências podem mesmo existir em isolamento. Por exemplo como se dá em alguns autistas e de forma muito florida nos “idiots savants” (sábios idiotas); pessoas com deficiência mental grave que apesar disto mostram desempenho excepcional em áreas específicas como desenho, música, memorização, cálculo e etc.

Operação central ou conjunto de operações identificáveis

Demonstrado que a inteligência se apresenta no cérebro de forma autônoma, falta apresentar sua característica de funcionamento que lhe é específica, discriminando-a de outros tipos de inteligência. Esta operação central seria “um mecanismo neural ou sistema computacional geneticamente programado para ser ativado ou “disparado” por determinados tipos de informação interna ou externamente apresentados” (Gardner, 1994). São exemplos de operações centrais nas diferentes inteligências:

  • Linguística: Sensibilidade para a língua falada e escrita. Habilidade para aprender línguas. Capacidade de usar a linguagem para atingir certos objetivos.
  • Lógico Matemática: Capacidade de analisar problemas com lógica, realizar operações matemáticas e investigar questões cientificamente.
  • Visual-Espacial: Potencial de reconhecer e manipular padrões do espaço.
  • Musical: Habilidade na atuação, composição e apreciação de padrões musicais.
  • Corpóreo-Cinestésica: Potencial para usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos.
  • Interpessoal: Capacidade de entender as intenções, motivações e desejos do próximo. Também de trabalhar eficientemente com terceiros.
  • Intrapessoal: Capacidade de se conhecer – desejos, medos e capacidades – e de usar estas informações com eficiência para regular a própria vida

História do desenvolvimento característica aliada a um conjunto definível de desempenhos “ acabados”

Mais que isto, em defesa de uma dada inteligência , deve ser possível traçar sua história evolutiva durante o desenvolvimento humano. Isto é, demonstrar que do nascimento á maturidade, uma dada habilidade não só esteve presente como se tornou progressivamente mais sofisticada até desembocar no seu mais alto nível.

Isto implica que é  necessário definir um certo padrão de desenvolvimento. Isto quer dizer que é possível descrever uma gradação na expressão de uma dada inteligência; desde seus níveis mais rudimentares aos mais avançados. Por exemplo, a linguagem falada desenvolve-se rapidamente em altos níveis de sofisticação nas pessoas normais adequadamente instruídas. Em contraste, muito embora todos os indivíduos normais desenvolvam alguma capacidade matemática, observa-se pouco progresso na compreensão da matemática avançada mesmo em condições de escolaridade formal (Torff & Gardner, 1999).

Identificar esta história desenvolvimental e analisar a sua suscetibilidade à modificação e treinamento, é muito importante para profissionais da educação. Os resultados deste estudo tem aplicação direta na área.

História e Plausibilidade Evolutiva

A ideia aqui é que se alguma coisa pode ser caracterizado como inteligência ela não deve ter se desenvolvido do nada. Algo dela pode ser traçado na história da humanidade e mesmo na evolução das espécies.

Por exemplo, traços da inteligência musical, linguística e corpóreo-cinestésica podem ser identificados na comunicação animal. Assim é que pássaros e golfinhos fazem muito uso do som em suas atividades. Rituais de acasalamento, posturas de ameaça ou submissão são situações em que o corpo “fala”. Macacos apresentam comportamentos sociais similares aos da espécie humana.

No que se refere à espécie humana, é necessário ser possível identificar períodos de rápido crescimento na pré-história cujas características estimularam ou inibiram o desenvolvimento de uma dada inteligência.

Apoio de tarefas psicológicas experimentais

Métodos oriundos da psicologia experimental podem  esclarecer o funcionamento de uma dada inteligência candidata. Por exemplo a análise fatorial mostra a existência de dois grandes grupos de fatores: o verbal e o espacial (Torff & Gardner, 1999). Assim o psicólogo cognitivo, fazendo uso do seu instrumental poderia investigar relativamente a uma dada inteligência:

  • Detalhes do seu funcionamento.
  • Autonomia ou interdependência relativa.
  • Formas de memória peculiares a um dado estímulo.
  • Maneiras como pode interagir com outras na execução de tarefas complexas.

