O Grito dos Excluidos


NERDEm 2006, a Psicoterapeuta Maria Teresa publicava um ensaio intitulado “A Mediocridade prevalece?!”. Da maneira delicada que lhe é característica, falava de suas preocupações com uma educação e uma sociedade que privilegiava o “normal” e o “mediano”. Pela sua atualidade, publicamos o texto neste blog na semana passada.

Agora em setembro, leio “Preparados para Perder”, artigo de Gustavo Ioschpe na Veja. De outra forma ele retoma o mesmo tema. Fala dos nossos fracassos na Olimpíada e principalmente os resultados ainda piores dos também recentes Jogos Olímpicos Escolares. Nas suas palavras:

As desigualdades que se acentuaram ao longo de governos autoritários parecem ter originado a idéia estapafúrdia de que, em uma democracia, os cidadãos devem ser iguais. Não tratados da mesma maneira: pelo contrário, tratados de maneira desigual, para que no resultado final se estabeleça a igualdade. Como é impossível elevar todos aos píncaros da glória, já que as aptidões individuais são diferentes, o objetivo passa a ser a mediocrização total.

O estilo do texto é algo forte demais para o meu gosto e, se mal interpretado, pode ser entendido como uma crítica à inclusão. Não acho que seja assim, e não acho que o autor seja contra a inclusão social. Do meu lado, acredito que uma sociedade justa deve juntar esforços para ajudar os desvalidos. Deficientes físicos e mentais, hoje denominados de “especiais”, devem ter apoios específicos para que possam atingir suas realizações pessoais e contribuir para a sociedade. Da mesma forma, as pessoas da terceira idade devem receber o carinho e suporte que merecem. Igualmente, os excluídos social e economicamente precisam de medidas que os incluam. Exceto em alguns casos especiais (restrição à liberdade de criminosos, por exemplo), acho QUALQUER forma de exclusão injusta.

Por isto mesmo, hoje escrevo sobre um tipo especial de exclusão.  A discriminação do talento e da competência.  

Na sociedade brasileira, fazer sucesso é ruim. Se o sucesso é público, a pessoa fica sujeita à fofoca e à inveja. Se é econômico, levanta a acusação (por definição) de corrupção ou falcatruas. O rico pode ser roubado sem qualquer problema, já que ele tem muito e o assaltante é pobre.

Foi o que aconteceu faz algum tempo com o Luciano Huck. Assaltado à mão armada e no meio da rua, ficou vivo, mas perdeu o seu Rolex de ouro. E o problema foi este. Os comentários centraram-se no relógio: “- Oh! Um Rolex!. Também o que ele tinha que andar na rua com um relógio deste? É provocação!” De repente o criminoso quase vira uma vítima da arrogância do apresentador.  Justificou-se o crime em função do sucesso do apresentador.

Outro exemplo ? Na novela “A Favorita”, o autor, João Emanuel Carneiro, vem sofrendo muitas críticas por ter inocentado a Donatela e ter transformado a Flora em criminosa. Como ele disse: “A Favorita é uma grande provocação para o folhetim tradicional.” . Fica claro que estas críticas vêm do estereótipo. A rica e perua tem que ser a assassina, já a pobre e sofredora pode ser a injustiçada.

Mas vamos falar de um outro excluído, este quase invisível – o bom aluno, o estudante talentoso e dedicado.

Mas, como assim!? Ele tira notas boas e é elogiado pelos pais e professores! Passa de ano e ganha medalhas! É absurdo considerá-lo excluído!

É? Então vejamos:

Bem, comecemos com o estereótipo. Estes alunos são chamados de “nerds”, termo que é quase um xingamento. Observem a imagem no início deste texto. É algo que desperta simpatia? Afeto? Ou apenas um sorriso condescendente de superioridade, com certo grau de desprezo?  Se sua filha namora um tipo deste você fica meio incomodado, não é? Preferia talvez o tipo alegre, comunicativo, bonito e esportivo. E isto, claro, se você é adulto.

Se é adolescente, o quadro é bem pior. O nerd é o indivíduo que tem uma espécie de doença contagiosa. É anti-social. Alvo fácil para toda e qualquer “brincadeira” humilhante. Dele, melhor é manter distância. Exceto, claro, na hora da prova, quando o nerd vira fonte inesgotável de respostas corretas. Mas a “amizade”  dura apenas os cinqüenta minutos da prova. Logo após, é como na música do Chico Buarque – “joga bosta na Geni…”

Saindo do estereótipo, agora em uma comparação com o aluno de baixo desempenho, o que acontece com ele ?

