Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

carteiro-fazendo-a-triagem-das-cartasHoje continuamos  o post anterior sobre a Prática Distribuída (1). Vamos detalhar um pouco mais (com alguns comentários pessoais) esta estratégia, analisada  por John Dunlosky e colaboradores no artigo “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”.

No primeiro post (1),  mostramos que na Prática Distribuída (PD), você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Mostramos ainda que quando você faz a PD sua memorização é melhor no longo prazo.  No entanto, não explicamos em detalhe como aplicar esta estratégia. É o que faremos agora.

Como fazer a PD?

A resposta simples e incompleta é: Repita o seu estudo dando um tempo entre uma sessão de estudo e outra. O problema é que sempre ficam outras perguntas.

Repetir como?

Se você vai repetir é bom que varie as técnicas de estudo. Em primeiro lugar para evitar a monotonia e a “decoreba”. Além disto, diferentes técnicas permitem ver o assunto sob diferentes perspectivas. A variação também é importante porque cada técnica enfatiza um aspecto diferente do assunto. Por exemplo, uma técnica favorece a memorização de fatos enquanto outra o relacionamento entre eles.

Por isto um  aspecto importante é que os benefícios da PD variam conforme o objetivo do estudo. As pesquisas existentes mostram claramente que quanto mais o objetivo se aproxima da memorização de fatos e eventos, melhores são os resultados. Já em matérias que exigem a compreensão de processos complexos, ou nas quais a correta tomada de decisão é fundamental, os resultados não são tão claros.

Aqui entra em jogo a técnica de estudo, a motivação e a intenção. Em síntese, não se trata apenas de repetir e pronto. Importa muito como e porque e para que você o faz.

Por exemplo, ao estudar você o faz motivado? Você realmente quer aprender aquele assunto? Tem clareza dos benefícios que aquele conhecimento trará para você? É bastante óbvio que se as respostas para as perguntas são positivas então o estudo será muito melhor. Ok?

Outra variável é a intenção. Não confunda com a motivação. A motivação te dá a energia necessária para o estudo, mas a intenção de aponta o objetivo. Isto é, você precisa ter clareza de onde você que chegar no estudo. Dito de outra forma, você precisa ter metas explícitas para o seu estudo. Que informação você precisa memorizar? Que tipo de problema você precisa ser capaz de resolver? Quais os diagnósticos que você precisa fazer? Que tipos de ações ou procedimentos você precisa se tornar hábil? Sem isto você não vai saber o que tem de fazer, nem poderá julgar se conseguiu. Como disse Sêneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.”

E finalmente a técnica de estudo. Neste sentido é que você precisa aprender a aprender. Por exemplo, se o objetivo é a memorização, suas repetições enfatizarão a repetição de memória. Já o autoquestionamento te ajuda a organizar os fatos, favorecendo seu desempenho em provas de resposta aberta. Se um assunto é complexo, você pode esquematiza-lo de modo a poder perceber as suas múltiplas partes assim como a relação existente entre elas.  Por outro lado. Mais que isto, se você varia as técnicas de estudo durante as repetições o estudo se torna mais eficiente. Por isto começamos este tópico  falando da variação como uma peça chave na PD.

E as matérias?

Normalmente você tem muitas matérias para estudar. Então precisa dar um jeito para estuda-las todas e, além disto, repetir os seus tópicos. Este é um assunto que demanda maior espaço de explicação e foge ao escopo deste texto. Mas ele já foi tratado em outros lugares. Você precisa aprender a gerenciar o seu tempo e uma forma de fazê-lo é construir e manter um Quadro Horário (2).

Repetir quando?

Isto é, quanto tempo entre uma sessão de estudo e outra?. Isto depende de dois fatores. Primeiro algo muito óbvio. Quanto tempo  você tem para finalizar o estudo?  Se você faz uma disciplina que dura vários meses e tem apenas uma prova final , o intervalo pode ser de meses semanas. Se a prova é mensal ou semanal este intervalo cai necessariamente para dias. É uma questão de bom senso.

