Manutenção, Crescimento e Choque: Três formas para o teu sucesso nos estudos.

 Mariana L. O. da Silva 1
Victor P. Rochetti 2
César S. Xavier 3
Prof. Mauricio A. P. Peixoto 4


 

Durante muitos anos estudamos incansavelmente com o intuito de tirar notas altas em provas, passar de ano na escola e finalmente ser aprovado no vestibular e entrar em uma boa universidade, nos acostumando a sempre aprender o mínimo para alcançar a aprovação. Quando enfim chegamos na faculdade nos deparamos com uma realidade completamente diferente onde a todo momento nos deparamos com novos estudos, descobertas, conceitos e redefinições de conhecimentos que acabam se tornando ultrapassados ou superficiais.

Na graduação nos é exigida a capacidade de entender e avaliar criticamente diversos estudos de forma que estejamos sempre atualizados em nossas áreas de atuação e prontos para exercer com excelência nossa futura profissão. Para que sejamos capazes de cumprir essa exigência, é importante entender que seremos “estudantes para vida toda” visto que sempre há mais assuntos a serem estudados a medida que o conhecimento científico nunca para de ser produzido.

Uma das maneiras de aprender é se manter informado (aprendizagem de manutenção). Isso não necessariamente te fará adquirir uma nova habilidade ou ajudar em seus estudos na graduação, mas é muito importante estar atualizado das novidades que aparecem na sua área. Atualmente, como todos nós vivemos em redes sociais, seguir páginas da sua área irá te manter constantemente exposto a diversas curiosidades, novos achados científicos e novos avanços de pesquisas ao redor do mundo.

A segunda maneira de aprender é através da aprendizagem de crescimento, ou seja, aprender algo que você não sabia antes. É de extrema importância estar sempre adicionando novos conhecimentos e habilidades ao seu repertório. A leitura de livros e de artigos científicos é uma ótima maneira de estudar sobre a área da ciência a qual você está interessado, por eles você pode conhecer o que já foi estudado e também aprender formas de como transformar perguntas em resultados através de metodologias científicas. Isso irá te deixar preparado para situações ou para solução de problemas na sua rotina de estudo ou trabalho e também te dará ideias para proceder com suas pesquisas.

A terceira maneira que pode te auxiliar é a aprendizagem de choque, ou seja, entrar em contato com conhecimentos que sejam conflitantes com aqueles que você já tem. Esta maneira não é tão fácil de ser implementada, mas fará com que você adquira uma maturidade que irá te dar destaque diante de outros profissionais.

Mas como podemos nos manter atualizados e praticando esses tipos de aprendizagem?

Será necessário disciplina para criar um hábito de estudar que te transformará, de fato, em um eterno estudante. Ler capítulos de livros e artigos por um determinado tempo todos os dias irá criar essa rotina e é importante lembrar de não se limitar a conteúdos que você esteja confortável, estudar e encarar aquilo que você tem dificuldade só fará você crescer como futuro profissional. Investir um pouco do seu dinheiro em sua formação sempre é recomendável, cursos fora da faculdade irão te trazer conhecimentos e perspectivas do mundo profissional que a graduação pode não oferecer.

É bom ter a consciência, o quanto antes, de que estudar só para “passar” não fará você evoluir como profissional. Alcançar seus objetivos requer disciplina, esforço e contínua aprendizagem.

Referência:

Brian Tracy: Never Stop Learning, https://thebeaconviews.com/2018/02/23/never-stop-learning/

Leia também

Aprendizado ao longo da vida: uma necessidade humana.

 

1 – Graduanda em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia
Instituto de Microbiologia Professor Paulo Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

2 – Graduando em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia
Instituto de Microbiologia Professor Paulo Góes
Universidade Federal do Rio de Janeiro

3 – Doutorando em Educação em Ciências e Saúde
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

4 – Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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Como apresentar as características do problema de pesquisa?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Para começo de conversa

Em primeiro lugar você precisa saber o que é um problema de pesquisa. Dito de forma simples é um problema, ou seja, algo cuja solução não é imediata. Você tem que buscar, tem que pensar para obter uma solução. Para saber mais sobre isto tem um post que já publiquei(*).

Mas antes e tudo não confunda TEMA com PROBLEMA. “Educação no Brasil” por exemplo não é um problema; é um TEMA. Da mesma forma “Diabetes Gestacional”, “Ciclo de Krebs” ou ainda “Aspectos Físicos da Bacia Amazônica”. Note que todos estes parecem títulos de livros ou de capítulos. Isto é, apenas indicam o conteúdo do texto que eles encabeçam. Então eles não são problema. É só escrever o título e então desenvolver o conteúdo. Coloque o título “O Conhecimento segundo Paulo Freire” e depois fale sobre isto. Ah! Você não tem nem ideia sobre o que Paulo Freire falou sobre o conhecimento?(**) Bem, isto já é um problema…

O problema

Então se você não sabe e precisa saber, você terá de pensar, de pesquisar, de buscar fontes para dizer o que Paulo Freire falou sobre o conhecimento. E é um problema porque responder não é fácil, já que você não sabe. Você ainda não pensou. Pesquisar dá trabalho. Buscar fontes é às vezes difícil. Você então está frente à um problema. o que nos leva ao próximo passo.

