O que é aprender: Ensinar e Aprender


Pesquisar sobre aprendizagem e difundir suas aplicações são importantes também, pelo menos por duas razões. A primeira é que no dizer de Paulo Freire (1996) “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro”. A segunda se refere ao gigantesco processo de mudanças ora em curso neste final de século. Em uma era de incertezas, a única certeza é a mudança. É razoável portanto esperar da educação um esforço no sentido de capacitar o aluno a sobreviver neste mundo mutável. Neste sentido, saber aprender, pode fazer muita diferença.

O processo ensino-aprendizagem comporta dois aspectos inseparáveis; o ensinar e o aprender. Na verdade, estes aspectos definem-se de forma relacional. Há o ensino quando alguém aprende. Há o aprendizado quando à alguém se ensina algo. Mesmo na ausência da figura formal e explícita do professor, o indivíduo só aprende na medida em que é submetido, ou se submete a um conjunto de ações e experiências que levam ao aprendizado. Neste caso então, mesmo ausente o professor, mantém-se presente sua função.

Esta profunda interação não nos deve fazer esquecer, entretanto, que o fenômeno é em essência binomial. Comporta dois componentes diferentes; cada um com suas características e especificidades. Da mesma maneira que existem competências e habilidades pertinentes ao docente, também existem aquelas adequadas ao aprendiz.

Podemos, portanto, entender o processo ensino-aprendizagem como uma trilha de parcerias, onde docentes e alunos contribuem, cada qual com sua parte para o sucesso da empreitada. É razoável supor então, que progressos na compreensão e operacionalização da aprendizagem permitam melhorar a eficiência da instituição escolar como um todo.

É claro que o docente, o aluno e a escola inserem-se em um todo maior, relacionando-se com aspectos econômicos, ideológicos, políticos e sociais. Em alguns casos, a educação pode mesmo confundir-se com este todo. Entretanto, considerar como pertinente esta visão macroscópica, não implica em desconsiderar aspectos mais ligados ao indivíduo. É nele onde confluem todos os vetores da vida em sociedade. Neste sentido é então razoável a afirmativa de que a competência dos aprendizes traz-lhes benefícios diretos no seu aprender. Ainda mais, na medida em que bons professores beneficiam-se com alunos competentes, o domínio das habilidades da aprendizagem facilita a função docente, o que reverte em benefícios tanto para o aluno como para o professor.

O ato de ensinar implica no objetivo de que o aluno aprenda. Conseqüência óbvia é a necessidade de conhecer o processo de aprendizagem, de modo a fundamentar as atividades de ensino. O conhecimento da aprendizagem não beneficia apenas o ensino, mas suas relações são tão fortes, que é difícil encontrar qualquer pesquisa sobre aprendizagem que não tenha alguma ligação com ele. Mesmo Piaget, cuja proposta original era a de uma pesquisa pura, tornou-se referência obrigatória até para os não piagetianos.

Apenas a guisa de exemplo; se aceitarmos o conceito piagetiano de estágios, torna-se ilógico pretender ensinar algo antes que o aluno esteja preparado para tal. No entanto, em algumas circunstâncias podemos fazê-lo, se baseados em Vygotsky defendermos seu conceito de zona de desenvolvimento proximal.

Por isto, ao bom professor, entre outros, cabe um duplo papel. Ao planejar suas experiências de ensino, deve levar em conta as características dos seus alunos. Deve ainda estimulá-los para que tomem medidas facilitadoras de seu aprendizado. Em ambos os casos, isto só será possível na medida em que o professor domine algumas áreas da aprendizagem.

Outro argumento que separa o ensino da aprendizagem origina-se na epistemologia. Gill (1993), levanta uma questão a seu ver, de importância central: a falta de uma filosofia da educação que discuta em profundidade qual o lugar do conhecimento, como os conhecedores são e o que pode ser conhecido. A mais valiosa contribuição de Gill, aproximando as visões de filósofos como, Whitehead, Dewey, Freire e Rogers é reforçar a necessidade de ver a atividade cognitiva como, mais do que uma mera assimilação ou uma recepção passiva. Para ele, a principal dificuldade é que estes filósofos não levam suas percepções longe o bastante, direcionando-as a uma compreensão reducionista e analítica da natureza da experiência cognitiva. Michael Polanyi designa esta visão atomística como “filosofia crítica” e suas implicações educacionais são amplas. Os sistemas educacionais americano e europeu centraram-se no esforço de aprender a isolar, analisar e explicar os diferentes dados da experiência como partes isoladas a partir das quais o mundo é construído. O resultado final é a compreensão do processo de conhecer assumindo que o aluno e o conhecimento são distintos e independentes um do outro.

Gill, refletindo sobre a fábrica de experiências de cognição, na perspectiva do pensamento de Maurice Merleau-Ponty e Michael Polanyi, diz-se convencido de que o processo é mais importante de que o produto na educação. A informação pode ser buscada nos livros e afirma que, o que é de suma importância é aprender como aprender, tornando o aluno sempre apto a aprender mais.

Vivemos uma era de profundas transformações. Elas se fazem em todas as esferas de nossas vidas. É cada vez mais difícil prever o dia de amanhã. Esta era de incertezas demanda por um profissional mais flexível, capaz de sobreviver em um mundo velozmente mutável. Para isto é necessário que ele seja hábil em inventar soluções.

 

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