Em segundo lugar, agora já não tão óbvio, depende do tempo que você deseja (ou precisa) memorizar a informação. Isto é, por quanto tempo você precisa que aquela informação esteja disponível na sua mente? Como regra geral, quanto mais longo, por mais tempo você se lembrará dela. Reveja o gráfico deste texto. Mas é claro que o numero de sessões importa (3)!

Sendo um pouco mais preciso, experimentalmente calculou-se que o melhor intervalo consiste em 10% a 20% do tempo desejado de retenção. Por exemplo, para memorizar por uma semana o intervalo deveria ser de 12 a 24 horas. Para lembrar-se por cinco anos, as repetições deveriam ser realizadas a cada 6 a 12 meses.

Estudando para a(s) prova(s):

Na prática isto significa que você precisa analisar o seu conteúdo de estudo. Se você fizer isto, descobrirá que de todos os tópicos  que são cobrados em prova, há alguns que são periféricos e outros centrais. Estes são de três tipos: a) aqueles que vão fundamentar sua prática profissional ao longo dos anos, b) são fundamento ou indispensáveis para o estudo de disciplinas subsequentes e finalmente c) os que serão cobrados em exames que avaliam o aprendizado cumulativo ao longo dos anos. Já os periféricos criam o contexto que permite a compreensão e o aprendizado dos tópicos centrais. Por isto pense em intervalos diferentes p
ara estes dois tipos de tópicos.

Vamos voltar ao gráfico. Nele é possível perceber pelo menos dois aspectos.

O primeiro já falamos. Para a memorização  de longo prazo, o melhor é fazer pratica-distribuidaa PD. Intervalos longos entre as sessões são melhores que os curtos. Lembrou do “vem fácil, vai fácil”? Então a PD deve ser aplicada principalmente quando a memorização é a de longo prazo. E em quando isto? Ora, nos itens de conhecimento central; “a”, “b” e “c” acima. Conhecimentos fundamentais para a prática profissional futura ou para o aprendizado de disciplinas subsequentes e provas de conhecimento acumulado.

Agora vamos à um segundo aspecto. A PD é ótima para o longo prazo. Ok. Mas, e o curto prazo? Volte ao gráfico. Observe que o estudo maciço é melhor. Veja que o desempenho dos alunos em testes imediatos (círculo) ou separados de 1 dia (quadrados) foi sempre melhor que os da PD.  Claro que naquele teste feito 30 dias após foi pior, mas aqui eu estou me referindo  à testes que acontecem logo após a sessão de estudo.

Então ficamos assim: Quando você perceber que os conhecimentos a serem cobrados são do tipo periféricos, criadores de contexto, o melhor é estudar mais intensivamente. Ou seja, o estudo maciço favorece o “vem fácil”, e neste caso ( e apenas neste) o “vai fácil” não importa muito.

Ah! Então ficamos assim: “Importantes” é PD e “decoreba” é estudo maciço? Não! Alto lá! Estas duas “categorias”, principalmente a “decoreba”  não substituem  a classificação de central e periférico. Você ainda precisa discriminar entre o centro e a periferia. Até porque, há itens que precisam ser memorizados para que outros possam ser aprendidos. Um exemplo muito simples: Nomes. Seja em língua estrangeira seja na nomenclatura técnica. Se você não sabe o nome da “coisa”, não pode aprender a usar o “troço”. Ok?

E só mais um detalhe. O estudo maciço funciona melhor para itens de memorização simples. Já para resolução de problemas, compreensão de processos e conhecimento interdisciplinar a PD é bem superior.

Por isto cuidado com as simplificações. Ao estudar faça-o com critério e Inteligência. Acreditamos que a Prática Distribuída pode ser benéfica para você. Experimente e nos mantenha informados de seus progressos nos comentários.

