Como apresentar as características do problema de pesquisa?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Para começo de conversa

Em primeiro lugar você precisa saber o que é um problema de pesquisa. Dito de forma simples é um problema, ou seja, algo cuja solução não é imediata. Você tem que buscar, tem que pensar para obter uma solução. Para saber mais sobre isto tem um post que já publiquei(*).

Mas antes e tudo não confunda TEMA com PROBLEMA. “Educação no Brasil” por exemplo não é um problema; é um TEMA. Da mesma forma “Diabetes Gestacional”, “Ciclo de Krebs” ou ainda “Aspectos Físicos da Bacia Amazônica”. Note que todos estes parecem títulos de livros ou de capítulos. Isto é, apenas indicam o conteúdo do texto que eles encabeçam. Então eles não são problema. É só escrever o título e então desenvolver o conteúdo. Coloque o título “O Conhecimento segundo Paulo Freire” e depois fale sobre isto. Ah! Você não tem nem ideia sobre o que Paulo Freire falou sobre o conhecimento?(**) Bem, isto já é um problema…

O problema

Então se você não sabe e precisa saber, você terá de pensar, de pesquisar, de buscar fontes para dizer o que Paulo Freire falou sobre o conhecimento. E é um problema porque responder não é fácil, já que você não sabe. Você ainda não pensou. Pesquisar dá trabalho. Buscar fontes é às vezes difícil. Você então está frente à um problema. o que nos leva ao próximo passo.

A Questão norteadora

Então se você não sabe nada do que Paulo Freire falou do conhecimento, já está aí uma pergunta pronta: “O que Paulo Freire falou do conhecimento? “. Eis aí a sua questão norteadora. É uma questão porque faz uma pergunta, é obvio não? E é também norteadora porque te dá o norte, ou seja, indica o caminho que você deve seguir para responder a pergunta. E este caminho é a solução do problema. E para caminhar use as…

Questões Aristotélicas

Então agora vamos responder à pergunta do título. É simples, use as Questões Aristotélicas!

Como assim? Aristóteles, filósofo grego, nos ensina. Responda à estas questões e você terá apresentado o seu problema de pesquisa. Então vamos a elas, usando como exemplo o tema “Diabetes Gestacional” como é apresentado pela Wikipedia

Que? O que?

O que é o seu problema? Divida o seu problema em partes e as apresente. É onde você define o problema. Você diz o que ele é:

  • “Diabetes gestacional é a a condição em que uma mulher sem diabetes apresenta níveis elevados de glicose no sangue durante a gravidez”

Descreve o problema:

  • “A diabetes gestacional geralmente manifesta poucos sintomas.”
  • ‘”A diabetes gestacional afeta entre 3 e 9% de todas as gravidezes, dependendo da população estudada.”
  • “O diagnóstico é feito por análises ao sangue. Em pessoas de risco normal, o rastreio é recomendado entre a 24ª e a 28ª semanas de gestação. Em pessoas de elevado risco, o rastreio pode ter lugar na primeira consulta pré-natal.”

Quem?

Quem são as pessoas afetadas? Quem são os sujeitos do problema?

  • “A prevalência varia com a idade. A doença afeta apenas 1% das grávidas com menos de 20 anos de idade, enquanto que afeta 13% das grávidas com mais de 44 anos de idade.[3] Alguns grupos étnicos apresentam maior risco de diabetes gestacional, entre os quais asiáticos, nativos norte-americanos, aborígenes australianos e habitantes das ilhas do Pacífico.”

Onde?

Em que local se situa o problema. No caso da diabetes você poderia escrever:

  • A diabetes é uma doença sistêmica com efeitos no corpo todo, inclusive no feto em desenvolvimento.

Quando?

Em que época surge o problema? Qual a data?

  • “A doença é particularmente comum durante o terceiro trimestre de gravidez. Em 90% dos casos, após o parto a doença resolve-se por si própria.”

Como?

Como se dá o problema. Descreva o processo por meio do qual o processo se dá:

  • O processo mais fundamental da diabetes envolve o pâncreas, órgão responsável pela produção da insulina. Produzida pelas ilhotas de Langerhans, regula o processo de queima e armazenamento dos nutrientes consumidos através dos alimentos. Isto é, a digestão dos alimentos promove o aumento da glicemia, que na presença da insulina é dirigida para o interior das células onde, metabolizada produzirá energia ou será armazenada.  Quando a insulina é insuficiente, os níveis de glicose  aumentam em excesso (hiperglicemia), causando efeitos tóxicos em vários setores do organismo.