Apoio de achados psicométricos

Achados de testes de inteligência podem fornecer informação adicional, de dua maneiras. Uma,  na medida em que diferentes tarefas que investiguem uma inteligência específica apresentem resultados fortemente correlatos. A outra no sentido oposto, quando não houver correlação entre resultados que investiguem tipos diferentes de inteligência.

No entanto, para Gardner este critério é dos mais criticáveis. Isto porque, em geral os testes psicométricos, na sua essência,  não se harmonizam com as proposições da teoria das inteligências múltiplas.

Assim é que determinadas tarefas exigidas nestes testes envolvem o uso combinado de mais de uma única competência. Em outros casos uma mesma tarefa pode ser resolvida por diferentes competências. Por exemplo, a resolução de algumas analogias ou  matrizes podem ser resolvidas por diferentes meios usando capacidades linguísticas, lógicas ou espaciais. Por isto é particularmente difícil para estes testes alegar que estas ou aquelas inteligências se relacionam ou não entre si. Aspecto adicional é que tais testes são frequentemente realizados de forma escrita, o que exclui do seu universo de observação capacidades que exigem habilidade física ou interação.

Suscetibilidade à codificação em um sistema simbólico

A linguagem, o desenho e a matemática são apenas três dos sistemas de símbolos que se tornaram importantes para a espécie humana. Símbolos são formas que permitem ao homem a transcendência. Isto é, permitem que o ser humano ultrapasse limites.

Por exemplo, vejo ao longe e atrás de uma casa, uma coluna de fumaça. Com isto  e concluo que há fogo, lá onde não estou e não posso ver. Assim, ao ver a fumaça, me foi  possível ultrapassar os limites do espaço.

Abro o jornal pela manhã e leio as notícias do dia anterior. Aqui os símbolos por meio dos quais a linguagem escrita se expressa me permitiram ultrapassar o limite do tempo. Isto é,  hoje atualizo para mim o que aconteceu ontem.

Ando na rua e vejo um ser humano trajando uma batina. Identifico-o como um padre e imediatamente vem-me à mente vários aspectos religiosos que aquela pessoa simboliza pela maneira como se veste. Neste sentido, sem nem mesmo falar com êle, já o conheço pelo menos em parte. Desta maneira o símbolo, neste caso a batina, me permitiu ultrapassar o limite do outro. Só nós podemos sabemos o que somos, assim como os outros podem saber quem são. No entanto, os símbolos expressos na maneira com que nos vestimos  ou agimos nos permitem conhecer o outro e nos darmos ao conhecimento dele.

Por isto,  sistemas simbólicos são muito importantes para a sociedade e para o desenvolvimento humano. Se uma dada inteligência existe, então pode-se pensar de duas maneiras. Por um lado, é possível supor que ela existe porque houve durante a evolução humana desenvolvimento de sistemas neurais suscetíveis à sistemas de símbolo específicos. Desta forma este substrato neural teria permitido a exploração pela espécie humana destes símbolos pré-existentes. Na perspectiva inversa, podemos pensar que os símbolos só puderam se desenvolver dada a existência prévia do sistema neural.

Independentemente de qual seja a precedência, neurológica ou simbólica, o resultado final é o mesmo – demonstrar a importância para o homem da possibilidade de uma dada inteligência ser codificada em um sistema simbólico. E por isto tudo, esta capacidade é considerada por Gardner como um critério final para sua caracterização como inteligência.

Referências

  1. Gardner’s Multiple Intelligences: http://wilderdom.com/personality/L2-4GardenerMultipleIntelligences.html#Signs acessado em 20/06/2009
  2. T. Steuart Watson, & Christopher H. Skinner (Orgs.). (2004). Gardner´s Theory of Multiple Inteliligences. In Encyclopedia of School Psychology (1° ed., pp. 136-7). Birkhäuser. Recuperado Junho 20, 2009, de http://books.google.com.br/books?id=cc5XiMm8qzgC&pg=PA136&lpg=PA136&dq=gardner+%2B+intelligence+signs&source=bl&ots=MlkH6oBoCk&sig=G91bDOQZZ2gi5gYvBW7xDasNj84&hl=pt-BR&ei=KQc9St72BpOqtgfj5IkZ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=3.
  3. Gardner, H. : Estruturas da mente – A Teoria das inteligências Múltiplas, Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 1994.

                                                                                                                               

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