A Questão norteadora

Então se você não sabe nada do que Paulo Freire falou do conhecimento, já está aí uma pergunta pronta: “O que Paulo Freire falou do conhecimento? “. Eis aí a sua questão norteadora. É uma questão porque faz uma pergunta, é obvio não? E é também norteadora porque te dá o norte, ou seja, indica o caminho que você deve seguir para responder a pergunta. E este caminho é a solução do problema. E para caminhar use as…

Questões Aristotélicas

Então agora vamos responder à pergunta do título. É simples, use as Questões Aristotélicas!

Como assim? Aristóteles, filósofo grego, nos ensina. Responda à estas questões e você terá apresentado o seu problema de pesquisa. Então vamos a elas, usando como exemplo o tema “Diabetes Gestacional” como é apresentado pela Wikipedia

Que? O que?

O que é o seu problema? Divida o seu problema em partes e as apresente. É onde você define o problema. Você diz o que ele é:

  • “Diabetes gestacional é a a condição em que uma mulher sem diabetes apresenta níveis elevados de glicose no sangue durante a gravidez”

Descreve o problema:

  • “A diabetes gestacional geralmente manifesta poucos sintomas.”
  • ‘”A diabetes gestacional afeta entre 3 e 9% de todas as gravidezes, dependendo da população estudada.”
  • “O diagnóstico é feito por análises ao sangue. Em pessoas de risco normal, o rastreio é recomendado entre a 24ª e a 28ª semanas de gestação. Em pessoas de elevado risco, o rastreio pode ter lugar na primeira consulta pré-natal.”

Quem?

Quem são as pessoas afetadas? Quem são os sujeitos do problema?

  • “A prevalência varia com a idade. A doença afeta apenas 1% das grávidas com menos de 20 anos de idade, enquanto que afeta 13% das grávidas com mais de 44 anos de idade.[3] Alguns grupos étnicos apresentam maior risco de diabetes gestacional, entre os quais asiáticos, nativos norte-americanos, aborígenes australianos e habitantes das ilhas do Pacífico.”

Onde?

Em que local se situa o problema. No caso da diabetes você poderia escrever:

  • A diabetes é uma doença sistêmica com efeitos no corpo todo, inclusive no feto em desenvolvimento.

Quando?

Em que época surge o problema? Qual a data?

  • “A doença é particularmente comum durante o terceiro trimestre de gravidez. Em 90% dos casos, após o parto a doença resolve-se por si própria.”

Como?

Como se dá o problema. Descreva o processo por meio do qual o processo se dá:

  • O processo mais fundamental da diabetes envolve o pâncreas, órgão responsável pela produção da insulina. Produzida pelas ilhotas de Langerhans, regula o processo de queima e armazenamento dos nutrientes consumidos através dos alimentos. Isto é, a digestão dos alimentos promove o aumento da glicemia, que na presença da insulina é dirigida para o interior das células onde, metabolizada produzirá energia ou será armazenada.  Quando a insulina é insuficiente, os níveis de glicose  aumentam em excesso (hiperglicemia), causando efeitos tóxicos em vários setores do organismo.

Porque?

Qual a razão? Qual a causa?

  • “A diabetes gestacional é causada pela quantidade insuficiente de insulina no contexto de resistência à insulina. Os fatores de risco incluem ter sobrepeso, ter tido anteriormente diabetes gestacional, história na família de diabetes do tipo 2 e ter síndrome do ovário policístico.”

Para quê?

Qual o objetivo? Quais as consequências?

  • A diabetes “aumenta o risco de pré-eclampsia, depressão e necessidade de uma cesariana. Os bebés de mães com diabetes gestacional tratada de forma ineficaz apresentam risco acrescido de macrossomia, de baixos níveis de glicose após o nascimento e de icterícia. Quando não é tratada, a doença pode resultar em nado-morto. A longo prazo, as crianças apresentam maior risco de sobrepeso e de desenvolver diabetes do tipo 2”

Concluindo

Note que eu te descrevi um processo:

  1. Comece pelo TEMA
  2. Identifique o PROBLEMA
  3. Construa a QUESTÃO NORTEADORA
  4. Responda às QUESTÕES ARISTOTÉLICAS

Fácil, né? Só que não. Isto não é uma receita de bolo onde você tem uma lista é é só seguir sem pensar. Não! O que descrevi foi um método. Uma maneira de pensar. Portanto você precisa PENSAR. Precisa refletir no seu problema, precisa adequar estas etapas à natureza e especificidades do seu campo de estudo. Não é uma caixa preta em que você introduz a receita, gira uma manivela e do outro lado sai tudo prontinho.

Ah! E ainda mais. Qualquer um que já tentou fazer um bolo viu que não basta a receita, é necessário saber executá-la com competência. Ok?