Porque?

Qual a razão? Qual a causa?

  • “A diabetes gestacional é causada pela quantidade insuficiente de insulina no contexto de resistência à insulina. Os fatores de risco incluem ter sobrepeso, ter tido anteriormente diabetes gestacional, história na família de diabetes do tipo 2 e ter síndrome do ovário policístico.”

Para quê?

Qual o objetivo? Quais as consequências?

  • A diabetes “aumenta o risco de pré-eclampsia, depressão e necessidade de uma cesariana. Os bebés de mães com diabetes gestacional tratada de forma ineficaz apresentam risco acrescido de macrossomia, de baixos níveis de glicose após o nascimento e de icterícia. Quando não é tratada, a doença pode resultar em nado-morto. A longo prazo, as crianças apresentam maior risco de sobrepeso e de desenvolver diabetes do tipo 2”

Concluindo

Note que eu te descrevi um processo:

  1. Comece pelo TEMA
  2. Identifique o PROBLEMA
  3. Construa a QUESTÃO NORTEADORA
  4. Responda às QUESTÕES ARISTOTÉLICAS

Fácil, né? Só que não. Isto não é uma receita de bolo onde você tem uma lista é é só seguir sem pensar. Não! O que descrevi foi um método. Uma maneira de pensar. Portanto você precisa PENSAR. Precisa refletir no seu problema, precisa adequar estas etapas à natureza e especificidades do seu campo de estudo. Não é uma caixa preta em que você introduz a receita, gira uma manivela e do outro lado sai tudo prontinho.

Ah! E ainda mais. Qualquer um que já tentou fazer um bolo viu que não basta a receita, é necessário saber executá-la com competência. Ok?

Para saber mais:

(*) O que é um problema de pesquisa ?
(**) O CONHECIMENTO segundo PAULO FREIRE

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A pior coisa sobre resfriados

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Para você refletir (depois de sorrir):

  • Caso específico: Note que no quadro gripal inicial a sensação de mal estar é maior que no tardio. No entanto a sua aparência tem evolução invertida. E isto nas pessoas que reagem na proporção da aparência, faz com que o paciente receba atenção na fase em que ele precisa menos…
  • Caso geral: Nem sempre a aparência do paciente corresponde à gravidade da doença. É preciso estar atento.
  • Uma pergunta: Em um acidente automobilístico grave com muitas vítimas, quem você atenderia primeiro?  Aquele que grita de dor clamando por auxílio ou o que, apático, você o vê caído entre as ferragens? Nem sempre a decisão é simples, mas tem que ser rápida…

 

 

Por uma metodologia que ensine a pensar, a raciocinar, a aprender com a experiência. (*)

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Método resulta da junção de dois termos gregos. Usamos o prefixo “meta” para nos referirmos ao que vai além; ao que vem depois. Já “odos” refere-se a caminho. Neste sentido então método é, estritamente, aquilo que vem depois de percorrido o caminho.  E então; olhar para trás não é uma boa forma de avaliar o que fizemos?  Claro que sim. É quando podemos aprender com a nossa experiência. E em medicina aprendemos muito com ela. Por isto os casos clínicos são uma ferramenta preciosa para nosso aprendizado.

E assim, método refere-se essencialmente ao pensar sobre caminhos e ações percorridos. Aprender método é aprender a pensar sobre o que fizemos. É também pensar e aprender com a experiência daqueles que nos precederam.  Claude Bernard foi mais além ao definir o método cientifico como o “raciocínio por meio do qual submetemos as nossas ideias ao tribunal dos fatos”. E ressalto aqui a palavra raciocínio.

Em medicina colhemos histórias, fazemos exames físicos, analisamos exames complementares; sempre com uma pergunta em mente: Que entidade mórbida pode explicar o quadro do paciente? E para isto precisamos pensar. Para conectar todos os dados obtidos; precisamos do método. Precisamos; parafraseando o pai da medicina experimental; raciocinar para submeter nossas ideias aos fatos clínicos. Médicos de boa cepa não se diminuem a meros executores de receitas e procedimentos.

Em ciência o procedimento é análogo. Como nós, o cientista se defronta com o desconhecido, observa, coleta dados, consulta seus pares e principalmente pensa. Como nós, constrói hipóteses e as testa de variadas formas.  Como nós, faz uso do método científico.