Um grande abraço

(1) Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

(2) Caso você queira saber mais, há três outras postagens que podem ajudá-lo. São elas:

(3) Portanto não me venha com “piadinhas” dizendo que basta estudar um assunto hoje e mais uma vez dali a 10 anos para lembrar-se dele até o resto da vida. Ok?

Curso de Técnicas de Estudo e Motivação para a Aprendizagem

Olá a todos;

Este ano estou mais uma vez oferecendo a disciplina de aprendizagem “NUT001- Estratégias para o aprimoramento da aprendizagem na saúde.”. Se você é aluno de graduação da UFRJ na área da saúde, este convite é para você. Seja bem vindo!

Professor Mauricio Peixoto

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Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 1) – O que é?

Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Associado do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde

 

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“Relógio Mole, momento da primeira explosão” de Dali, como referencia ao Big Bang.

Estudar durante longo tempo, passar noites em claro. Você conhece isto?

É muito comum que alunos façam grandes blocos de estudo. São horas a fio,  lendo, fazendo exercícios, e muitas vezes isso se estende por dias. É frequente que isto seja entendido como o “bom estudo”, como a atitude mais adequada, principalmente quando se aproxima a semana que todo estudante “ama” – a semana de provas.

Mas seria isso realmente a forma adequada de estudar, estudar em massa, por longos períodos? Esta estratégia pode ter te salvado, pode ter sido útil em alguns momentos. Afinal de contas é melhor isto que fazer nada. Mas, caro leitor, esta não é a melhor maneira para aprender.

Hoje vamos apresentar a vocês, uma estratégia presente no artigo escrito por John Dunlosky e colaboradores, “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology”, esta estratégia é chamada de Prática Distribuída (PD).

Todo mundo sabe que repetir ajuda a lembrar. Então é só ficar repetindo para se dar bem nas provas? É… Mas não é!

Um primeiro problema é que se eu falo de repetir as pessoas pensam logo em logo em decorar. Não, por favor, não é isto. Decorar não dá certo, não funciona e cada vez mais as provas de “decoreba” estão desaparecendo. No ensino superior então nem se fala… Aprender é muito mais que decorar uma lista de nomes, datas, fatos ou processos. É saber tudo isto e poder usar na prova, mas também na sua vida diária e profissional. Não é objetivo deste texto aprofundar o assunto. Então, dado o aviso, vamos ao segundo problema.

Suponhamos que você decidiu  estudar um determinado assunto e sabe que uma vez só não basta. Você esquece o que estudou. Então tem que estudar de novo. O “aluno padrão” como e que faz? Deixa tudo para depois e na véspera da prova estuda, estuda e estuda. Isto é, repete, repete e repete. Grande candidato para a decoreba e o fracasso!

O aluno menos “padrão” começa um pouco antes. Dependendo da quantidade de matéria, talvez alguns dias ou semanas. Já é melhor. Estuda durante mais tempo e em cada período de estudo se cansa menos porque fica menos tempo estudando. E então na hora da prova a nota melhora.

Já o aluno “fora do padrão” faz melhor. Procura ser ativo no estudo e compreender o que estuda. Estuda desde o início do curso. Repete o estudo dos temas com critério e regularidade. Na hora da prova não tira “10” necessariamente. É melhor em algumas matérias e pior em outras. Mas suas notas são regularmente boas e altas.

E porque isto acontece? Há várias causas, mas no que importa aqui, uma boa razão é que ele não estuda “muito”. Ele estuda “bem”. Ele utiliza a Prática Distribuída (PD).

O que é a Prática Distribuída?

É o que diz o termo, você faz a PD quando você distribui o seu estudo ao longo do tempo. Isto é, você estuda um mesmo tema várias vezes. Mas, e isto é importante, entre uma sessão e outra do estudo você deixa passar um tempo. Ou seja, você distribui ao longo do tempo as repetidas sessões de estudo. Entendeu?

