O que é inteligência? – O problema da definição.


Inteligência é um daqueles termos que todo mundo sabe o que é, mas que engasga na hora em que é solicitado a defini-los. Uma resposta padrão ´a qeu toma a seguinte forma: “-  Inteligência é quando…..”. Segue-se daí um conjuto variado de situações ou eventos onde uma dada pessoa se comportou de forma inteligente. O problema disto é que não se está produzindo uma definição, não se diz o que é. O que se faz é produzir exemplos, ou seja expressões objetivas daquilo sobre o qual não se definiu.

O problema da circularidade:

Mas notem que isto não é um problema apenas do leigo. Pesquisadores, mesmo que de forma mais sofisticada, seguem padrão semelhante. Listam um conjunto de critérios para determinar a existência da inteligência e a partir daí, a definem como o compartamento que se incleu nestes critérios. Por exemplo:

  • Poderia dizer que inteligente é o indivíduo que é capaz de entender com facilidade textos difíceis. Este é o meu critério de comportamento inteligente.
  • Sendo assim defino inteligência como a capacidade de compreensão de textos escritos.
  • E portanto a minha definição é circular, ou seja, inteligência é a capacidade de apresentar um comportamento inteligente.

Fiz acima uma simplificação grosseira do que existe, mas isto dá um idéia da dificuldade que é responder à pergunta do título. Ao final das contas a definição de inteligência varia conforme a pessoa que fala.

Por exemplo vejamos o que nos diz a Encyclopaedia Britannica do Brasil :

“ …conjunto de aptidões em função das quais os indivíduos aprendem mais rapidamente novas informações e se revelam mais eficientes no manejo e aproveitamento adequado de conhecimentos já armazenados por meio de aprendizados anteriores.”

É, dentro de certos limites. uma definição fácil de se aceitar. E isto, em parte porque ecoa o senso comum. Aprender rápidamente e manejar com eficiência o conhecimento aprendido é sinal de inteligência. Mas se olharmos com cuidado esta definição, poderemos perceber que ela oculta mais do que revela.

Assim é que “aprender com facilidade e ser eficiente no manejo do conhecimento”  não é uma definição, mas um comportamento. Isto não nos diz o que é a inteligência, e sim o que faz alguém que a possui.

E portanto o que nos resta, é a outra parte da definição – “…conjunto de aptidões em função das quais…” . Ou seja, o que a enciclopédia nos diz é a inteligência é um conjunto de aptidões em funçao do qual podemos apresentar um comportamento inteligente. Ficou clara a circularidade desta definição?

E ainda mais; o que é aptidão? o dicionário Houaiss nos responde:

qualidade, atributo do que é apto
1 disposição inata ou adquirida (para determinada coisa)
2 série de requisitos necessários ao exercício de determinada atividade, função etc.

E portanto com esta definição posso reescrever a definição acima como: “Inteligência é o que me permite agir de forma inteligente.”

Bem, você poderia argumentar que estamos trabalhando com uma definição simplificada, mas que conceitos oriundos de pesquisadores poderiam ser mais esclarecedores.

O problema dos pressupostos:

Vamos então apresentar algumas definições mais “eruditas”, ou mais “científicas”.

Spearman (1863-1945)
“capacidade de fazer deduções a partir de relações e correlações”

 

Há aqui, um avanço. Não se nota circularidade, descreve-se o que é “capacidade de deduzir”. Outro aspecto positivo é que com esta definição é possível identificar e/ou medir a inteligência. basta que se criem testes onde o indivíduo seja solicitado á fazer deduções.

Hoje em dia mesmo, “raciocínio lógico” virou disciplina, já que em concursos públicos há nas provas, pelo menos algumas questões que que testaqm esta capacidade. Ora, se aceitamos esta definição, então deduz-se que inteligência é “raciocínio lógico” e se este pode ser ensinado então podemos ensinar as pessoas a serem inteligentes. Afirmamos portanto (também por dedução) que a inteligência não é imutável. por isto mesmo as pessoas “burras” podem se tornar inteligentes. E isto é bom para todos os que podem se beneficiar disto.

Puderam perceber o “raciocínio lógico” no parágrafo acima? É muito bom ser capz de fazê-lo, já que a lógica pode frequentemente, revelar verdades às vezes ocultas nas coisas e pessoas.

O problema aqui é que sendo a dedução uma operação lógica, implica-se que a inteligência é uma função lógica apenas. Ou seja o pressuposto de que o que tem valor para a inteligência é a lógica e apenas ela. Não se pode classificar com inteligente um grande músico ou  mesmo um líder carismático já que virtusismo musical ou carisma não podem ser considerados como capacidades lógicas.

Wechsler (1896-1981)
“…capacidade global do indivíduo para atuar de acordo com as finalidades previstas, para pensar racionalmente e atuar de maneira eficaz em relação a seu ambiente…”

Aqui notamos um avanço, ao ultrapassar a restrição à lógica como definidora de inteligência. Sim, falamos em “pensar racionalmente” o que nos dirige para a lógica. Mas falamos também de uma ação dirigida a objetivos e eficaz em relação ao meio. A ampliação do conceito de inteligência é o grande avanço. Inteligência é mais do que apenas bom uso da lógica. É ação inteligente.

Êpa! Olha a circularidade aí de novo. E neste aspecto o problema se refere à definição de inteligência como “capacidade global”. voltamos á questão do “conjunto de aptidões” da primeira definição da enciclopédia.

Mas a noção de interação surge como uma chave para sair desta dificuldade e nos leva ao próximo pesquisador.