Como médicos, estamos o tempo todo praticando e produzindo conhecimento. Isto nos faz um pouco artesãos, um pouco cientistas. E é talvez por isto que Canguilhem, filósofo e médico, afirma que a Medicina é “… uma arte situada na confluência de várias ciências…”. Como artesãos, praticamos a arte com a perfeição possível. Como cientistas, processamos o conhecimento produzido. E, talvez em alguns momentos felizes, criamos algo novo.

Por isto, o ensino da Metodologia Científica não deve reduzir-se à mera apresentação de algumas técnicas de pesquisa. Enfatizo que enquanto método refere-se ao pensar, técnica dirige-se ao fazer. Disto sabemos nós, por exemplo, quando subordinamos a técnica cirúrgica ao conhecimento mais amplo da Cirurgia. Um cirurgião não é um mero executor de técnicas.  Cada caso é um caso, é axioma tão usado quanto verdadeiro em nossa profissão.

Defendo que o ensino da Metodologia Científica deva favorecer o domínio das ferramentas do pensamento. Que o aluno se envolva em um ambiente desafiador, onde possa tomar consciência da sua maneira de pensar e das ferramentas heurísticas necessárias ao manejo do método. Que ele possa perceber o mundo da pesquisa como um ambiente estimulante e prazeroso.

Para isto, a apresentação das técnicas de pesquisa (sempre necessárias) deve inserir-se em um ambiente de atividade e prática. Um ambiente onde o desconhecido se apresente cotidianamente a desafiar o aluno. Onde haja a possibilidade do exercício do raciocínio e das ferramentas do pensar. Onde o aluno possa perceber-se aprendendo, e do mesmo passo conscientemente, tomar posse daquilo que aprendeu.

Na sua totalidade e abrangência, tal curso não existe. Mesmo porque esta proposta ultrapassa os limites de uma única disciplina. Embora o aprendizado formal em sala de aula seja condição necessária, não é suficiente. Há que prosseguir em um ambiente onde o pensar e a pesquisa sejam atividade diária. Em minhas atividades diárias esta proposta é um ideal sempre perseguido, embora nem sempre alcançado na sua plenitude. Mas, em um convite à reflexão, deixo aos colegas as palavras de Olavo Bilac,:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto…
E conversamos toda a noite…

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 

(*) Texto publicado em

MAURICIO ABREU PINTO PEIXOTO. Por uma metodologia que ensine a pensar  a raciocinar a aprender com a experiência.pdf. Jornal Brasileiro de Oftalmologia, [s. l.], v. 156, p. 5, 2013. Disponível em: <http://www.sboportal.org.br/jbo/2013/jbo_156.pdf>

Como treinar seu cérebro para manter um aprendizado por toda a vida (e por que é bom)

Resumo do texto de:
Pam Thomas (*)
Chief Change Officer @What’s Within U;

Eu estou apaixonada pela aprendizagem ao longo da vida. Isso desperta minha curiosidade e a curiosidade acende minha busca para ser uma aprendiz vitalícia.
Não só a aprendizagem ao longo da vida melhorou as minhas funções cerebrais (como a minha memória), como também apoiou o meu sucesso e crescimento como proprietário de uma empresa e tornou-me um treinador mais eficaz. A aprendizagem ao longo da vida tem sido verdadeiramente instrumental em adicionar novas ferramentas e conhecimentos à minha caixa de ferramentas metafórica.

Principais benefícios da aprendizagem ao longo da vida:

No artigo “Benefícios da Aprendizagem ao Longo da Vida”, Marjaan Laal afirma que a aprendizagem ao longo da vida aguça a mente, aumenta a confiança, aumenta as habilidades interpessoais, amplia as oportunidades de carreira e afeta a capacidade de se comunicar efetivamente. John Coleman afirmou em seu artigo “Aprendizado por toda a vida é bom para sua saúde”, sua carteira e sua vida social que mesmo lendo por um curto período todos os dias pode reduzir os níveis de estresse.

Alguns conselhos para começar a treinar seu cérebro a desejar a aprendizagem ao longo da vida:

  • Ter um objetivo não apenas torna o aprendizado benéfico, mas também provê um propósito.
  • Se a aprendizagem ao longo da vida não tem sido seu interesse principal, tentar comer esse “elefante” em uma única mordida é muito mais difícil.
  • Divirta-se com o seu aprendizado. Se aprender é uma compromisso ou se tornar um, o ato de fazê-lo obviamente é mais difícil. Faça aprender um jogo. O que quer que seja tornar a aprendizagem divertida para você, certifique-se de envolver a diversão!

(*) Para saber mais acesse:
https://www.lifehack.org/791279/lifelong-learning