Na sala de aula, o professor, várias vezes, interrompe a aula para dar novas e diferentes explicações quando o aluno com dificuldades pergunta. O nerd boceja e se desinteressa. Bem, afinal é uma turma e, em geral, há mais alunos “normais” que “nerds”.  Mas vá o nerd fazer uma pergunta (em geral de aprofundamento). A turma inteira o fuzila com o olhar, quando não com piadinhas ou agressões mais abertas.  O professor, às vezes, até responde, mas rapidamente; senão ele “perde” a turma.  Bem, afinal, o bom aluno, porque é bom, pode se virar sozinho. Alguns professores mesmo se dispõem a conversar com ele nos intervalos, mas isto é sempre uma exceção, algo fora da rotina, uma coisa excepcional.

Claro, a escola poderia, talvez, separar as turmas por desempenho. Assim, todos seriam tratados segundo suas características. Aulas para alunos de baixo desempenho poderiam enfocar as dificuldades de aprendizagem, ajudando-os de forma mais eficaz. Aulas para alunos de alto rendimento poderiam aprofundar temas ou abranger maiores extensões de conteúdo e igualmente ajudá-los de forma mais eficaz. Mas não! Seria muita humilhação! Pais e talvez alunos protestassem contra os “privilégios” concedidos aos nerds. Afinal somos todos “iguais” e devemos ser tratados da mesma forma.

A escola oferece aulas de reforço e de revisão para o aluno de notas vermelhas.  Exceto em casos raríssimos, qual escola oferece aulas de aprofundamento, palestras extra-classe e outras coisas “de nerd” ?

Pais contratam professores particulares para o filho “passar de ano”. Quantos fazem o mesmo para o filho aprender matemática superior, linguagens de programação ou temas de relações internacionais? Aprender inglês ou outra língua é bom? Com certeza, e para todos. É uma decisão acertada dos pais. Mas neste raciocínio não contam, pois quando o pai pode pagar, são oferecidas (e às vezes exigidas) não em reconhecimento de uma dada aptidão e como forma de possibilitar maior desenvolvimento, mas quase que como uma exigência do mercado.

Psicólogos (educacionais ou não) são chamados para crianças e adolescentes com problemas escolares. Buscam-se teorias diversas para explicar o quadro, e propor soluções. Neste bojo, volta e meia a culpa cai sobre os pais, e neste caso são eles que precisam se tratar. Isto não está errado. Há situações em que a psicoterapia é fundamental.

Mas a questão aqui é não se fazer esforço semelhante para o bom aluno. Note-se que não falo dos gênios ou superdotados. Aqui a história é outra. Há propostas e trabalhos muito bons, embora ainda insuficientes. Falo aqui do bom aluno “normal”.

E você acha que ele não precisa de nada? Basta que vá levando sua vida normalmente? Então eu pergunto: Como manter sua autoconfiança quando todos os seus colegas tratam-no como um leproso?  Como sentir-se livre para dizer que a prova de física foi fácil quando seus amigos estão xingando o professor? Como dizer que gostou daquela aula sem “pagar mico”? Como falar de seus conhecimentos e da sua cultura sem parecer arrogante? Como crescer e desenvolver-se sozinho apesar das resistências? Onde buscar apoio e estímulo para manter-se neste caminho?

O bebê é um aprendiz voraz. A criança adora aprender coisas novas e, mais que isto, mostrar para todo mundo. Mas à medida que cresce isto muda. Aprender e principalmente mostrar que aprendeu perde o charme, tornando-se até inconveniente. Converte-se no máximo em um prazer solitário.

Por isto o país vem desperdiçando talentos. Destruindo-os desde cedo, ao transformar o sucesso em algo que não pode ser mostrado, sob a pena da crítica.

Apesar disto tudo alguns nerds avançam, crescem e se tornam profissionais de sucesso. Mas sucesso de quem e para quem? Alguns usam o seu talento para ajudar os outros. Mas você poderia culpar os que se tornam egoístas? Atingiram o sucesso por seus próprios meios e apesar da sociedade. Pode, para alguns, fazer bastante sentido que usem seus talentos em seu próprio benefício. Querem exemplos?

  • Cientistas formados no Brasil que vão para o exterior apenas em busca do sucesso profissional.
  • Empresários de sucesso despreocupados com a função social da empresa.
  • Profissionais liberais que usam sua competência apenas para engordar o seu saldo bancário.

Vivemos hoje, realmente, em uma sociedade do conhecimento. Neste sentido, saber é poder. Estamos desperdiçando o poder do talento e do aprendizado. Estamos provocando, primeiro, uma morte e, depois, uma fuga de cérebros.

O que lamento é que, ao não ouvirmos o grito dos excluídos, corremos o risco de sofrer a vingança dos nerds.

Você tem algo a dizer ? Quer ampliar o debate ?
Comentários são bem vindos.

Links para os artigos citados neste texto:

A Mediocridade Prevalece !?

Preparados para Perder

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