Inteligência, Teorias e Reificação


 

1iau4tiwi2twheefeoymjhwNa semana passada ( O que é inteligência? – O problema da definição. ) vimos com é difícil definir clara e precisamente o que é inteligência. Vimos também como as definições variam conforme o pesquisador, seus métodos,e a cultura onde vive. Por isto é comum considerar que as definições só fazem sentido dentro do que chamamos de “Teorias sobre a inteligência”.

Assim, antes de aceitarmos uma dada definição, cabe analisar a teoria da qual esta definição é derivada. Por isto dedicaremos o post de hoje à apresentar dois conceitos: Teoria e Reificação.

Mas antes de começar, um aviso. O que vou explicar é uma simplificação dos conceitos e serve apenas para introduzir uma Teoria sobre a inteligência. Por isto o está abaixo é sintético e em alguns momentos pouco preciso, mas é bastante adequado para os fins desta apresentação.

O que é uma teoria?

Vejamos a definição de Goldenberg (1988):

É um conjunto de princípios e definições que servem para dar organização lógica a aspectos selecionados da realidade empírica…

Comecemos pelo final; a definição nos fala de “aspectos selecionados da realidade empírica…”. Ou seja; fatos. Um fato é aquilo que é observável e mensurável. É objetivo no sentido de que é externo ao pesquisador. Preocupamo-nos sim com fatos, mas não com qualquer um. Dentre todos os possíveis, só selecionamos aqueles que por esta ou aquela razão são mais úteis para nós.

Mas qual a utilidade?

Por exemplo, podermos compreender e/ou se beneficiar de alguma situação ou coisa. Assim uma “teoria sobre a chuva” buscaria na natureza aspectos que nos ajudassem a compreender a dinâmica do clima de modo a leva-lo em conta em nossas atividades diárias.

Mas ocorre que os fatos são muitos e variados. Não ocorrem segundo o desejo do pesquisador, mas de acordo com a sua natureza específica. Do jeito que acontecem naturalmente eles são inteligíveis. É necessário portanto um esforço  de nossa parte para poder compreendê-los. Por isto é que a definição aponta para a necessidade de “dar organização lógica…”. E isto significa que os diferentes fatos são unidos entre si por meio de ligações e relações lógicas. Cabe enfatizar aqui que começamos então a sair do mundo concreto dos fatos para um nível mais abstrato – o das relações lógicas entre fatos.

Mas como se fazem estas ligações?

Por meio do “…conjunto de princípios e definições…”, ou seja, proposições abstratas que permitem ligar um fato a outro. Notem portanto que este “…conjunto de princípios e definições…” é algo que é construído. Isto é; alguém, em algum momento, pensou e produziu a teoria. Chamo a atenção para isto, porque quero enfatizar o caráter de construção da teoria. Mais que isto, quero discriminar o que é um teoria do que é um fato.  Como vimos, o fato é objetivo. Já a teoria é subjetiva. muito mais que os fatos, a teoria depende do raciocínio, vivência e estudo do pesquisador. Claro que ela faz uso de fatos, mas estes são apenas uma parte do todo.

Assim sendo posso agora falar das teorias como construções abstratas, feitas por seres humanos, que buscam uma interação com o meio mais adequada. Por isto, é prudente encararmos as teorias como o que são- ferramentas muito importantes para a nossa sobrevivência. Elas não são uma descrição do que é, mas sim um modelo do que poderia ser.

Sabendo disto podemos agora passar para o segundo tópico de hoje – a Reificação – erro que cometemos quando esquecemos que teorias são modelos e não a realidade em si.

O que é a Reificação?

Uma excelente definição é a de Fredric Litto (2002):

O erro de tratar um conceito abstrato (por exemplo, “Liberdade”, “Justiça” ou “Progresso”) como um ente real e concreto, como uma “coisa”.

Assim por exemplo: “O Brasil se tornará uma grande potência porque esse é o seu destino. O país caminha prometido ao sucesso”.

Aqui “ o locutor está designando algo chamado “destino” como a causa de algum acontecimento. Mas, tudo o que sucede a nós ou ao país é obra do destino? Se isso é verdade, então “destino” parece ser um conceito determinista que se aproveita de um sofisma a partir do conceito de potência. Que ente misterioso vem a ser o destino, que seria capaz de grandes e significantes eventos? A Segunda enunciação mostra também a falácia de circularidade, isto é, de arguir “em círculo”, tautologicamente, sem provas para substanciar as afirmações.”

E o que isto tudo tem a ver com inteligência, o tema deste post?

Bem já mostramos que as teorias são modelos. Assim “teorias sobre a inteligência” são modelos sobre a inteligência e não descrições da inteligência. E isto nos leva ao terceiro e último tópico de hoje.

A Reificação e a Teoria das Inteligências Múltiplas

Howard Gardner, pesquisador em Harvard, publicou em 1983. o livro “Estruturas da Mente – Teoria das Inteligências Múltiplasimage onde defendia a existência de sete tipos de inteligência, ao contrário do que advogavam vários pesquisadores da época. De lá para cá mais duas inteligências forma propostas, e o pesquisador tem também trabalhado em outras vertentes no estudo da mente.

No entanto o trecho que cito abaixo é particularmente atual. Ainda mais quando é criticado quanto ao caráter “positivista” de sua teoria. É também importante, do ponto de vista deste blog, porque em posts futuros apresentaremos alguns aspectos de sua teoria. Assim:

“Um ponto final crucial antes de voltar-me para as inteligências em si. Há uma tentação humana universal de dar crédito a uma palavra à qual nos tornamos apegados, talvez porque nos ajudou a entender melhor uma situação. Conforme observei no início deste livro, inteligência é uma destas palavras; nós a usamos com tanta freqüência que viemos a acreditar em sua existência como uma entidade mensurável e tangível genuína ao invés de como uma maneira conveniente para rotular alguns fenômenos que podem (mas é bem possível que possam não) existir.
Este risco de reificação é grave num trabalho de exposição, especialmente em um trabalho que tenta apresentar conceitos científicos novos. Eu e leitores simpatizantes tenderemos a pensar — e a cair no hábito de dizer — que aqui observamos a “inteligência linguística”, a “inteligência pessoal” ou “a inteligência espacial” em funcionamento, e isto é tudo. Mas não é. Estas inteligências são ficções — no máximo, ficções úteis — para discutir processos e capacidades que (como tudo na vida) são contínuos; a natureza não tolera qualquer descontinuidade aguda do tipo aqui proposto. Nossas inteligências estão sendo separadamente definidas e descritas estritamente para esclarecer questões científicas e fazer frente a problemas práticos prementes. E permissível incidir no pecado da reificação, contanto que permaneçamos conscientes de que isto é o que estamos fazendo. Então, quando voltamos nossa atenção para as inteligências específicas, devo repetir que elas existem não como entidades fisicamente verificáveis, mas apenas como construtos científicos potencialmente úteis.”


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