Mas observe que repetir não é decorar. E, além disto, ao repetir você não precisa fazer sempre a mesma coisa. Por exemplo, primeiro você poderia ler sobre o assunto, em outro momento você poderia fazer um esquema, depois um resumo, fazer exercícios, ou ainda  tentar repetir de memória, conferindo no livro depois. Então entenda que o que você repete é o estudo daquele tópico específico que você precisa aprender. As formas de fazê-lo podem e devem ser variadas.

A PD funciona? Por que?

A PD é uma estratégia de aprendizagem que faz muito tempo, vem sendo pesquisada com resultados positivos. Por exemplo, já em 1979 Bahric fez um experimento para comparar o estudo maciço (repetição sem intervalo) com a PD. Para isto comparou 3 grupos com cada um com diferentes intervalos de tempo entre uma sessão de estudo e 30 dias depois da última sessão todos fizeram  uma prova. Vejam na figura abaixo o que ele encontrou:pratica-distribuida

Foram 6 sessões de estudo, e no início de cada uma foi feito um teste sobre o assunto. Notem que o teste era sempre feito antes do estudo. O primeiro grupo, representado pelos círculos fez as seis sessões uma seguida da outra. O segundo grupo (quadrados) fez o estudo em dias seguidos e o terceiro (triângulos) fez um intervalo de 30 dias entre uma e outra sessão.

O que você pode perceber é que o desempenho de todos os grupos foi progressivamente crescente, mas o que fez o intervalo mais longo foi sempre pior nas provas. Nada demais, você diria. Com tanto tempo entre um estudo e outro, é claro que eles tinham que esquecer muita coisa.  Eu concordo, faz sentido. Mas vejam o que aconteceu  na prova final, um mês depois que eles pararam de estudar. Observe que a seta mostra que o grupo de maior intervalo (30 dias) teve desempenho melhor que os outros dois!

Ué? Como assim? Parece maluquice, não? Pois bem, há várias teorias que procuram explicar isto. Aqui vou apresentar apenas uma, que não só faz sentido como também é particularmente interessante para este texto.

Note que, ao contrário dos intervalos curtos, o grupo do intervalo longo precisava fazer um esforço extra para lembrar-se dos assuntos, tanto na hora do teste inicial como também durante a sessão de estudo subsequente. Isto quer dizer que estes alunos, ao contrário dos outros,  tinha que buscar as respostas. Os outros já as tinham “na ponta da língua”. Desta forma, os alunos do intervalo longo, ao responder o teste estavam exercitando também os seus mecanismos de busca, coisa que os outros não precisavam. É por isto que se diz: “Vem fácil, vai fácil”.

Há ainda uma série de outros estudos que não cabe citar aqui. Por agora basta saber que a PD foi testada em muitas e diferentes situações e em todas,  a PD se mostrou superior ao estudo maciço. Foi demonstrado que a PD independe da idade, de crianças a idosos podem utiliza-la com benefícios. Também seus benefícios se apresentaram em diferentes conteúdos, do ensino elementar ao superior, nelas incluídas as da área da saúde. Finalmente ela não se restringe à instituição escolar. Estudos clínicos demonstraram seus efeitos na esclerose múltipla, traumatismo craniano e amnesia.

Talvez neste momento  você esteja confrontando a sua experiência com estudo e o que aqui se apresenta. Quando as pessoas estudam repetidamente e em curtos intervalos, geralmente ficam mais tranquilas, já que ao final de algumas repetições  elas passam a acreditar que sabem tudo. Não é verdade?

Aqui entra um detalhe importante  do que sabemos sobre a metacognição (conhecimento sobre o conhecimento).  Quando você estuda há duas perguntas que parecem iguais, mas não o são: a) Aprendi o assunto? e b) Serei capaz de responder bem às questões de prova?  Não é exatamente verdadeiro que se você aprendeu, vai responder.  Note que nem sempre saber significa que você pode demonstrar que sabe. É aquela situação em que te perguntam: Ah! Você sabe isto? Então explica!