Para saber mais:

(*) O que é um problema de pesquisa ?
(**) O CONHECIMENTO segundo PAULO FREIRE

A pior coisa sobre resfriados

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Para você refletir (depois de sorrir):

  • Caso específico: Note que no quadro gripal inicial a sensação de mal estar é maior que no tardio. No entanto a sua aparência tem evolução invertida. E isto nas pessoas que reagem na proporção da aparência, faz com que o paciente receba atenção na fase em que ele precisa menos…
  • Caso geral: Nem sempre a aparência do paciente corresponde à gravidade da doença. É preciso estar atento.
  • Uma pergunta: Em um acidente automobilístico grave com muitas vítimas, quem você atenderia primeiro?  Aquele que grita de dor clamando por auxílio ou o que, apático, você o vê caído entre as ferragens? Nem sempre a decisão é simples, mas tem que ser rápida…

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Por uma metodologia que ensine a pensar, a raciocinar, a aprender com a experiência. (*)

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Método resulta da junção de dois termos gregos. Usamos o prefixo “meta” para nos referirmos ao que vai além; ao que vem depois. Já “odos” refere-se a caminho. Neste sentido então método é, estritamente, aquilo que vem depois de percorrido o caminho.  E então; olhar para trás não é uma boa forma de avaliar o que fizemos?  Claro que sim. É quando podemos aprender com a nossa experiência. E em medicina aprendemos muito com ela. Por isto os casos clínicos são uma ferramenta preciosa para nosso aprendizado.

E assim, método refere-se essencialmente ao pensar sobre caminhos e ações percorridos. Aprender método é aprender a pensar sobre o que fizemos. É também pensar e aprender com a experiência daqueles que nos precederam.  Claude Bernard foi mais além ao definir o método cientifico como o “raciocínio por meio do qual submetemos as nossas ideias ao tribunal dos fatos”. E ressalto aqui a palavra raciocínio.

Em medicina colhemos histórias, fazemos exames físicos, analisamos exames complementares; sempre com uma pergunta em mente: Que entidade mórbida pode explicar o quadro do paciente? E para isto precisamos pensar. Para conectar todos os dados obtidos; precisamos do método. Precisamos; parafraseando o pai da medicina experimental; raciocinar para submeter nossas ideias aos fatos clínicos. Médicos de boa cepa não se diminuem a meros executores de receitas e procedimentos.

Em ciência o procedimento é análogo. Como nós, o cientista se defronta com o desconhecido, observa, coleta dados, consulta seus pares e principalmente pensa. Como nós, constrói hipóteses e as testa de variadas formas.  Como nós, faz uso do método científico.

Como médicos, estamos o tempo todo praticando e produzindo conhecimento. Isto nos faz um pouco artesãos, um pouco cientistas. E é talvez por isto que Canguilhem, filósofo e médico, afirma que a Medicina é “… uma arte situada na confluência de várias ciências…”. Como artesãos, praticamos a arte com a perfeição possível. Como cientistas, processamos o conhecimento produzido. E, talvez em alguns momentos felizes, criamos algo novo.

Por isto, o ensino da Metodologia Científica não deve reduzir-se à mera apresentação de algumas técnicas de pesquisa. Enfatizo que enquanto método refere-se ao pensar, técnica dirige-se ao fazer. Disto sabemos nós, por exemplo, quando subordinamos a técnica cirúrgica ao conhecimento mais amplo da Cirurgia. Um cirurgião não é um mero executor de técnicas.  Cada caso é um caso, é axioma tão usado quanto verdadeiro em nossa profissão.

Defendo que o ensino da Metodologia Científica deva favorecer o domínio das ferramentas do pensamento. Que o aluno se envolva em um ambiente desafiador, onde possa tomar consciência da sua maneira de pensar e das ferramentas heurísticas necessárias ao manejo do método. Que ele possa perceber o mundo da pesquisa como um ambiente estimulante e prazeroso.

Para isto, a apresentação das técnicas de pesquisa (sempre necessárias) deve inserir-se em um ambiente de atividade e prática. Um ambiente onde o desconhecido se apresente cotidianamente a desafiar o aluno. Onde haja a possibilidade do exercício do raciocínio e das ferramentas do pensar. Onde o aluno possa perceber-se aprendendo, e do mesmo passo conscientemente, tomar posse daquilo que aprendeu.

Na sua totalidade e abrangência, tal curso não existe. Mesmo porque esta proposta ultrapassa os limites de uma única disciplina. Embora o aprendizado formal em sala de aula seja condição necessária, não é suficiente. Há que prosseguir em um ambiente onde o pensar e a pesquisa sejam atividade diária. Em minhas atividades diárias esta proposta é um ideal sempre perseguido, embora nem sempre alcançado na sua plenitude. Mas, em um convite à reflexão, deixo aos colegas as palavras de Olavo Bilac,:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto…
E conversamos toda a noite…

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 

(*) Texto publicado em

MAURICIO ABREU PINTO PEIXOTO. Por uma metodologia que ensine a pensar  a raciocinar a aprender com a experiência.pdf. Jornal Brasileiro de Oftalmologia, [s. l.], v. 156, p. 5, 2013. Disponível em: <http://www.sboportal.org.br/jbo/2013/jbo_156.pdf>
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