Construtivismo: Vygotsky- Pensamento e Linguagem


O estudo do problema das relações entre pensamento e linguagem, tem caminhado desde a antigüidade entre dois pólos. Um, identificando fala com pensamento, fundindo-os. Já o outro, afirma o oposto, disjunção e segregação absolutas. Independente da proximidade maior ou menor de cada um dos pólos, consideram todos, pensamento e linguagem como dois processos distintos. Consequentemente, o estudo destas relações dirige-se sempre para algo mecânico e externo, nunca sendo capaz de estudar qualquer ligação intrínseca entre linguagem e pensamento.
O erro então, estaria, segundo Vygotsky, nos métodos de análise adotados pelos pesquisadores. Tais métodos analisam todos psicológicos complexos em seus elementos constituintes. O problema aqui, é que no decorrer da análise as propriedades originais do pensamento verbal desapareceram, porque foram dissecados em suas partes componentes. Ao pesquisador resta apenas descobrir as relações mecânicas entre dois componentes, na esperança de reconstruir, através da especulação, as propriedades desaparecidas.
Na sua opinião, o método mais adequado é usar outro tipo de análise que denominou de análise em unidades (Vygotsky, 1993). Unidade é entendida como um produto de análise, que ao contrário dos elementos, contém todas as propriedades do todo, não podendo ser dividida sem que as perca. Exemplifica a molécula para a compreensão das propriedades da água e a célula para o ser vivo.
Em seu caso particular define como unidade básica de análise o significado da palavra. Em suas palavras:
“A natureza do significado como tal não é clara. No entanto, é no significado da palavra que o pensamento e a palavra se unem em pensamento verbal. É no significado, então, que podemos encontrar as respostas às nossas questões sobre as relações entre o pensamento e a fala”.
Baseado neste método Vygotsky estabelece então, que a relação entre pensamento e fala não é uma coisa, mas um processo. Nele, o que existe é um movimento contínuo da palavra para o pensamento e vice-versa. O pensamento não meramente expresso em palavras, é por meio delas que passa a existir. O pensamento associa, se move, amadurece e se desenvolve.
Quando a criança começa a falar, ela o faz primeiro usando uma palavra, depois duas, prosseguindo desenvolvendo não só o vocabulário, como também, evoluindo de frases simples para outras mais complexas. No entanto, no que tange ao significado, a primeira palavra já é uma frase completa. Por exemplo; ao dizer mã pode estar significando “Eu te reconheço como minha mãe, uma pessoa diferente de todas as outras que conheço”.
Assim, a semântica e a fonética caminham em sentidos opostos. A primeira, de um pensamento globalizante para posterior domínio de suas unidades semânticas mais elementares. Com o tempo, o pensamento torna-se mais complexo e multifacetado. Já a última, vai do simples para o complexo; de uma tosca palavra a um elaborado discurso.
Outro aspecto de conseqüências óbvias para a aprendizagem é a predominância do sentido sobre o significado. Uma dada comunicação muda de significado conforme o contexto onde ela se dá. Depende basicamente da maior ou menor comunhão entre as mentes dos interlocutores. Assim é que havendo grande identidade de pensamento as palavras tornam-se quase dispensáveis. Inexistindo, a comunicação torna-se muito difícil, por mais palavras que se usem. O problema é que a comunicação direta ente duas mentes é impossível, tanto do ponto de vista físico, como do psicológico. Ela só se faz de maneira indireta, o pensamento precisa passar primeiro pelos significados e depois pelas palavras.
Finalmente compreender o pensamento verbal demanda ainda compreender o complexo afetivo-volitivo que enfeixa a última resposta. O pensamento é gerado pela motivação. Assim é que o trajeto delineado por Vygotsky em seus estudos começa pela motivação geradora do pensamento, prossegue pela sua configuração primeiro na fala interior e depois nos significados das palavras para finalmente, desaguar nas palavras.

Compreender e aceitar Vygotsky pode ter profundas conseqüências, tanto para aprendizes como principalmente para professores. Aceitar Vygotsky significa afastar o foco de atenção da palavra, arena habitual do mestre, para a motivação e significado. Isto não a desvaloriza, apenas a amplia. Na verdade ele a considera “um microcosmo da consciência humana”. Entretanto, ela perde sua existência autônoma para se tornar ícone de um processo. Nas suas palavras:
“À frase bíblica ‘No princípio era o Verbo”, Goethe faz Fausto responder: “No princípio era a Ação”. O objetivo desta frase é diminuir o valor das palavras, mas podemos aceitar essa versão se a enfatizarmos de outra forma: No princípio era a Ação. A palavra não foi o princípio – a ação já existia antes dela; a palavra é o final do desenvolvimento, o coroamento da ação”.

 

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