Piaget (1896-1980)
“…qualidade que se expressa pela maneira como o indivíduo se adapta ao meio…”

De formação biológica, Piaget fundamenta em Darwin sua noção de inteligência. o pressuposto aqui é que todos os seres vivos, os homens em particular, querem sobreviver. Ora, sendo isto verdade, então aquele que melhor se adapta ao meio
sobrevive melhor sobrevive. Sobreviver mais e melhor é atingir sua finalidade com mais eficiência. Logo os mais eficientes em sobreviver são os mais inteligentes. Ou seja, a”maneira de se adaptar ao meio” é a sua definição de inteligência.

Por isto é que Piaget fala de uma “inteligência em ação” ou “agir inteligente” ao enfatizar que a inteligência não é uma capacidade abstrata de pensar ou raciocinar, mas de agir concretamente em um meio real. É claro que o uso da razão esta aí incluido, mas não se restringe a ela. Implica em colocá-la em ação, mais que isto, ela se expressa na ação.

O problema aqui é que a ênfase recai novamente no comportamento e de novo falamos de inteligência como a capacidade de se comportar inteligentemente. Mas este não foi o interêsse principal de Piaget. Sua preocupação desenvolvimentista, isto é, buscar entender como o ser humano ao crescer, cria regras de relacionamento com o o conhecimento, dai o nome de sua teoria: “Epistemologia Genética”. Neste sentido então Piaget não foi um estudioso da inteligência, mas do aprendizado humano.

Gardner (1999)
“ Potencial biopsicológico para processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura.”

Gardner em sua definição de inteligência parte de outros pressupostos. Um deles é o de que uma definição de inteligência deve ser abrangente e integradora, levando em conta aspectos biológicos, psicológicos e culturais.

Por isto Gardner em sua definição de inteligência:

  • diz o que ela é => Potencial biopsicológico
  • apresenta seu objeto => processar informações
  • dá o contexto onde aflora => cenário cultural
  • apresenta sua finalidade => solucionar problemas ou criar produtos
  • e impõe limites => que sejam valorizados numa cultura

O problema das diferentes dimensões.

Como vimos nos exemplos acima, cada autor “olha” para a inteligência de um ponto de vista particular. Isto é resultado das diferentes dimensões sob as quais a diferença é estudada.

Uma delas é a quem perguntamos. Isto é, as noções de inteligência variam de uma cultura a outra. Algumas valorizam o desempenho acadêmico e outras as habilidades sociais. Por isto as definições podem ou enfatizar a lógica e o raciocínio como no primeiro caso enquanto ou então a diplomacia e a capacidade de escutar no segundo.

Outra dimensão é a dos métodos. Psicometristas tendem a definir inteligência baseados análises estatísticas de variáveis passiveis de mensuração em testes. Antropólogos não costumam testar pessoas, observam-nas em seus ambientes reais, etentam compreender as visões dos grupos que estudam. Por isto suas definições de inteligência tendem a centrar-se nas definições que afloram destes grupos e na competência com que seus membros realizam atividades valorizadas por aquela cultura em particular.

Outra ainda é a do nível de análise. Por exemplo, neurocientistas estudam o cérebro, psicólogos clínicos o indivíduo e antropólogos e sociólogos preocupam-se com o coletivo. Ao debruçar-se sobre o mesmo tema, trarão subsídios diferentes.

Finalmente os valores e crenças moldam também as definições de inteligência. Por exemplo, muitos brasileiros acham que a inteligência é uma caracteristica inata e imutável, daí o conceito de “inteligente” e “burro”. Por outro lado, algumas culturas orientais tendem a responsabilizar o trabalho duro como responsável pelo desempenho intelectual de seus estudantes. Por isto as palavras “dedicado” e “preguiçoso” tem um significado muito específico nestas comunidades.

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Vimos então como é difícil chegar à uma definição única do que seja inteligência. Mais que isto, talvez você tenha percebido que apesar de todos os problemas apontados, nenhuma definição é “errada”. Você pode apontar uma inconsistência aqui ou alí, esta ou aquela incompletude, mas todas se referem corretamente a pelo menos a algum aspecto da inteligência.

Bem, se todas estão “certas” poderíamos pensar que não faria diferença qual definição escolhemos aceitar. Só que não é bem assim. Definições são de certa forma “ferramentas” de trabalho. Uma dada definição nos permite fazer coisas que outra não permite, isto é, umas são mais úteis do que outras. Utilidade não é o único critério de escolha, mas o que queremos fazer é algo que devemos levar em conta ao aceitar uma definição específica.

E isto é tema para outros posts vindouros. Até lá!

Você tem algo a dizer ? Quer ampliar o debate ? Comentários são bem vindos.

Você tem alguma dúvida ou pergunta? Deixe sua questão no campo de comentários !

Até o momento, a série sobre as inteligências múltiplas assim se apresenta:

  1. Gardner e as Inteligências Múltiplas
  2. O que é Psicologia Diferencial?
  3. O que é inteligência? – O problema da definição

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Leia também:

Construtivismo: Piaget – Inteligência e Aprendizagem

Metacognição e Crenças Metacognitivas

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6 pensamentos em “O que é inteligência? – O problema da definição.

  1. Gostaria que você professor Maurício fala-se sobre “(teoria da) inteligência significativa” de David Ausebel, baseando-se também no livro: “Aprendizagem Significativa” de Júlio César Furtado dos Santos da Editora Mediação.

  2. mudei minha opiniao de novo que compllicado cada vez que olho pra um lado a resposta mudam
    porque olho o meu lado e vejo que sou e sempre fui uma pessoa inteligente
    mas meus atos nao foram positivos em relaçao ao que eu penso
    minha intelegencia era maior que meu ato
    a inteligencia e mutavel mas nao diminuida
    *porque achamos que amanha consiguiremos e nao fazemos hoje o que é certo*-Genius

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