Note no gráfico como isto aparece. Já mostrando que a PD distribuída melhora o desempenho na prova que é feita trinta dias após, e isto é um argumento em defesa da PD. Mas outra coisa é o desempenho dos alunos durante as sessões de estudo. Perceba como o gráfico mostra que os seus desempenhos são muito melhores no estudo maciço.

Isto não explica porque você se sente melhor após várias etapas seguidas de estudo?  É o que Michael (1991) chamou de “curva da procrastinação”, que é um nome complicado para se referir ao “aluno padrão” descrito linhas acima. Ou seja, quando a prova está longe, o estudo fica esquecido. A medida que ela se aproxima mais intensa e frequentemente o aluno passa a estudar.  E perceba como, por vias tortas, isto acaba sendo verdade. O aluno favorece a memorização imediata. E isto é bom (pelo menos parece que é bom); mas o preço que se paga é o rápido esquecimento.

Uma vez, conversando com um oficial de alta patente, ligado ao ensino militar, escutei o seguinte comentário:

– Meus alunos estudam muito para as provas, e respondem bem às questões. O problema é que  normalmente após os testes fazemos sessões de treinamento físico, e depois  todo o conhecimento sai pelo ralo junto com a água do banho!

Então? Percebeu como a Prática Distribuida pode te ajudar? Espero que sim.

Se você se interessou, talvez agora você tenha outras perguntas sobre a PD. Por exemplo:

  • Como fazer a PD?
  • Repetir como?
  • E as matérias?
  • Repetir quando?
  • Como estudar para a prova?

Estas perguntas são legítimas e vamos respondê-las no próximo post. Ok?

Um grande abraço

Nota: Este artigo prossegue no post “Você precisa de tempo! A Prática Distribuída (Parte 2) – Como fazer?

Quer aprender? Durma!!

Pedro Henrique Maraglia
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde
Prof. Mauricio A. P. Peixoto
Doutor em Medicina, FM – UFRJ
Professor Adjunto do Laboratório de Currículo e Ensino
Núcleo de Tecnologia para a Saúde (NUTES)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

garfield-dormindo-e-sonhando-com-conhecimentos

“ Preciso estudar muito, tenho que passar no vestibular”

“Tenho
que estudar e tirar boas notas nas provas. Preciso melhorar meu desempenho!”

Certamente você já ouviu e muito provavelmente disse estas frases. Claro, porque quanto mais se estuda maiores são as notas. Se estudo muito vou bem nas provas.  Se estudo pouco vou mal nas provas.  Ou não?

E neste momento caro leitor, você deve estar se perguntando sobre a sanidade mental deste que vos fala.

  • “Mais é muita matéria, como que não vou estudar muito?”
  • “Olha estou indo bem, estou me matando mas pelo menos tiro boas notas”
  • “Sempre me falaram que tenho que estudar muito para ter resultados”.

Se é assim, porque às vezes mesmo depois de muito estudo, as notas não são o que você espera? Há muitas causas para isto, mas agora vamos nos dedicar apenas a uma: Se você quer aprender tem que estudar. Mas também tem que dormir!

Nem sempre a quantidade de estudo é suficiente. Às vezes você faz um esforço enorme, mas se decepciona com o resultado.  E no caso específico deste post, depende do que você faz com o que estudou. Mas atenção. Cuidado com a conclusão fácil:

  • “ Mas então, se estou estudando muito, vou estudar pouco, em cima da hora, assim poupo meu trabalho e, ainda vai ser mais difícil esquecer”.

Mais  devagar amigo! Vamos por os “pingos nos ” i´s”. Não adianta estudar muito e fracassar ,mas também estudar tão pouco a ponto de não estar preparado. Encontrar o equilíbrio aqui é o ideal e claro se valer dos conhecimentos que vem sendo produzidos por pesquisadores que se dedicam a entender e buscar o melhor para sua aprendizagem. E é isso que vamos apresentar vocês hoje.

Vamos entender a memória:

Quando você se lembra de algo, você diz que este algo está armazenado na sua memória. Ok? Então vamos pensar na memória como uma função do seu cérebro. Há uma memória que chamamos de “curto prazo” e outra de “longo prazo”.

O que importa aqui é que na memória de curto prazo a lembrança é muito rápida. Algo do tipo, ao discar um número de telefone, lembrar-se da sequência dos números.  E às vezes não nos lembramos dos primeiros números e esquecemo-nos dos finais? E aí temos que voltar ao catálogo para terminar de discar? A memória de curto prazo é provisória e, por isto se aquilo que você estudou ficar só na memória de curto prazo pode ser que no dia seguinte, após  uma noite de sono você não lembre de nada. Já pensou?

Mas para isto existe a memória de longo prazo. É ela que você usa para guardar tudo o que você precisará no futuro. Do nome de uma pessoa ao conteúdo da prova.  E felizmente para você há um certo automatismo na passagem do curto para o longo prazo.  Esta é a razão pela qual pelo menos uma parte do que você estudou ontem está disponível hoje e estará amanhã (assim você espera). E o problema é este; você espera…

O que fazer então?

Você já sabe que a memória de curto prazo é…de curto prazo. Ok? E ainda que o sono “apaga” esta memória. E isto é importante porque  se assim não fosse você ficaria a vida inteira se lembrando de tudo o que aconteceu o tempo todo. E o que é pior, haveria um momento em que o “espaço da memória iria acabar” e, sem espaço para lembrar, não iria guardar mais nada. Sua vida seria um eterno presente. Por isto o sono é fundamental ao limpar sua memória de curto prazo preparando-a para novos eventos e informações.

Neste caso então é que ao estudar o dia todo,  acumular muitas informações na sua memória de curto prazo e, no final do dia dormir, você corre o risco jogar fora todo um dia de trabalho.

  • “ Mas então não devo dormir????”

Não, não é bem assim. A memória de longo prazo está disponível para ser usada. E te interessa que as informações possam passar  da memória de curto prazo para a de longo prazo.  Alguma informação sempre passa sem que você faça nada para isto. Mas o que importa aqui é que você seja capaz de ter algum controle sobre isto. Você precisa “dizer” para o seu cérebro qual informação deve ser guardada, e qual pode ser descartada.  Ok?

O critério que o cérebro usa é o da importância. Guarda o que importa e abandona o resto. Assim  o que você precisa fazer é avisar seu cérebro que determinada informação é importante para que ela possa ser transportada para a memória de longo prazo e, não descartada. Para isto, você precisa usar alguns recursos que mostrem ao seu cérebro que aquela informação é importante. E isto se faz de variadas maneiras. Por exemplo:

  • Repetindo as informações (não é muito eficiente)
  • Fazendo ligações entre os assuntos (isto é mais eficiente)
  • Realizando autotestes (ver Como transformar os testes em seus melhores amigos)
  • Estabelecendo metas de aprendizagem (eficiente)
  • Associando o assunto com emoções significativas para você (eficiente)
  • Etc, etc, etc…

Como você viu, há muitas maneiras de sinalizar a importância de um tema ou informação. E todas elas merecem maior detalhamento. Mas e esta história de dormir? Afinal este o tema de agora.

Dormir para aprender. Mas como?

Em resumo o que você precisa fazer é:

  1. Carregar sua memória de curto prazo.
  2. Transferir as informações da memória de curto prazo para a de longo prazo.
  3. Aproveitar a memória!

E então como fazer?

Comece alimentando sua memória. Faça isto estudando. Sublinhe, esquematize, resuma, leia de forma eficiente, faça exercícios, repita o conteúdo. Ou seja, estude bem e em quantidade suficiente.  Mas até aí novidade nenhuma! É o que todos dizem para fazer.

É, mas tem um detalhe. A maneira com que você faz isto faz toda a diferença. Note que esta coisa de curto e longo prazo não é assim tão estanque. Não se pode colocar estes processos em “caixinhas “ separadas. O tempo todo uma se comunica com a outra. Então a forma como você estuda vai favorecer ou não a transferência  de informação da memória de curto prazo para a de longo prazo. Por isto é que acima sugerimos algumas técnicas e entre parênteses dissemos o que era e o que não era eficiente. Por exemplo; conectar os assuntos entre si é muito mais eficiente que simplesmente ficar repetindo a informação.

E o sono? Onde entra nisto? Ele é importante porque auxiliar a fixação do conteúdo. Veja só:

A passagem de informações da memória de curto prazo para a de longo prazo ocorre normalmente durante o dia, mas, é durante o sono que esse trânsito de informações se intensifica.  Além de limpar a memória de curto prazo, o sono é importante para sua memorização.

Durante o sono, sua atividade cerebral aumenta. Isto é comprovado por uma série de estudos. E é neste momento que as informações  armazenadas durante o dia vão ser descartadas, ou  então , direcionadas a memória de longo prazo. Por isto dormir é importante para memorizar.

Mas não basta dormir e deixar para o automatismo cerebral a passagem  das informações para a memória de longo prazo.  Você já sabe que o cérebro guarda o que é importante. Mas ele só sabe qual informação é importante se ela está “marcada” de alguma maneira. E isto você também sabe. Mas questão aqui é que inevitavelmente você sempre está “marcando” informações. Quer você saiba (ou queira) ou não.  É o processamento dos eventos e informações do dia que vai “marcar” a informação como importante ou não.

Por exemplo; as informações que estão relacionadas a emoções acabam por ser memorizadas mais facilmente.  Às vezes você lembra mais da piada ruim que seu professor contou, do que do conteúdo da aula. Não é verdade? Um evento traumático certamente será lembrado; talvez um acidente ou ainda uma notícia ruim. Esses eventos acabam sendo sinalizados para seu cérebro como algo importante e que tem que ser armazenado, e por isso, saem da memória de curto prazo para a memória de longo prazo.

Então se as coisas que acontecem ao longo do dia fazem esta sinalização; o que você deveria fazer para sinalizar com importante aquilo que você estudou?

Como fazer isso?

Eis a sugestão:

  • Estude pouco, mas com qualidade, pouco, mais todo dia e antes de dormir reserve um tempo para fazer uma revisão do que você estudou durante o dia.

Simples não é? Não há nada de mirabolante.

Quando você estuda antes de ir dormir, você está avisando ao seu cérebro que essa informação é importante  e, que não deve ser jogada fora. E durma. Dormir é importante alimentar a sua memória de longo prazo.  Fazendo isso você pode potencializar sua aprendizagem e, ter tempo para outras atividades que também são frutíferas a vida. Estude pouco, mas estude todos os dias!  Esta é a fórmula:

  • Boa memória = Estudar bem e sempre + Revisão antes de dormir

E depois? É só continuar fazendo isto e verificar como dá certo. Ok?

Convite para alunos de Pós-Graduação

Convite estendido para a atividade (não obrigatória, mas bacana) que estamos organizando com a turma de mestrado 2016 no marco da disciplina ECS II…
Todo mundo convidado! Se agradece divulgação!
*Pode assistir de manhã, de tarde, ou em ambos dos momentos!

Turma ECSII – Mestrado Educação em Ciências e Saúde

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Mostra Audiovisual sobre Diversidade

Convidamos para visita à Mostra Audiovisual sobre Diversidade, organizada pelxs alunxs da disciplina de graduação Imagem e Educação, Ciências e Saúde, que ocorrerá de 17 a 21 de outubro, sempre das 12 às 13 horas, no hall do Bloco A.A3 - Programação completa (1).jpg